O escudo de Perseu e as pessoas apaixonadas pelo Brasil

Por: Felipe Mello
21 Março 2020 - 00h00

Este texto é uma colcha de retalhos. Deve ser por conta do turbilhão de emoções e sentimentos dos últimos anos, falando, diretamente, da cena política brasileira.

Após a frustração de um governo progressista ativo e/ou leniente com diversos esquemas de corrupção, conseguimos, como coletivo, em minha opinião, descobrir que o fundo do poço tem porão: na eleição presidencial de 2018, nos deparamos com um cardápio já marcado por baixa qualidade.

Democraticamente, elegemos uma pessoa despreparada, sem apreço e conhecimento aparentes sobre o que a sociedade civil vem conquistando e defendendo, nos últimos 30 anos, principalmente.

Repito, esta é a minha opinião. E, respeito a divergência, desde que ela se apresente pautada por argumentos reais e não por desvarios e notícias inventadas, amiúde, pelas já denunciadas milícias virtuais. Além de ser a minha opinião, também parece ser a de um enorme contingente, dadas as crescentes taxas de reprovação do atual governo federal.

Pois bem. Após a tempestade, vem a bonança? Trago, aqui, um diagnóstico que me provoca diariamente em relação à resposta da população, em especial do Terceiro Setor, frente aos desgovernos que se apresentam, com frequência inacreditável.

Na música do Gonzagão, o doutor nem examina, chamando o pai de lado, lhe diz logo, em surdina, que o mal é da idade e, que pra tal menina, não há um só remédio, em toda medicina. Afinal, ela só quer, só pensa em namorar.
Pois é. Penso que, para o diagnóstico que apresento a seguir precisamos nos tornar a menina. Precisamos querer namorar nosso país, nossa gente e nossas possibilidades.

Antes do diagnóstico, todavia, chamo ao papo um cara arretado: Nietzsche, filósofo alemão, que morreu em 1900, mas, é considerado cada vez mais atual. Se você quiser chegar mais perto da obra dele, sugiro o livro “Crepúsculo dos Ídolos”. Eu, na verdade, recomendo que você procure bons intercessores, gente que estuda o filósofo e possa apresentar a nós, leigos, de forma mais acessível.

Então, ele, o Nietzsche, tinha uma birra gigantesca de gente reativa, ou seja, gente que busca frear as pessoas ativas, criadoras, inventivas. Ele dizia que os(as) artistas são as pessoas ativas, por excelência, e, invariavelmente, surgem forças que buscam acanhar a inspiração criativa, que tenta, incessantemente, inventar um mundo novo, atual, plural e inclusivo.

A reação, como o próprio termo sugere, está na essência do comportamento reacionário, que não deseja mudanças, que reage para conservar as instituições tais quais sempre foram, ainda que o mundo aponte para mudanças irrefutáveis e humanamente indispensáveis.

Estou certo que Nietzsche estaria bem bravo com tanta vontade de travar a atividade humana. Ele estaria bravo demais com essa vigilância perversa da forma como as pessoas desejam amar, rezar, formar família, participar da vida coletiva, entre outras formas de inventar um mundo novo.

O Nietzsche, antes de abraçar a filosofia, começou sua carreira como filólogo clássico – um estudioso da crítica textual grega e romana – antes de se voltar para a filosofia. Ele mergulhou fundo no universo dos gregos antigos. Em homenagem a ele e ao povo helênico, que buscou elevar a condição humana, especialmente por meio da reflexão, trago o meu diagnóstico em relação à sociedade civil brasileira, neste momento: a maioria de nós está sofrendo de alexitimia, apatia e anedonia. Aos termos:

Alexitimia – a (ausência), léxis (palavra) e thymós (emoção): incapacidade da pessoa em descrever os seus sentimentos.

Apatia – a (ausência) e pathos (paixão): ausência de comoção ou interesse; insensibilidade, indiferença.

Anedonia – a (ausência) e hedoné (prazer): perda da capacidade de sentir prazer.

Mirando com mais atenção o Terceiro Setor, urge que seus integrantes se misturem e comecem a falar – com lucidez e argumentos –, mais e mais e mais sobre os sentimentos e atividades relacionadas aos rumos alarmantes que o Brasil vem tomando, em diversas de suas decisões políticas.

Nenhum direito a menos. Nenhuma censura permitida. Nenhuma perseguição à sociedade civil organizada. É o mínimo, para a contenção da sanha reacionária, como mostram diversos episódios, em tantas outras sociedades.

Precisamos conversar mais, falar mais, conectar mais, para recuperar a paixão gonzaguiana pelo país, em que o doutor nem precisa examinar, para ter certeza que estamos ao lado do Brasil que pensa, respeita e deseja o mundo novo, inclusivo e plural, enfim, a única forma de se ter prazer, coletivamente.

Quando Perseu enfrentou a Medusa, com olhar petrificante e cabelos de serpente, ele usou o reflexo do escudo da deusa da sabedoria, Atená, para se aproximar e cortar a cabeça devastadora do monstro. Superaremos os monstros: pela reflexão, diálogo, paixão e prazer pelo porvir.

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