Luana Piovani

Por: Paula Craveiro
01 Setembro 2007 - 00h00
Luana Piovani é bonita, espontânea, determinada e bem-sucedida. Em alguns casos, polêmica também. Mas isso já não é novidade para ninguém. O que pouca gente sabe, na verdade, é que ela também é uma mulher preocupada com o próximo.

Nascida em Jaboticabal, interior de São Paulo, Luana é de uma família de origem humilde, como ela mesma define, e, desde cedo, tem o senso de solidariedade bastante aflorado. “Cresci vendo minha mãe se preocupar em ajudar uma creche ou um asilo, em juntar roupas e cobertores para doar no inverno para as pessoas menos favorecidas, essas coisas. E esse tipo de atitude acabou me marcando bastante, ainda mais porque partia de uma pessoa que já não tinha muito, mas que, ainda assim, dava um jeito de dividir o pouco que tinha com os outros”, conta.

Em entrevista exclusiva à Revista Filantropia, a atriz, modelo e produtora teatral fala sobre sua atuação na área social, sua ligação com o Instituto da Criança, comenta alguns dos principais problemas do país e sugere soluções.
Em entrevista exclusiva à Revista Filantropia, a atriz, modelo e produtora teatral fala sobre sua atuação na área social, sua ligação com o Instituto da Criança, comenta alguns dos principais problemas do país e sugere soluções.
Quando você doa o seu tempo e olha diretamente no olho das pessoas menos favorecidas, consegue mensurar o valor que as pessoas têm


Revista Filantropia: Como foi o início de seu engajamento na área social?

Luana Piovani: Para falar a verdade, esse envolvimento já é antigo. A minha mãe sempre falou muito sobre dividir, pois era dando que se recebia. Então, desde pequena, tenho na memória a imagem de minha mãe fazendo bolo para levar para creches e outras entidades, arrumando os armários e separando algumas roupas.

Aos 14 anos, eu comecei a trabalhar como modelo e passei a pagar o dízimo para minha igreja, em Jaboticabal (SP). Quando cheguei a São Paulo, diversifiquei sendo voluntária em alguns projetos. Aos 16 anos, depois de ficar famosa por causa da minissérie Sex Appeal (TV Globo), passei a receber muitos convites para esse tipo de engajamento. Também sempre tive o cuidado de não apenas emprestar minha imagem. Gosto de ir até a instituição, falar com as crianças, conhecer. Acho que essa é uma das maiores carências dessas crianças e de muitos idosos.

A partir daí, a coisa foi melhorando, e quando eu passei a ter dinheiro suficiente para cuidar da minha vida e ainda conseguir dividir, aderi ao Instituto da Criança (IC).

Filantropia: Há quanto tempo você está envolvida com o IC? Conte um pouco sobre os trabalhos.

LP: Estou no IC há cerca de sete anos. Faço parte do grupo que mantém as instituições que abrangem o instituto. Também empresto minha imagem. Só que eu queria fazer mais, sabe? Eu queria receber boletim, ser um daqueles que sabe o que está sendo feito, o que já está pronto. Então, eu entrei no grupo que mensalmente dá uma quantia para que as contas sejam pagas.

Dentro do IC existem sete instituições, como o Lar Santa Catarina, que trabalha com crianças com paralisia cerebral; o Lar Flor de Liz, em Jacarepaguá (RJ), que cuida de crianças em situação de risco, juradas de morte por causa do tráfico; e o Lixão de Mongaba, que atua na periferia, com o pessoal que sobrevive do lixão.

Filantropia: Você desenvolve mais algum trabalho social?

LP: Desde que eu comecei a ser produtora, as minhas peças infantis sempre têm um fim social. Em “Alice no País das Maravilhas”, a gente fez sessões em que a renda dos ingressos foi revertida para algumas instituições. Em “O Pequeno Príncipe”, tivemos a experiência de vender meia-entrada se a pessoa levasse uma lata de leite em pó. E, para isso, temos mais de 80 instituições de caridades, creches e asilos catalogados, porque somos nós mesmos que distribuímos tudo. Nós ficamos nove meses em cartaz e, nesse tempo, conseguimos uma grande quantidade de doações.

Na minha primeira produção, a peça “Amigas”, nas sessões de quinta-feira, que tinham um pouco menos de público, a gente sempre separava um determinado número de cadeiras para que pessoas menos privilegiadas pudessem entrar de graça.

Enfim, sempre que posso e acho a causa bacana, eu gosto de fazer parte. Trabalho com a Casa Hope, com o Centro de Apoio à Criança com Câncer (CACC); já fui conhecer as crianças no Pronto Socorro do SUS, no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, entre outras coisas.

Filantropia: Você mencionou que já fez alguns trabalhos voluntários. Fale um pouco mais.

LP: O que eu entendo por trabalho voluntário é quando eu dôo meu tempo. Minha mãe costumava fazer bolo porque ela era pobre e não podia dar muito mais do que isso e roupa usada. Mas eu vou até a instituição. Eu acho que não basta apenas eu dar uma grana ou fazer uma foto. O legal é ir até lá para conhecer, falar com quem trabalha lá, conhecer as crianças, ver como são as instalações, passar um tempo ali. Quando fui ao Retiro dos Artistas, onde os favorecidos não são crianças, eu fiquei horas escutando as histórias, conversando. É uma delícia esse tipo de coisa!

Eu acho que quando você consegue doar o seu tempo, olhar diretamente no olho das pessoas mais carentes, percebe que elas têm muita necessidade de carinho e atenção, não apenas de roupas. Esse gesto tem muito mais validade do que só doar uma quantia em dinheiro. É mais pessoal, mais humano. É nessa hora que você consegue mensurar o valor que as pessoas têm.

Filantropia: Você pretende algum dia fundar seu próprio instituto?

LP: Instituto não, mas tenho o sonho de ter uma creche. Um casarão, bem no estilo da casa em que fui criada, com cara de casa de família. Aquele lugar que, quando a mãe não tem com quem deixar o filho, não tem dinheiro para pagar uma babá, ela pode deixar ali, porque sabe que ele será bem cuidado.

Filantropia: Você concorda que os atores e demais personalidades têm a responsabilidade de contribuir socialmente e de serem bons exemplos ao público?

LP: Para ser sincera, não concordo não. Não acho que seja responsabilidade de artistas ou de qualquer outra pessoa que esteja em evidência. Tentar fazer com que o mundo seja um lugar melhor para se viver é um dever humano. Acho que todas as pessoas precisam parar de olhar um pouco para o próprio umbigo. E isso não seria exatamente uma responsabilidade e, sim, uma questão de solidariedade! Quando essa mudança de postura acontece e a gente começa a olhar ao nosso redor, conseguimos entender que pequenas ações podem fazer grandes movimentos.

Filantropia: Em sua opinião, qual o maior problema social do Brasil?

LP: São vários os nossos problemas. Mas acredito que o que falta no Brasil é oportunidade. Enquanto não focarmos em dar oportunidade para que as pessoas queiram ser honestas e tenham a possibilidade de ter uma vida bacana, nada vai melhorar. Enquanto a criança não tiver escola com merenda e bom ensino, ela vai preferir ser “avião” no tráfico, para um dia poder virar traficante e ter comida em casa.

Filantropia: Qual sua visão sobre o Terceiro Setor no país?

LP: Eu acho bacana que ele exista, porque não dá para esperarmos muita coisa do governo. Estamos num momento em que se nós não fizermos algo, ninguém vai fazer. Acho importante que as empresas estejam cada dia mais conscientes, que não comprem madeira proibida, que os funcionários estejam todos registrados... Enfim, é bom que as pessoas tenham vontade de ajudar, para que isso tudo gere uma movimentação e uma evolução em nossa sociedade. Acredito que seja importante que o Terceiro Setor tenha crescido e que as pessoas se voltem para ele, porque se todo mundo fizer um pouco, diminui a agonia.

Filantropia: Se você pudesse realizar apenas um desejo para melhorar o mundo, o que você pediria?

LP: Pode parecer meio radical – e eu já falei isso uma vez e me disseram “é loucura, isso não daria certo” – mas assim, de imediato, eu pediria para acabarem com a pólvora. Ninguém mais vai matar ninguém por causa de tiro. É claro que ainda existem as facas, mas seria infinitamente menor o índice de assassinatos. Desde que inventaram esse artefato, quantas coisas ruins já aconteceram no mundo? É algo terrível!


Site oficial Luana Piovani
www.uol.com.br/luanapiovani

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