Sexualidade (i)limitada

Por: Juliana de Souza
01 Julho 2008 - 00h00

No imaginário das pessoas, a cama de um portador de necessidades especiais é sempre um lugar de repouso, leito de tratamentos, de uma alma que precisa enfrentar seus males. Para muitos, a questão da sexualidade de deficientes físicos e mentais ainda é um verdadeiro tabu. Para outros, ela é simplesmente inexistente.

A boa notícia é que, atualmente, já se fala sobre sexualidade de uma forma mais natural. Há programas nas TVs e nas escolas que tratam o assunto de maneira séria e tentam ensinar aos jovens os prazeres e perigos do sexo. Porém, quando se trata de sexo entre pessoas portadoras de deficiência (PPDs), a história se complica. Poucos se arriscam.

De acordo com a psicóloga Ana Soares, uma das maiores barreiras para a discussão da sexualidade de pessoas com necessidades especiais se deve à escassez de relatos de experiências sobre o assunto, o que, “somado ao estigma existente, colabora para uma perspectiva de que o deficiente não tenha direito a exercer sua sexualidade”.

Eles não são assexuados

Ainda que a sociedade atual não faça como em Esparta, cidade da guerra – onde os bebês com qualquer tipo de deficiência eram sacrificados porque supostamente não estariam preparados para a vida nem para a luta –, persistem formas sutis de isolamento. “A sexualidade do deficiente ainda não é plenamente aceita na sociedade”, diz Lília Moreira, geneticista e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em entrevista ao jornal Correio da Bahia. Ela explica que é mais comum que os deficientes namorem com pessoas também portadoras de necessidades específicas que conheceram em escolas especiais ou em associações comunitárias que freqüentam.

O psicólogo e autor do livro “A revolução sexual sobre rodas”, Fabiano Puhlmann, que é casado e paraplégico, assegura serem freqüentes os comentários preconceituosos sobre o relacionamento de um PPD com uma pessoa sem deficiência. “Uma cliente minha, deficiente desde pequena, estava grávida. Ao pegar um táxi, o motorista perguntou quem foi que lhe tinha feito aquilo. Como se ela tivesse sido violentada e não escolhido o momento para ter um filho, ou como se a mulher com deficiência não tivesse sexualidade e não fosse fértil”, conta.

De acordo com dados do Censo 2000, no Brasil, 14,5% da população são pessoas portadoras de necessidades especiais. Aproximadamente 24,6 milhões de pessoas apresentam algum tipo de incapacidade ou deficiência. São pessoas com ao menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou alguma deficiência física ou mental.

Estipulada pelo IBGE, a pesquisa abrangeu desde tetraplegias até mesmo a amputação do dedo polegar. O critério mostra como é difícil definir, precisamente, o que é deficiência. Pelo decreto nº 3.298/99, que regulamenta a lei nº 7.853/99 e dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, “deficiência é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano”. Mas o que é ser normal?

A professora paulistana Marcela Vaz desmentiu todos os preconceitos. Casada há 15 anos, trabalha como atendente de cobrança, dá aulas particulares e cuida de dois filhos, nascidos após um acidente que a deixou paraplégica.

O publicitário Hélio Pottes e a enfermeira Kênia Hubner são felizes há 16 anos. Do casamento de dois portadores de nanismo acondroplásico (quando os indivíduos têm o tronco e a cabeça de tamanho normal e os membros muito curtos), nasceu Maria Rita. Para Kênia, a sociedade considera o deficiente assexuado. “É pura ignorância e individualismo, além de ser mais cômodo do que entender e respeitar que as pessoas, embora diferentes em seu estado físico, são muito semelhantes nos instintos e emoções”, conclui.

Curvas Perigosas
Esta foi a chamada de capa da Trip número 82, que levou a psicóloga, publicitária e vereadora por São Paulo, Mara Gabrilli, 40 anos e tetraplégica, para as páginas sensuais da revista. Gabrilli foi a primeira brasileira com tetraplegia a posar nua para um veículo, quebrou barreiras e se tornou símbolo. Mara teve dano na quarta e quinta vértebras e lesão medular por conseqüência de um acidente de carro em 1994. Sua relação com o corpo mudou depois do desastre, naturalmente. Teve que dar mais atenção à alimentação, parou de fumar e começou com uma rotina de exercícios específicos. Com a falta de mobilidade, aprendeu a seduzir com os olhos, não tem vergonha de falar sobre sexo e de ensinar o parceiro a lhe dar prazer.

Retomando a sexualidade
O livro “A revolução sexual sobre rodas” (128 págs, R$ 18), de Fabiano Puhlmann, promete jogar luz em um assunto pouco comentado: a vida sexual das pessoas portadoras de deficiências. Permeado pela máxima de que só a vontade do próprio deficiente pode trazê-lo de volta ao convívio social e, portanto, a uma vida sexual normal, o autor enfoca o desconhecido universo da sexualidade e os problemas que a deficiência pode trazer. Apresenta proposta de mudanças e convida o leitor a aprender a viver com autonomia. Puhlmann mixa elementos da psicologia às realidades funcionais para construir um novo universo e lembra que a tetraplegia ou paraplegia são dificuldades que devem ser enfrentadas da mesma forma como o ser humano faz com tantas outras.

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