Vivendo e Aprendendo a Jogar

Por: Instituto Filantropia
26 Maio 2014 - 20h14

Sou voluntária em uma instituição social há 14 anos. Estou atualmente como diretora de projetos sociais e participando do acompanhamento do Programa Ampliar Horizontes, projetos Com Beleza se Põe a Mesa e Com Gastronomia se Põe a Mesa. Em ambos os projetos, temos a preocupação com o conteúdo programático e com a prática profissional inerente a cada curso: cabeleireira(o), manicure, depiladora e auxiliar de cozinha. Também realizamos oficinas de cidadania, buscando integrar o aluno às alternativas de vivência comunitária e ampliando horizontes.

Porém, um fenômeno que tenho observado com os alunos formados nos referidos projetos é a dificuldade em sair dos limites da comunidade para adentrar outros espaços da sociedade. Fato significativo é que todos os cursos da área de beleza têm fila de espera. Talvez porque o profissional formado possa atuar como autônomo nas residências ou em salão. Normalmente, ambos os tipos de trabalho têm continuidade na própria comunidade. O auxiliar de cozinha também procura aprimorar seus conhecimentos para continuar trabalhando como cozinheira(o), empregada doméstica, ou trabalhar como autônoma(o), fazendo encomendas para fora, porém, dentro da comunidade.

Compartilhando esta vivência com outros profissionais de várias instituições, percebi que muitos apresentaram, de uma forma ou de outra, esta mesma dificuldade.
Estudando o assunto

Lendo Zygmunt Bauman, no livro “Comunidade – A Busca por Segurança no Mundo”, algumas constatações me foram possíveis: sobre comunidade, o autor narra que “as palavras têm significado, algumas delas, porém, guardam sensações. A palavra ‘comunidade’ é uma dessas. Ela sugere uma coisa boa: o que quer que ‘comunidade’ signifique, é bom ‘ter uma comunidade’, ‘estar numa comunidade’. Para começar, a comunidade é um lugar ‘cálido’, um lugar confortável e aconchegante. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada. Lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita: temos de estar alertas quando saímos, prestar atenção com quem falamos e a quem nos fala, estar de prontidão a cada minuto”.

O conceito também se refere às comunidades virtuais, nas quais podemos ter “um milhão de amigos” conectados, mas, presencialmente, cada vez mais nos afastamos do contato pessoal. Portanto, avalia que o conceito de “amizade” é diverso hoje do que foi antes. O autor também constata que o mundo foi se dividindo em:

NOVO COSMOPOLITISMO DOS BEM-SUCEDIDOSINDIVIDUALIDADE DE JURE:

São os indivíduos de jure, isto é, aqueles indivíduos que não são capazes de praticar a individualidade de fato, aqueles deixados de lado e que têm de resolver seus problemas sem contar com ninguém.

INDIVIDUALIDADE DE FACTO:

São aqueles que venceram, donos do seu próprio destino, com liberdade de opções, com seus guetos voluntários.
Comunitarismo é uma filosofia de fracos: fracos são os indivíduos de Jure, pois não são capazes de praticar a individualidade de facto.
Outro aspecto interessante abordado pelo autor analisa que a Ideologia do Mérito não se compatibiliza com o conceito de comunidade:

IDEOLOGIA DO MÉRITO – NEGAÇÃO DA COMUNIDADE

• Desmantelamento das provisões previdenciárias, do seguro comunitário contra o infortúnio individual.
• Passa de uma obrigação fraternal e direito universal para o conceito de caridade: dos que estão dispostos a ajudar aos que têm necessidades.
• Visão meritocrática do mundo que não aceita o princípio comunitário do compartilhamento.
• Não aceitação – maior que a avareza – envolve distinção social: dignidade, mérito e honra.

Não há lugar para a pobreza, indignidade, humilhação ou incapacidade de participar do jogo de consumo.

Alguns conceitos adicionais importantes para nossa análise estão relacionados à divisão e à fragmentação, com a “Política do Medo”, o distanciamento dos espaços públicos e assim por diante. A conclusão é que hoje vivemos em guetos: voluntários ou reais e verdadeiros.

Podemos concluir, pelas constatações da prática profissional e pela leitura de Z. Bauman, que os guetos voluntários, reais e verdadeiros tendem a dividir cada vez mais a sociedade em opostos preocupantes para uma vida saudável em sociedade. O fenômeno inicialmente proposto para análise parece confirmar esta tendência, deixando o trabalhador social, na encruzilhada entre os “dois guetos”: somos indivíduos de jure ou de facto? Podemos considerar os guetos voluntários como “protegidos” e os “reais e verdadeiros” como desprotegidos? A segurança é relativa em qualquer um deles. A violência urbana prova isso.

UMA PITADA DE OTIMISMO

Outro fenômeno interessante é que os jovens e adultos que fazem parte dos projetos sociais citados inicialmente demonstram que não têm interesse em sair de sua comunidade, talvez por acomodação, mas também por desinteresse em fazer parte desta “festa”, para a qual não foram convidados. E a divisão se confirma.

Parafraseando Z.Bauman, que fala em “Tempos Líquidos” em um dos seus livros, penso mais que vivemos “Tempos de Displicência”, no qual valores são questionados e limites são rompidos de forma acintosa e chocante, como bem demonstram os noticiários.

Por outro lado, parece-me muito pessimista esta visão pela qual não há saída. Como já foi dito, o bom do fundo do poço é que não há mais para aonde ir. Acredito que novos modelos de convivência devem emergir desses limites questionados, incluindo as comunidades digitais, que podem ser um excelente espaço de discussão saudável.

É possível que, no vento destas mudanças, o trabalhador social terá papel importante e, aproveitando este momento, trabalhe com gestão participativa e respeitosa em relação ao que deseja de fato o usuário do seu serviço.

Para concluir, cito um dos eixos norteadores do trabalho social, que é a resiliência, ou seja, a capacidade de superar adversidades e transformá-las em aprendizado e crescimento: ampliando para famílias, comunidades e sociedades resilientes.

GUETOS VOLUNTÁRIOS

• Não são verdadeiros. É um leve manto, bonito e confortável;
• A crença de que pode-se tirá-lo torna-o leve, nunca irritante ou opressivo;
• Impedem a entrada de intrusos, os de dentro podem sair à vontade;
• Pretendem servir à causa da liberdade;
• Efeito sufocante, não intencional, isolamento e medo.

GUETOS REAIS/VERDADEIROS:

• São verdadeiros. Gaiolas de ferro, apertadas, incômodas, incapacitantes: situação sem alternativa, destino sem saída;
• Lugares de onde não se pode sair;
• Negação da liberdade;
• Espantosa capacidade de permitir que o isolamento se
perpetue e exacerbe.

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