Protagonismo como antítese da mediocridade

Por: Felipe Mello
01 Fevereiro 2006 - 00h00

Vamos tratar de protagonismo social juvenil? Há tempos esta coluna deseja apresentar um texto que tivesse em sua espinha dorsal a contribuição que os jovens brasileiros vêm entregando às suas comunidades. Existem provas incontestes desses movimentos, espalhados pelos quatro cantos do continente apelidado de país que é o Brasil.

Antes de mais nada, cabe salientar que é impossível fechar os olhos para a mediocridade de uma grande parcela de adolescentes e quase-adultos, especialmente no que diz respeito à consciência e ativismo políticos. Sem cair na armadilha leviana de comparações infundadas, um simples lance de olhar para a França nos faz compreender o que um grupo de jovens engajados em torno de um tema pode fazer.

Novamente, não se trata de questão de mérito, nem sobre a positividade ou negatividade das ações por lá empreendidas, tampouco sobre a pertinência de usá-los como moldes. A citação é apenas uma provocação, uma reflexão, um convite a todos que têm interesse na construção de um país menos debochado.

Mas afinal, o que é protagonismo social juvenil? Uma consulta traz a seguinte definição: é um tipo de intervenção no contexto social para responder a problemas reais no qual o jovem é sempre o ator principal. É uma forma superior de educação para a cidadania não pelo discurso das palavras, mas pelo curso dos  acontecimentos. É passar a mensagem da cidadania criando acontecimentos, em que o jovem ocupa uma posição de centralidade.

Acrescentando um pouco de tempero na receita, protagonista é o jovem que desperta e participa como ator principal em ações que não dizem respeito somente à sua vida privada, familiar e afetiva, mas a problemas relativos ao bem comum, em diversos locais, desde a escola, comunidade ou sociedade, em termos mais amplos.

Outro aspecto é a concepção do jovem como fonte de iniciativa, que é ação; como fonte de liberdade, que é opção; e como fonte de compromissos, que é responsabilidade. O conceito demanda que o jovem participe do planejamento da ação, execução, avaliação e apropriação dos resultados.

O desejo de apresentar informações sobre a atuação dos jovens nas comunidades motivou uma pesquisa, que resultou na descoberta de um projeto original e genuinamente ligado ao protagonismo social juvenil. Trata-se do Instituto de Juventude Contemporânea (IJC), que desde 1999, em caráter pioneiro, transforma a vontade de jovens oriundos de diversas pastorais populares em ação direta junto à juventude cearense.

“O movimento começou em Fortaleza, e, a partir de 2001, se estendeu para todo o Estado do Ceará, com a formação da Rede de Jovens no Ceará. A rede uniu o Instituto de Juventude Contemporânea à Pastoral da Juventude e à Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do Estado do Ceará (Fetraece), que perceberam a capacidade de intervenção social da juventude e a necessidade do trabalho em conjunto entre organizações e entidades”, conta Fábio Mendes, coordenador de gestão do IJC.

A atuação em rede vem possibilitando um salto de quantidade e qualidade nos projetos da ONG, pois existe a multiplicação de conhecimento e de iniciativas que deram certo, que podem ser aplicadas em localidades distintas de onde foram concebidas. O IJC é orientado em ações alinhadas ao eixo das políticas públicas e relações de gênero pelos seguintes programas: Formação Integral para Jovens; Formação Continuada de Educadores de Jovens; Articulação em Redes; e Gestão e Desenvolvimento Institucional.

Dentre os projetos desenvolvidos, o Sexo Seguro, tá ligado(a)?! chama a atenção pela pertinência e atualidade dos temas que aborda e pela linguagem que utiliza para realizar ações formativas e informativas de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), HIV/Aids. O foco são adolescentes e jovens, de 13 a 26 anos, matriculados em escolas da rede pública, convidados a uma reflexão sobre a tomada de nova postura diante dos comportamentos de riscos.

Segundo Fábio Mendes, “em 2005 o projeto contou com o apoio do Ministério da Saúde e da Unesco, e após o encerramento da parceria, houve uma recomendação à prefeitura de Fortaleza. Agora, realizamos os eventos com o apoio da direção das escolas. Temos um núcleo formado por quatro jovens em cada escola, que passam por uma capacitação para depois organizar e conduzir as atividades com competência”.

No ano passado, a ação benefi ciou 4.552 jovens, que participaram de grupos de estudo, rodas de conversa sobre sexo seguro, pontos de encontro e festival de artes. “E é claro, receberam preservativos e foram orientados para a sua correta utilização”, completa Fábio.

Ainda na linha da educação sexual para a prevenção de DSTs/Aids, planejamento familiar, métodos contraceptivos e temas relacionados, o IJC  lançou este ano mais duas iniciativas. O primeiro é Diálogos Abertos, que atualmente atende 45 jovens da periferia de Fortaleza – vindos de diversos movimentos sociais – que se reúnem para aprender e dar sua opinião sobre opção e direitos sexuais.

“Eles estão passando por um processo de formação nos temas para depois levar a seus grupos a multiplicação de informações”, informa o coordenador. Recentemente foi realizado um seminário para trabalhar com ofi cinas artísticas sobre as vertentes relacionadas à opção e aos direitos sexuais, assim como os desafi os ligados ao sexismo e à homofobia. “Estiveram presentes 115 jovens, que produziram obras
em pintura, literatura de cordel, teatro de bonecos e colagem, tudo para dar vazão às suas opiniões sobre os temas”, relata Fábio.

O outro projeto é o Conviva, ainda em fase experimental e que vem recebendo o apoio do Unicef. Ele atua junto a jovens soropositivos com formação integral, desde a atuação como sujeitos sociais, sua relação com a sociedade e a afi rmação de seus direitos.

Números do ICJ

1999 é o ano de fundação da entidade

4.552 benefi ciados no ano passado por apenas um dos projetos

45 jovens no projeto Diálogos Abertos

É assim que o IJC contribui com a causa do fortalecimento da juventude brasileira, somando ações para olhar de frente e distribuir conhecimento sobre assuntos de interesse dessa parcela da população. A participação ativa de colaboradores jovens, voluntários ou não, é um terreno fértil para a construção de lideranças comunitárias, que se desenvolvem pessoal e profi ssionalmente ao mesmo passo em que compreendem a pertinência de também se desenvolver socialmente. Confúcio já dizia há séculos que aquele que ouve, esquece; aquele que vê, se lembra vagamente, mas aquele que faz, aprende. Sem a participação, o conhecimento é frágil!

O protagonismo social juvenil se confi gura como um antídoto à inércia improdutiva e retrógrada de muitos jovens espalhados pelo país. Pais, professores, líderes sociais, fi guras públicas e anônimas – mas interessadas – devem conhecer as contribuições que o voluntariado e o engajamento podem trazer aos cidadãos em formação.

Recomendado a todos, especialmente aos 20% dos jovens brasileiros entre 14 e 25 anos, que recentemente responderam a uma pesquisa nacional dizendo que estão sem trabalhar ou estudar. Para não cair no lugar comum por dizer que “mente vazia é ofi cina do diabo”, vale alterar o ditado e enfatizar que mente vazia é ofi cina da mediocridade.

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