Um FIFE Para Chamar de Seu

Por: Aurimar Pacheco
09 Junho 2016 - 04h38

 

Estive no Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE) 2016 em Fortaleza (CE) e vi mais uma vez nosso povo ávido por formação, informação e aquilo que todos queremos e de que gostamos: atenção. Nós, que cuidamos tanto de gente, gostamos que cuidem de nós também. Se possível em um hotel à beira-mar, a preço de custo. Que se cuide do cuidador.

Esse é o conjunto de ações de um movimento emergente que se firma a cada ano, e já se foram três deles. Essa força chamada FIFE taxia rumo a seu destino: tornar-se indispensável na abordagem do social. Seja como política pública (desejável), investimento social privado, seja mais genericamente esse termo autorreferente chamado Terceiro Setor.

O segmento dito tem obedecido muitas regras de fácil compreensão. Quanto mais se afasta dos vícios do passado nas práticas sociais casuístas e amadoras, mais encontra seu lugar, sua espécie, seus iguais.

Ainda há resíduos do que se esvai, gotejamento daquilo que está passando perante o devir. Essa intercessão do velho e do novo ainda nos perseguirá muito, porque é um dado histórico, uma contingência inescrutável dos fenômenos sociais. O tempo social tem a velocidade de sua própria ação e de seus princípios. Quase sempre é geracional e agora também tecnológico, internacionalizado.

Mas mesmo assim já se afasta há minutos-luz de nossa realidade quando sentimos na busca coletiva as soluções individuais. Aquilo que responde a mim e a minha causa. Por outro lado, minha solução individual não será viável sem a verdade consolidada da mudança geral, da chavinha virada que retome uma lógica republicana. Será que é possível?

A prova da possível viabilidade está no elã das discussões. Discute-se tudo, de metodologia a financiamento, regras e relacionamento com o poder público ao cotidiano das entidades, o presente, o passado e o futuro da expressão projeto social. Se novas descobertas são essenciais para isso, faça-se o FIFE. Que nos encontremos nos litorais, montanhas e cataratas. Merecemos ótimas discussões e paisagem natural.

Dos participantes, alguns têm perfil bem definido.

Têm os dirigentes e técnicos que bem sabem o que querem. Com olhar de sabedor em equilíbrio com uma pitada de insegurança, circulam nas ideias. Querem saber o que tem de novo, eficiente e eficaz. Querem ver e ouvir novidades e não se furtam de puxar assunto com quem estiver por perto. Fazem conchavos e manuseiam o catálogo de cursos a acontecer com desenvoltura e marca-texto em riste.

Alguns destacam com asteriscos seus insondáveis interesses. Aqui e ali um resmungo de que “hum, foi bom saber disso. Não tinha pensado nisso”, ou os mais exigentes “isso no ano passado foi melhor”. São os veteranos do FIFE e que seguem para a quarta experiência.

Têm os de primeira viagem. São auscultores do momento. Dizem pouco e observam. Circulam nos ambientes e ouvem tudo. Comparam o FIFE mentalmente com aquele seminário do Recife, com a conferência de Brasilia e com a reunião do fórum X. Caminham encontrando seus semelhantes e estão sempre com uma informação nova a ser pedida. Nas mulheres o detalhe da bolsa grande e o caminhar sempre em duplas. Nos homens um ar circunspecto e a camisa social manga longa em listras bem ajustada por dentro da calça.

Esses calouros mantêm certo deslumbre no olhar e uma importante descoberta. “Parecem entrar enfim numa existência superiormente interessante”. Começam a entender o FIFE lá pela terceira oficina. Ficam sedados de interesse.

Têm a ala engravatada. Deixam-nos pensar que levam a sério demais a coisa simples. Mas ajudam a coisa a funcionar e garantem a estética do Terceiro Setor, aquela que se identifica com a empresa e com o negócio. Caminham pelos corredores com suas importâncias intactas demonstrando a si e ao mundo que têm palavra final. Deixam transparecer, sem esforço, a sombra Excel/ Power Point que lhes acompanha nos eventos. São lindos.

Falar nisso, este ano teve a radicalização do high tech, a tecnologia impondo-se pelos aplicativos e demais redes. Ainda não funciona total. O nosso povo, na maioria, é do tempo da agenda e da pergunta direta, participação saliva. Porém a aura que se cria alimenta a modernidade que queremos para nós. Tá bom de “questão de ordem” ou “questão de encaminhamento”, das nossas antigas sessões de militância estudantil.

Por fim, a alegria e as surpresas. Têm gente engraçada produzindo sorriso e a doce sensação de que você não está sozinho. De que há um modelo de formação para o social que constrói grife e supera o evento esquálido de que nos acostumamos a participar. E o cardápio é inesgotável. O Brasil social encontra-se ali, com seus sotaques, vestuários, temperaturas e incertezas. Faz tempo que somos uma usina de ideias e responsabilidades e orgulhamo-nos disso. Por isso, se você chegou aqui e ainda não foi a um FIFE, vá ao próximo. Você também precisa de um FIFE para lhe chamar de seu. Ele o acolherá.

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