Juventude reversa

Por: Francisco Iglesias
02 Setembro 2021 - 00h00

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Muitos de nós já escutamos que Jack Welch, ex-CEO da GE-General Electric, além de fazer com que a empresa se tornasse a número 1 ou 2 em tudo o que produzia, aumentando as suas receitas de aproximadamente de US$ 26,8 bilhões, em 1980, para 130 bilhões, em 2000 (ano anterior à sua saída), foi o criador da mentoria reversa. Esse conceito surgiu no fim dos anos 1990, quando Welch promoveu o desenvolvimento e aprendizado do uso da internet pelos mais velhos por meio do ensino e apoio dos profissionais mais jovens.

Atualmente é cada vez mais comum a prática da mentoria reversa, uma metodologia de ensinamento e aprendizado de mão dupla. Para os jovens funcionários, este método contribui para o desenvolvimento da maturidade e da humildade ao saber ouvir o outro. Para os mais experientes, demonstra que os conhecimentos dos mais jovens vão muito além do uso das mídias digitais, provocando uma reflexão de temas que não cabem mais no século 21, como a discriminação racial, a homofobia e o aquecimento global.

Em 2020, tive a minha primeira experiência em mentoria reversa ao participar de um programa de aceleração de Startups. Os profissionais tinham pouquíssimos “quilômetros rodados”, e o foco, como os demais programas de inovação, era construir um elevator pitch, algo como um discurso a um potencial financiador com duração de um a três minutos. Reza a lenda que devemos estar preparados para o caso de encontrarmos no elevador o Bill Gates, dono da Microsoft, ou um Antônio Luiz Seabra, dono da Natura, para nos tornarmos o Mark Zuckerberg, o criador do Facebook. Terminei o programa com a sensação de que o conteúdo não era uma novidade importante, mas que a valorização da forma passou a ser a bola da vez.

A forma se transforma, deforma-se e se reforma, continuamente.

Segundo o contador da população 50+ da Consultoria Ativen, a cada 21 segundos “nasce” um brasileiro com mais de 50 anos para se somar à geração de uma população superior a 55 milhões de pessoas. E de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), uma pessoa nascida no Brasil em 2019 tinha expectativa de viver, em média, até os 76,6 anos e a longevidade feminina é, em média, sete anos acima da dos homens.

E o que é mais difícil quando se procura emprego acima dos 50? É a idade. Existe um preconceito no mercado de trabalho brasileiro contra profissionais mais velhos. A taxa de desemprego de pessoas com 50 anos ou mais no Brasil chegou ao seu nível mais alto em 2020, de acordo com o Plano Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em um ano, do fim de 2019 até o fim de 2020, mais de 400 mil brasileiros nessa faixa etária caíram no desemprego.

No entanto, as empresas parecem não estar prestando atenção a esse fenômeno social que está surgindo. Faltam campanhas nos meios de comunicação que combatam a discriminação etária, que aumentem o conhecimento sobre envelhecimento e promovam a criação de leis contra esta discriminação. Não dá mais para programas de entretenimento, como aquele que ridicularizou uma suposta mãe, “uma mulher adulta de 57 anos”, que tem dificuldades com a tecnologia. A tecnologia de hoje não estará presente quando esses comediantes tiverem os mesmos 57 anos. Não é uma questão de idade; trata-se
de aprendizagem.

Para tornar mais clara a ideia, uso o exemplo de profissionais de planejamento: se você é daqueles não familiarizados com tecnologia e se assusta com novos termos como metodologia ágil, MVP, Squad, Scrum... não se preocupe, é uma questão de costume com a nova forma. É um verdadeiro déjà vu de práticas já consolidadas. Tudo é muito similar. A metodologia ágil, por exemplo, é a forma de acelerar as entregas durante o desenvolvimento de um projeto, fracionando o todo em partes incrementais que possam ser validadas em todas as etapas, e não só ao final, como antes era feito. MVP (Minimum Viable Product ou Produto Mínimo Viável) é o velho e bom protótipo de antes, porém, mais testado, para que o produto possa ser oferecido mais maduro ao mercado. Squad são os clássicos trabalhos em equipes multidisciplinares, que sempre foram desejados e existiam, mas não formalmente como agora. E framework Scrum, grosso modo, é utilizar de Post-its para algum brainstorm – técnica antiga para compartilhamento de ideias. Com os Post-its é mais fácil um item ser movido ou descartado, ou seja, ajudam a tornar a forma de anotação mais fluida em relação à escrita fixa.

Envelhecer é também adaptar o vasto conteúdo das experiências na nova forma do corpo e da forma de viver. É aprender continuamente que tudo muda de forma. Com mentoria, com o aprendizado. Sempre.

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