Ana Brêtas

Por: Thaís Iannarelli
01 Janeiro 2010 - 00h00

Saúde e inclusão social são dois temas que caminham juntos para Ana Brêtas, enfermeira, socióloga, sanitarista e professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Graduada em Enfermagem pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mestre em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutora em enfermagem pela Unifesp, Brêtas desenvolve trabalhos de valorização à saúde e à cidadania com a população em situação de rua há 17 anos, realizando, ao mesmo tempo, pesquisas relacionadas à área.
É líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Saúde, Políticas Públicas e Sociais, credenciado pelo CNPq e reconhecido pela Unifesp, e conduz também o projeto Periferia dos Sonhos, no qual acompanha estudantes de graduação e pós-graduação para realizarem um trabalho de saúde e inclusão com a população em situação de rua.
Em entrevista à Revista Filantropia, Brêtas fala da sua atuação e reflete sobre políticas públicas e preconceito.

Revista Filantropia: Como e quando você começou a trabalhar com a população em situação de rua?
Ana Brêtas: Essa população entrou na minha vida há 17 anos. Estava dando aula na Enfermagem e um dos estudantes trabalhava como agente social em uma instituição que atende pessoas que vivem na rua. Ele me levou até lá, e foi assim que comecei nessa atuação, colocando em prática a saúde em um contexto sociocultural. A imagem que eu tinha do povo de rua era do “homem do saco”, então, no começo, tive medo. Mas fui muito bem acolhida. Comecei atuando como enfermeira, mas tive de aprender sobre enfermagem de novo. Tudo aquilo que a enfermagem normatiza não se aplica na rua. Então, tive de me ressignificar como profissional, e fiz sociologia.
RF: Você realiza estudos qualitativos sobre a população em situação de rua?
AB: Sim. Só há mais ou menos dez anos me senti tranquila para produzir conhecimento sobre essa população, e sempre com muito receio de estar utilizando a questão em um sentido “bibliométrico”. Não queria que vissem minhas pesquisas como um trabalho sobre algo excêntrico, então sempre tive esse cuidado. Nos últimos anos, eu e um grupo de estudantes começamos a produzir trabalhos relacionados à denúncia social, com o objetivo de formar enfermeiros capazes de compreender o fenômeno da rua e cuidar dessa população em outra dimensão.
RF: No que consiste o projeto Periferia dos Sonhos?
AB: É um projeto de extensão da Unifesp que tem como objetivo principal “ensinar a conversar”, com a perspectiva de que um profissional da saúde, para ser bom, não pode ter medo de gente. Ele tem de gostar de gente, precisa saber se comunicar, compreender o outro em diferentes instâncias passíveis de cuidado de saúde.
RF: A população de rua é frequentemente vítima de ataques de violência. Em 2004 aconteceu em São Paulo o assassinato de sete pessoas, e os suspeitos continuam impunes, por exemplo. Como você vê essa situação de violência?
AB: Na época do massacre de 2004, nós prestávamos cuidado de enfermagem em um equipamento social destinado ao acolhimento das pessoas em situação de rua, sobretudo com a função de escutá-los. Ser enfermeiro nessa hora é muito interessante, porque a pessoa abre a alma. Ela fala da dor do corpo e da dor da vida. Então, a percepção é que foi um tempo muito duro, no qual esses homens e mulheres se agrupavam, montavam esquemas para dormir ou estar na rua. Era uma insegurança que ia além da insegurança cotidiana que eles vivem. Mas nós nos sentíamos impotentes. O sentimento era esse. Nós denunciávamos, já era alguma coisa, mas íamos dormir nas nossas casas – e aí dormíamos com a impotência.
RF: Qual é sua opinião em relação às políticas públicas existentes para a população de rua?
AB: A política pública é fundamental, e na área da rua ela não foi dada, foi conquistada. Não tem como não falar do movimento social organizado, que é um ponto muito importante em São Paulo. Tudo aquilo que é um direito e é ancorado por lei é fundamental, um avanço. Mas não adianta ter a lei se não há a incorporação dela no dia-a-dia das pessoas. Acredito que deve haver uma política mais ampliada, de distribuição de renda, uma proposta mais socialista de convivência, a qual eu não verei, não é para a minha geração. Mas se não nos movimentarmos, não será nem para as próximas. Acredito que o processo de mudança de sociedade não é de uma única geração.
RF: Como você vê o posicionamento da população de rua na sociedade?
AB: Percebo que a população em situação de rua faz parte da sociedade, mas de uma sociedade cindida em classes, gênero, geração e numa série de outras categorias sociais. O que sinto é que nessa luta de diferentes classes, a população de rua é vista porque incomoda. O fato de ela incomodar na frente de um prédio, ou em um restaurante, traz constrangimento. Por outro lado, existe um segmento da sociedade que não consegue nem ver. Então, não sei dizer o que é pior, você enxergar e ter uma atitude estigmatizante ou nem conseguir enxergar, porque a pessoa se torna coisa, mercadoria. Acho que a população de rua até é acolhida, mas em uma lógica de favor, assistencialista, não de direito.
RF: Qual seria a solução para esse problema, do seu ponto de vista?
AB: Acho que algumas das formas são a política distributiva e a geração de renda. Na área da saúde, é necessária uma política inclusiva, vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), capaz de prever e prover, entre outras demandas, um tratamento preventivo e curativo em relação ao uso de drogas lícitas e ilícitas, imaginando que esse é um grande fator de ida para a rua, bem como assistência diferenciada a pessoas com doenças crônicas, como o diabetes, a hipertensão e os cânceres. O trabalho com a população em situação de rua não pode ser uma política de um único setor, seja o público ou o privado; deve ser interssetorial. Vejo frentes nesse sentido, mas deve haver vontade política e da sociedade civil. Não imagino essa transformação na cidade de São Paulo como um todo, mas podemos começar em alguns lugares. Pode não resolver o problema, mas minimizá-lo. Porém, o que acontece é o contrário: como não se tem uma política distributiva, o problema da pobreza absoluta aumenta, acarretando mais desigualdade social.

Tudo o que você precisa saber sobre Terceiro setor a UM CLIQUE de distância!

Imagine como seria maravilhoso acessar uma infinidade de informações e capacitações - SUPER ATUALIZADAS - com TUDO - eu disse TUDO! - o que você precisa saber para melhorar a gestão da sua ONG?

Imaginou? Então... esse cenário já é realidade na Rede Filantropia. Aqui você encontra materiais sobre:

Contabilidade

(certificações, prestação de contas, atendimento às normas contábeis, dentre outros)

Legislação

(remuneração de dirigentes, imunidade tributária, revisão estatutária, dentre outros)

Captação de Recursos

(principais fontes, ferramentas possíveis, geração de renda própria, dentre outros)

Voluntariado

(Gestão de voluntários, programas de voluntariado empresarial, dentre outros)

Tecnologia

(Softwares de gestão, CRM, armazenamento em nuvem, captação de recursos via internet, redes sociais, dentre outros)

RH

(Legislação trabalhista, formas de contratação em ONGs etc.)

E muito mais! Pois é... a Rede Filantropia tem tudo isso pra você, no plano de adesão PRATA!

E COMO FUNCIONA?

Isso tudo fica disponível pra você nos seguintes formatos:

  • Mais de 100 horas de videoaulas exclusivas gratuitas (faça seu login e acesse quando quiser)
  • Todo o conteúdo da Revista Filantropia enviado no formato digital, e com acesso completo no site da Rede Filantropia
  • Conteúdo on-line sem limites de acesso no www.filantropia.ong
  • Acesso a ambiente exclusivo para download de e-books e outros materiais
  • Participação mensal e gratuita nos eventos Filantropia Responde, sessões virtuais de perguntas e respostas sobre temas de gestão
  • Listagem de editais atualizada diariamente
  • Descontos especiais no FIFE (Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica) e em eventos parceiros (Festival ABCR e Congresso Brasileiro do Terceiro Setor)

Saiba mais e faça parte da principal rede do Terceiro Setor do Brasil:

Acesse: filantropia.ong/beneficios

BAIXE GRATUITAMENTE
E-book Como começar uma⠀ONG

BAIXE GRATUITAMENTE

BAIXE GRATUITAMENTE
E-book 18 PASSOS essenciais para ajudar sua ONG

BAIXE GRATUITAMENTE

PARCEIROS VER TODOS