Por que montar um conselho consultivo

Por: Marcelo Estraviz
01 Março 2010 - 00h00

Uma coisa muito mal aproveitada no Brasil é o onselho consultivo. Mais uma herança maldita, dessa vez, da legislação brasileira, que obriga entidades a criarem seus conselhos fiscais. Quando pergunto como está composto o conselho consultivo de uma entidade, as pessoas começam a me explicar sobre o conselho fiscal que, no estatuto, gera nomes “para inglês ver”, uma espécie de obrigatoriedade sem utilidade. Eu explico que se a lei obriga, pois que se cumpra. Mas façamos mais.

O que devemos montar o quanto antes é um conselho consultivo, que serve justamente para consultar. Devemos convocá-los uma vez, no máximo duas vezes por ano, e essa reunião deve ser tratada com cuidado, pompa e circunstância. Isso é bom para os conselheiros se sentirem importantes (o que de fato são) e porque agrega um componente fundamental para as organizações: a escuta da sociedade, do mundo exterior.

Estamos muito habituados a ficar fechados em nossos muros institucionais e os conselheiros nos trazem a realidade do mundo lá fora, além de oxigênio quando estamos muito viciados em um mesmo modelo.

Algumas entidades criaram conselhos científicos. Acho excelente e apoio, mas não é a mesma coisa. Um conselho científico é fundamental para garantir qualidade técnica para determinadas causas. Cabe perfeitamente termos um conselho científico e também um conselho consultivo, cada um com sua função.

A montagem de um conselho é um trabalho artesanal. Não há necessidade de ser montado de uma só vez. Reforço que somente o conselho fiscal é uma obrigação jurídica. O conselho consultivo, assim como o científico, é uma decisão da gestão, e não obrigatório. Sendo assim, pode-se criar uma política de atribuições dos conselheiros e um modelo de gestão para o conselho consultivo. Tudo isso deve ocorrer naturalmente, de acordo com o crescimento da entidade e a consciência dos gestores em saber usar bem seus conselheiros.

Eu sou conselheiro de algumas ONGs e confesso que me sinto pouco usado por elas. Poderia ser mais útil, se me demandassem. Com uma delas (The Hub) tenho construído, junto com o gestor, uma política de desenvolvimento do conselho consultivo. Tem sido um trabalho muito prazeroso e que com certeza gerará subsídios que poderão ser aplicados em outras instituições.

Mas como montar um conselho? Eu tenho uma fórmula. Não é minha; li em algum texto americano e perdi a fonte, infelizmente. Uso essa fórmula nas minhas aulas e ela tem gerado sucesso. Explico: uso a mesma equação da sustentabilidade das fontes: três terços de tipos de conselheiros. Um primeiro grupo é o dos ricos. É importante ter gente rica em nossos conselhos porque eles têm duas grandes qualidades: a primeira é que são ricos, e a segunda é que têm muitos amigos ricos. Essa é a hora da gargalhada em minhas aulas. O segundo grupo deve ser constituído por gente famosa, que aparece na TV ou na revista Caras. Artistas prioritariamente. Evite os políticos porque isso pode gerar conflitos de interesse. Mais fácil é encontrar artistas que, de uma forma ou de outra, têm algo a ver com sua causa. O terceiro grupo de pessoas é o tipo mais comum: nós (outro momento de riso em minhas oficinas). Nós não somos ricos nem famosos, mas trabalhamos por uma causa. Inclua nesse grupo os fundadores, um ou outro acadêmico dedicado ao tema (se você não tem conselho científico), aquela voluntária da alta sociedade que organiza muitos eventos para a ONG e aquele líder comunitário do bairro da entidade.

Um conselho consultivo deve ter de 6 a 20 pessoas, mas esse número é a critério da entidade. Eu fiz consultorias para entidades que tinham 80 conselheiros. Isso já é improdutivo. Como era uma entidade antiga, eles iam adicionando conselheiros sem tirar alguns. Outras entidades tinham três conselheiros. Isso não dá nem um jogo de buraco em duplas. Precisavam de mais gente, para ter ao menos dois ricos, dois famosos e dois “normais”. São os seis iniciais.

Não há problema em tirar um conselheiro que você vê que não está sendo útil, desde que isso seja combinado previamente no início da gestão de um conselheiro. Eu recomendo que eles tenham mandatos de três anos. Não todos ao mesmo tempo, pois dá trabalho mudá-los todos de uma vez. O ideal é ir repondo conselheiros aos poucos. Como não é algo que consta necessariamente do estatuto, você define o formato. O importante é criar uma boa sopa com os ingredientes necessários e ir temperando.

As reuniões de conselho devem ser minuciosamente estudadas pelo responsável por elas. Você deve criar uma reunião que permita uma interação entre os membros, que gere um ambiente amigável e virtuoso. O presidente do conselho e o gestor principal da entidade devem abrir a reunião apresentando rapidamente os membros novos aos antigos. E devem fazer isso informalmente, criando um clima de camaradagem. A seguir apresentam a pauta e o horário de término de reunião. Não deve durar mais que duas horas, no máximo três. Os conselheiros são todos voluntários e, por isso, não devemos cansá-los. A seguir, vêm as apresentações. Convoque alguém de sua entidade para anotar todas as dicas e sugestões dos conselheiros. Para isso serve a reunião.

Nas reuniões nas quais o tema é o plano de captação, o captador apresenta em poucos tópicos a estratégia. Ele foi precedido pelo gestor, que apresentou as atividades do ano seguinte O captador apresentará em seguida as ações de captação de recursos que serão necessárias para a realização das atividades da entidade.

O enfoque da reunião é fortemente captador. O objetivo é conseguir que alguns dos próprios conselheiros já se comprometam ali mesmo a doar algum valor. Quando auxilio entidades nessas reuniões, costumo conversar dias antes com algum conselheiro que, em geral, se compromete a ajudar. E peço a ele que declare seu apoio na frente dos conselheiros na reunião. É uma forma de estimular os demais a mexerem no bolso.

Já participei de reuniões nas quais os conselheiros se comprometeram com mais da metade da meta de captação. O objetivo é sair da reunião com um real comprometimento dos conselheiros em conseguir os recursos, e não somente aquela coisa do tipo: “Ah, você pode falar com a empresa xis”. Quando disserem isso, você deve rapidamente dizer: “Você me ajuda a conseguirmos R$ 50 mil com a empresa xis?” Ou ele se esquiva ou se compromete ali mesmo, na frente dos outros.

Aliás, esse é um dos grandes “baratos” das reuniões de conselho. Quando você tem um grupo bem equilibrado com os três terços, os ricos, para fazer bonito, querem mostrar aos artistas que têm dinheiro e doam ali mesmo. Os artistas, por sua vez, com sua capacidade de mobilização, comprometem-se a conseguir mais dinheiro fazendo um show ou evento. Os ricos, retrucando, dizem que vão conseguir mais dinheiro com amigos. Os “normais” (aqueles nem artistas nem ricos) se comprometem a organizar novos eventos arrecadadores. Eu adoro reuniões de conselho. É uma arte que ainda não assimilei completamente, quero aprender muito com isso. Espero ver florescerem mais conselhos consultivos para vermos juntos essa competição de quem ajuda mais.

 

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