Política da boa vizinhança

Por: Felipe Mello
01 Março 2005 - 00h00
A prática da boa vizinhança é uma estratégia de convivência tão antiga quanto a formação das comunidades de nossa espécie. Os seres humanos buscam construir e viver harmonicamente em sociedade há séculos. Entretanto, a regra aponta, infelizmente, para relações pouco saudáveis e, às vezes, frias e burocráticas. Obviamente exceções existem – benditas fontes de inspiração e esperança.

Desde o emocional de vizinhos, independente das classes sociais envolvidas e motivos pertinentes, até a desigualdade social – que expõe os disparates de comunidades que vivem em mundos distantes dentro de um mesmo espaço de terra–, os atritos parecem ganhar corpo continuamente e tornam ainda mais distante o objetivo, utópico para alguns, de uma convivência pacífica e justa.

As feridas sociais são cenários formados pela proximidade de favelas a prédios luxuosos como no Morumbi e em São Conrado, bairros nobres localizados nas capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente. Até aqui nenhuma novidade, uma vez que o simples fato de olhar pela janela do carro ou transporte coletivo permite ao mais distraído cidadão comprovar esse argumento.

Então, o exercício aqui proposto é uma elucubração sobre o óbvio? Não. Definitivamente, não. O objetivo é aproveitar o espaço de forma muito mais útil, ao apresentar uma iniciativa que há quatro anos investe na transformação de relações potencialmente conflitantes em algo cada vez mais equilibrado.


Exemplo de responsabilidade social

Conhecida por criar complexos urbanísticos de alto padrão, a AlphaVille Urbanismo S.A., por meio da Fundação AlphaVille, tem como missão levar oportunidades também às comunidades existentes no entorno de seus empreendimentos. Para isso, mantém projetos de geração de renda e formação profissional, que receberam no ano passado R$ 2 milhões em investimentos, com projeção de outros R$ 2,5 milhões para este ano, a serem aplicados em iniciativas que têm como pontos-chave preservação ambiental, inclusão e sustentabilidade.

A diretora da Fundação AlphaVille, Mônica Picavêa, relata o processo interessante que ocorre no momento seguinte ao lançamento de algum condomínio da empresa: “As pessoas que residem perto dos empreendimentos, em grande parcela integrantes de comunidades carentes, acabam pressionados pela nova formatação do local. A estrutura que se cria ao redor do condomínio não oferece muitas oportunidades para as pessoas que ali residem, em função da pouca qualificação. Além disso, passa a existir uma pressão imobiliária de caráter especulativo, o que também potencializa o desequilíbrio”. A chegada do condomínio, sem o devido tratamento social, é um fator potencialmente prejudicial ao dia-a-dia daqueles que vivem na região.

Essa consciência é a força motriz para que a fundação desenvolva suas atividades, ao alinhar atuação social a um conceito que já se provou vencedor em diversas localidades do mundo: investir no entorno da empresa ou da região onde os empreendimentos estão situados. Poucas incursões de responsabilidade social corporativa são mais “rentáveis” quanto aquelas que investem no fortalecimento dos laços entre as partes, por meio de uma contínua demonstração de respeito e interesse no bem-estar coletivo.

“Procuramos o desenvolvimento da comunidade pelas potencialidades existentes. Em vez de focar puramente nas deficiências, buscamos aquilo que cada uma tem de melhor. Essa abordagem customizada e construtiva vem trazendo desenvolvimento rápido para as comunidades”, informa Mônica.


Ações que dão certo

Em 2001, foi criado um centro de convivência em Colombo, no Paraná, na região metropolitana de Curitiba, próximo ao AlphaVille Graciosa. “Além de funcionar como espaço de lazer e convivência para as crianças e jovens da comunidade da favela de Vila Zumbi, que tem cerca de sete mil moradores, o centro oferece, desde sua criação, cursos de formação profissional voltados a ofícios domésticos, jardinagem, artesanatos, e inclusão digital, como informática básica e uso da internet”, completa a diretora da fundação. Mais de mil moradores de todas as idades já participaram dos cursos, que têm de três a cinco meses de duração cada.

As conseqüências positivas da ação social no Paraná são muitas. Das 200 mulheres que participaram do curso de costura, por exemplo, 92% conseguiram colocação no mercado de trabalho, e a média de melhoria de renda foi de 150%. No caso dos 160 idosos que concluíram o curso de artesanato, 98% ficaram ligados ao centro ou conseguiram colocar seus produtos em outros espaços, com um aumento de 100% na renda. Recentemente, a Associação dos Empreendedores da Vila Zumbi, formada por cerca de 100 moradores, assumiu a administração do Centro de
Convivência da Graciosa, em parceria com a Fundação AlphaVille, que continuará a dar suporte às atividades. São fatos incontestes, que reforçam a importância do mergulho das empresas em oportunidades de melhoria latentes perto de si.

Os benefícios podem ser vistos também na área ambiental. Um levantamento, ainda em Curitiba, indicou que cerca de 200 famílias da favela viviam como catadores de lixo na Vila Zumbi. A partir daí, uma cooperativa foi criada para administrar a coleta seletiva no condomínio, e a fundação mobilizou os moradores do AlphaVille Graciosa para o auxílio na compra de prensa, carrinhos e outros equipamentos necessários. Além disso, a Cooperativa dos Carrinheiros capacitou os associados com cursos de cooperativismo.

Com a adesão maciça dos moradores do residencial e com a venda do material coletado (cerca de três toneladas por semana) diretamente para empresas de reciclagem, em duas semanas os cooperados tiveram um aumento de 70% na renda. Por conta do trabalho, o rio Palmital também se livrou dos rejeitos que antes eram depositados em suas margens pelos catadores. Hoje, eles trabalham em um galpão e os dejetos do processo de seleção do material são coletados pela prefeitura de Colombo.


Multiplicando a idéia

Os resultados da experiência em terras paranaenses motivaram outras localidades, como Barueri e Santana do Parnaíba (SP), Goiânia (GO), Cuiabá (MT) e Fortaleza (CE). O mais recente é o de Salvador (BA), lançado em fevereiro de 2005, no qual espera-se promover o senso de propriedade por parte das comunidades beneficiadas. Esse envolvimento é conquistado por meio do respeito às peculiaridades do local, evitando a introdução de projetos “enlatados”. A ação social recentemente inaugurada no Bairro da Paz, na capital baiana, reforça ainda mais o conceito: o primeiro passo foi realizar reuniões com a associação comunitária, em parceria com o Senac, para que se deixassem claras as demandas existentes. “A partir dessa etapa, formulamos cursos de qualifi cação para empregadas domésticas, jardinagem, artesanato e informática”, relata Mônica Picavêa. “O ciclo se fecha com a sensibilização dos moradores do condomínio que, no momento da contratação de profissionais, podem consultar nosso cadastro de pessoas que freqüentaram os cursos”, completa ela.

O desenvolvimento comunitário por meio de qualifi cação profissional, preservação ambiental, sustentabilidade e interação saudável entre os condomínios abastados e os moradores mais carentes do entorno tem provador ser uma estratégia positiva para a Fundação AlphaVille, assim como para aqueles que são benefi ciários de suas ações, direta ou indiretamente.

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