Somos suas esperanças e seus sonhos

Por: Izabel Cristina Gonçalves
04 Julho 2014 - 17h56

Uma casa de Acolhimento Institucional é um lugar seguro. Talvez instável, porque é provisório. Mas é um lugar que nos leva a refletir sobre as oportunidades que criamos para centenas de crianças e adolescentes que aqui chegam, reencontram seus familiares e vão embora, como se nunca tivessem vindo. Melhor assim. Para aqueles que ficam mais tempo, o abrigo se torna porto seguro mais complexo do que a política de assistência administra.
Mas, o que fazer? Sorrisos, lágrimas, corações partidos. Qual a esperança nos olhos desses pequenos que vivem um mundo que muitos de nós não vivenciamos? Seus sonhos, seus objetivos, suas perspectivas de vida, onde estão? Longe do afeto materno, de um lar repleto de felicidades, da vida normal, onde estão? Como serão seus sonhos? Como enfrentarão a vida lá fora? Será que precisam de um cuidado redobrado, um carinho sincero, uma palavra amiga? Não tenhamos dúvidas que sim.
Mas quem poderá dar a eles o que lhes falta? Quem poderá saciar suas sedes de carinho, de amor, de um ombro amigo? De uma ausência insubstituível que lhes foi deixada por situações que lhe faltaram o respeito, o direito, o cuidado, o afeto? Quem?
Eu, você, nós e todos aqueles que têm em seus corações o calor humano, o calor de uma família, o calor do colo de uma mãe, de um pai. Sim, nós, que tivemos organizações em nossos lares e não sentimos essa falta. Nós, sociedade, que sobrevivemos às nossas próprias responsabilidades e devemos cumprir o papel de cidadãos, guardiões de quem ainda nem floresceu de todo para a vida, de quem sequer imagina ver cumpridas as promessas que lhe foram feitas ao nascer.
Talvez não possamos enxergar suas famílias agora. Passam por momentos de desagregação. Ao surgirmos como alternativa para essas crianças, eles veem em nós essa família que lhes falta. Estamos em seus caminhos. Fazemos parte das suas histórias. Seremos lembrados no amanhã como alguém que esteve presente no momento em que mais precisaram. Nas suas revoltas e lágrimas, estaremos ali, tentando acalmá-los. Com os mais crescidos, as crises e hormônios anunciam-se fortes. Saudade, tristeza, ansiedade.
A falta da mãe, das melhores amigas, da comida mais caseira. Até o namoradinho da escola que terminou o namoro complica o caos emocional.Difícil não achar que a vida é injusta, imprestável. E é ali que nós estamos! Estamos nas suas estradas, fazemos parte das suas vidas. Eles acabam se preocupando conosco porque sabem que nos preocupamos com eles. Nós somos suas famílias sazonais. Está em nós o dever de respeitar e lutar por esses pequenos inocentes, que precisam ser preparados para a realidade. Dando-lhes o amor, o mesmo que nos foi dado. Dando a eles a esperança de uma vida melhor do que a que eles tiveram na infância. Formando famílias e vivendo seus sonhos.
A política pública de assistência social tipifica o acolhimento institucional como um equipamento da chamada alta complexidade. Essa complexidade se expande no cotidiano do trabalho exigindo de cada um superação, compromisso e renovado fôlego para o enfrentamento de cada dia. O educador social do abrigo é um ser humano especial. Precisa ter a saúde em dia, ou não aguenta as demandas. Precisa ser criativo, bem humorado e paciente. Ao mesmo tempo, não pode ser ingênuo, sendo que a cada minuto precisa de uma poderosa lógica de coerência e compromisso com a causa.
Ao educador cabem decisões rápidas, certeiras, quase infalíveis. É um detetive em potencial pelo interesse daqueles jovens e crianças. Precisa ter informação, formação permanente. Deve buscar novos conhecimentos em fontes diversas. È imprescindível ter recurso retórico, saber falar, ter a oralidade clara, paciente e não desesperada. Dizemos no abrigo que, devido à vulnerabilidade dos meninos e meninas ali presentes, cada um com sua história de infortúnios, temos de ter a capacidade de saber “fazer exame de fundo de olho”. Esse exame é um aprendizado na faculdade do próprio abrigo. É uma graduação candente, dura, implacável.
O melhor aprendizado se dá em horas inesperadas, na abstinência, na hora da visita que não veio, no meio do silêncio estridente que trocamos em cumplicidade com esses jovens na sala, na hora das refeições, diante da cena da novela ou no meio do trajeto, dentro da Kombi, entre o abrigo e a escola.
Nossos dias começam cedo e terminam tarde. Há de se compreender as diversidades trazidas interpretá-las e devolvê-las em forma de carinho, compreensão e entendimento. Não se pode abrir mão do enfrentamento também. Muitos acolhidos, nos testes diários sobre nossa autoridade nos exigem firmeza de propósitos e principalmente conduta ética para não transigir ao senso comum. O fato de nossa natureza humana estar em contraste com todas essas situações cotidianas, nos ajusta o zelo pela coerência e a atuação em equipe.
Só assim podemos ser para essas crianças o começo da oportunidade de futuro. Apenas assim poderemos valorizar o sentido de família, convivência, de não abando.De valorização de seus sonhos e direitos plenos.
Sou honrada por ter a oportunidade de fazer parte dessa família e o privilégio de participar e fazer parte na história de cada um deles. Juntos nós poderemos resgatar seus sonhos e ensiná-los, preparando-os para um futuro melhor!

*Motorista do serviço de Acolhimento em São Bernardo do Campo SP

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