Prática Jornalística Como Prática Social

Por: Fernanda Iarossi
07 Outubro 2015 - 13h19

Com a crescente facilidade em comunicar-se através da internet e contribuir com a produção de conteúdo que acaba abastecendo ou alimentando os meios de comunicação tradicionais – televisão, rádio, jornal e revista, na atualidade, “a ideia da imprensa como um guardião – decidindo que tipo de informação o público deve saber e qual não – não mais define bem o papel do jornalismo”, segundo Kovack e Rosenstiel.

O papel do jornalismo e, consequentemente, do jornalista na sociedade também engloba esta visão de guardião, algo como sendo vigilante das formas de poder. Porém, também tem a ver principalmente com a “prestação de informações relevantes para o público, segundo os direitos e necessidades do público (e não do governo)”, segundo Bucci, ou de qualquer forma de poder instituído formalmente ou informalmente.

A partir deste recorte, o informar o cidadão deve ser sempre o foco principal da atividade jornalística: “O jornalista não age para obter resultados que não sejam o de bem informar o público; ele não tem autorização ética de perseguir outros fins que não este”. O jornalista mantém um compromisso subentendido com o leitor, cujo propósito é o “fazer crer”; e recorrer ao discurso do outro é uma forma para tal, que busca a fundamentação na credibilidade de quem comunica e na confiança do leitor. Isso porque o jornalista contribui com o público para colocar ordem nas informações a que ele tem acesso: “Numa era em que qualquer pessoa pode virar repórter ou comentarista na internet, “temos um jornalismo de duas mãos”, diz Seeley Brown. O jornalista se converte numa espécie de moderador de discussões, e não em um simples professor ou conferencista. O público se converte não em consumidores, mas em “promidores”, um híbrido de produtor e consumidor”, segundo Kovack e Rosenstiel.

Para ajudar nesta reflexão, os conceitos de Beltrão de que jornalismo é, “antes de tudo, informação”, e de Mouillaud, de que informação “não é o transporte de um fato, é um ciclo ininterrupto de transformações”, ajudam a defender que a tarefa do jornalismo é produzir (ou pinçar, enxergar, especialmente com a popularização da comunicação mediada por computador e, mais recentemente, pelos celulares e tablets) uma informação, visando um público-alvo, que implica na transformação de dados que estão em estado difuso, em unidades homogêneas. Um processo encarado não como sendo propriedade da mídia, pois esta representa o final de um trabalho social.

Além da função primordial de informar, o jornalismo tem a ver com examinar os fatos, estabelecer e apontar até soluções diante deles, que devem ser interpretados, já que “informação, orientação e direção são atributos essenciais do periodismo”, diz Beltrão.

A evolução de teorias/paradigmas na área da comunicação, especialmente no jornalismo, contribui para a discussão da atual situação do jornalismo: a atividade transformou-se em mais uma “indústria em que um novo produto – as notícias como informação – é vendido com o objetivo de conseguir lucros”, segundo Traquina. Desde o século 19, com o desenvolvimento tecnológico na área de impressão, transmissão e fotografia, com a urbanização e escolarização da população em geral, com a não dependência dos jornais em relação às verbas públicas (de governos, partidos políticos), com a consolidação da publicidade (anúncios de empresas privadas) no mercado jornalístico, com a profissionalização dos jornalistas, com o avanço em conquistas sociais em relação à liberdade, especialmente a de imprensa (criação de leis, regulamentação), e com a consolidação da democracia como forma de governo (versus Poder Absoluto, da Igreja etc.), a atividade jornalística evoluiu e os estudos sobre os processos produtivos confirmam a profissionalização e a criação da identidade de uma comunidade, como reflexo das necessidades econômicas das empresas detentoras dos meios de comunicação: “A velocidade da mundialização (da economia) é tanto mais rápida na medida em que os fluxos são cada vez menos materiais e, em número cada vez maior, dizem respeito a serviços, dados informáticos, telecomunicações, mensagens audiovisuais, correio eletrônico, consultas à Internet, etc.”, segundo Ramonet.

Diante disso, vale destacar que os meios de comunicação acabam funcionando como um fórum, onde se dá espaço para todas as vozes públicas, ao mesmo tempo em que estes meios também têm sua própria voz. Segundo Mouillaud, esta característica dual está na origem das estratégias pelas quais o jornal manipula o discurso de outro, com a finalidade de identificar-se com ele e distanciar-se do mesmo.

Ponto de vista partilhado, já que leva em consideração a visão social dos meios de comunicação – que influenciam e servem de referência para o público, que é ativo (e que também pode influenciar os meios/jornalistas), e não apenas consumidores passivos, incapazes de reação e poder de escolha.

Bucci (2000) ressalta que “a comunicação social é lugar de conflito.”, já que, ao exercer seu trabalho, o jornalista se depara com os valores pessoais, da própria profissão, da empresa e do público a que se refere.

Ao concordar com a necessidade de uma visão do papel social das notícias, partilha-se também do ponto de vista de Thompson (1995), que defende a compreensão da sociedade e sua construção social tomando como referência a mídia – já que, para ele, a mídia se envolve ativamente na construção do mundo social –, e entende a comunicação sempre inserida numa sociedade, portanto, em um contexto social. Visão esta que reforça a necessidade dos estudos das práticas jornalísticas inseridas socialmente com o objetivo de compreender melhor os fenômenos comunicacionais, especialmente na atual era digital. Com esta perspectiva, os meios teriam um papel ativo na socialização das relações, passando a constituir um elemento imprescindível na compreensão da modernidade.

*Reflexões a partir da Dissertação de Mestrado “O REAPROVEITAMENTO DE NOTÍCIAS NO JORNALISMO IMPRESSO CONTEMPORÂNEO: O CASO DO CADERNO DIPLÔ, DO LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL” http://www4.faac.unesp.br/posgraduacao/comunicacao/disserta.php#fernanda_iarossi.

 

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