Uma formação acadêmica diferente

Por: Tiago Cardoso da Costa Lima.
01 Dezembro 2005 - 00h00

“Venho de uma família de classe média que sempre me garantiu todo apoio necessário. Ao mesmo tempo, sempre houve a preocupação de se mostrar o valor de tudo que tínhamos, comparar à realidade ao nosso redor. Logo, sempre fui uma pessoa atenta ao cenário social em minha volta, mas nunca havia participado efetivamente de alguma atividade modificadora. Até que, certo dia, surgiu um convite de dentro da família. Minha mãe havia coordenado uma oficina de protagonismo juvenil da ONG Natal Voluntários, cuja temática principal, abordada naquele dia, era a dificuldade de ingresso em universidades federais por alunos de escolas públicas.

Dessa forma, ela sugeriu que alunos da própria universidade poderiam auxiliar os estudantes de escolas públicas para transpor essa difícil barreira. Na época, início de 2001, eu tinha 18 anos e cursava o segundo ano de Biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mas agarrei a problemática apresentada por minha mãe como um desafio a ser superado. A iniciante vida universitária coincidiu com meus primeiros passos no mundo do voluntariado, permitindo-me obter uma formação acadêmica diferenciada da grande maioria.

Nessa mesma época, após conseguir o apoio de alguns amigos da universidade, iniciei com um pequeno grupo o projeto Elo Universitário, em que a vontade de ajudar superava a falta de experiência na área de ensino. Nós nos encontrávamos todos os sábados pela manhã para formar grupos de estudos com alunos da rede pública. A dificuldade inicial de acordar cedo nos finais de semana logo foi substituída pela vontade de encontrar o grupo na escola e crescer cada vez mais com os alunos.

O resultado positivo de aprovação no vestibular no nosso primeiro ano foi uma injeção de ânimo, advindo novos voluntários universitários de diversos cursos e parceiros do setor privado. No desenvolver do projeto, nos sentimos mais confiantes e decidimos ministrar aulas de preparação para o vestibular. Atualmente em seu sexto ano, o grupo é composto por voluntários de todas as áreas exigidas no vestibular.

Vivência

A minha participação no projeto possibilitou conhecer pessoas diferentes, com vidas e realidades bem distantes da minha. Deparei-me com situações diversas – que surgiam para mim como um tapa na cara – como de alunos que muitas vezes faltavam às aulas por não possuir dinheiro para o ônibus. Assim, meus problemas eram evadidos e eu me forçava a enxergar certas situações por perspectivas distintas.

Ao mesmo tempo, desfrutava dos serviços de uma universidade pública, e essa condição obrigava-me a buscar ainda mais alguma forma de retribuição, por saber que muitos desejariam ter uma vaga como a minha, mas que, no entanto, não detinham nenhuma condição.

Outro passo

A vivência na área do voluntariado também me trouxe bastante felicidade, ao conhecer outras pessoas que desenvolvem trabalhos transformadores. Ainda na universidade, em 2004, convidei três amigos universitários que participavam de três ONGs diferentes para compor outro projeto: o Centro de Voluntariado Universitário (CVU). Nosso objetivo é explorar, da melhor forma possível, a participação social dentro da universidade, sair um pouco das quatro paredes da sala de aula e aplicar os conhecimentos diretamente nas comunidades.

Na criação do centro, pensei na possibilidade de outros alunos terem uma formação semelhante à que vivenciei, com um desenvolvimento mais amplo, mais humano. Algo essencial para os dias de hoje, nos quais cada vez mais se estimula apenas o individualismo, a concorrência, e que, para se atingir certos objetivos, as pessoas optam por caminhos eticamente questionáveis.

Dessa maneira, me envolvi completamente na área do voluntariado, participando de cursos, palestras desenvolvidos pelo Natal Voluntários e outras atividades relacionadas. Em 2005, tive a oportunidade de representar o Brasil no Encontro Internacional de Jovens Voluntários realizado na França. Participaram do evento mais de 100 jovens de 50 países diferentes, todos envolvidos de alguma forma com trabalhos sociais.

Foram 15 dias convivendo com pessoas de culturas completamente diferentes, ouvindo os problemas e soluções que buscam em seus países, tentando filtrar o máximo possível da riqueza que circulava no encontro. Conhecer pessoas de mundos tão distintos, mas que compartilham de ideais semelhantes, nos dá força para continuar trabalhando e acreditar em um futuro melhor.

Benefícios

Em cinco anos de envolvimento em atividades voluntárias, posso constatar facilmente alguns benefícios como a experiência de trabalho em grupo, de coordenação, de criação de projetos etc. Porém, outros são mais abstratos. Como saber o valor da quantidade de amizades que criei nesse tempo, dos depoimentos de pessoas que afirmaram que nunca teriam feito o vestibular se não fosse o projeto, de saber que uma aluna do nosso primeiro ano está agora ingressando em um mestrado?

Certamente são satisfações que não têm preço. Devo destacar que esse caminhar por mundos diferentes me garantiu uma consciência política crítica diferente da qual teria caso não buscasse sair um pouco do meu mundo. Sei que a experiência me tornou uma pessoa, um profissional, muito mais sensível aos acontecimentos ao meu redor, por meio de ensinamentos que não são dados em nenhuma sala de aula, que só se consegue ao conviver com a diferença.

Atualmente, o desenvolvimento de uma atividade social apresenta-se para mim como algo natural, como os estudos, o trabalho e lazer. Não dá mais para fechar os olhos, principalmente em um país como o Brasil, com tamanha desigualdade social  Temos de procurar exercer nossa cidadania da forma mais plena possível. As alternativas de ações transformadoras são múltiplas, basta termos a consciência da responsabilidade de todos perante a sociedade em que vivemos.”

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