Personagem principal

Por: Valeuska de Vassimon
01 Novembro 2008 - 00h00

Você já deve ter ouvido algo como “a vida é um grande palco em que cada indivíduo protagoniza sua história”. Ou mesmo pode ter lido em algum lugar que determinada pessoa pretende ser protagonista de certa história, e não um mero figurante. Ou ainda pode ter sido surpreendido ao saber que a protagonista da próxima novela será sua atriz favorita.

O termo “protagonismo”, bastante usado atualmente com o significado de “personagem principal”, é uma herança da literatura e do teatro, embora tenha sido criado na Grécia Antiga. Protos significa “primeiro, principal”, e ágon, significa “luta”. Agonistes, por sua vez, significa “lutador”. Assim, a união das palavras resultou no termo usado hoje em dia.

Foi justamente pensando nessa definição que surgiu o termo “protagonismo social”, com o objetivo de expressar a ação de determinado grupo ou indivíduo como personagem principal de sua dinâmica social. Também se fala em “protagonismo juvenil”, praticado por jovens, e “protagonismo comunitário”, liderado por comunidades. Todos eles, contudo, trabalham a integração de determinada classe com a sociedade, focando na identidade pessoal, no trabalho e na vida como um todo.

Para Felipe Mello, diretor da ONG Canto Cidadão, em São Paulo, o protagonismo social e a educação são dois pilares essenciais que estão entre os maiores desafios da sociedade atual. “Sem eles, o processo democrático é manco”, afirma. “O protagonista social é aquele que compreende a importância do seu envolvimento na luta diária pelo desenvolvimento pessoal para o equilíbrio social, contribuindo para a garantia dos direitos e cumprimento dos deveres.”

A Fundação Odebrecht criou o termo “protagonismo juvenil”, que este ano comemora 20 anos. Atualmente considerado um patrimônio do Terceiro Setor, o conceito determina que o contexto social em que o jovem está inserido é co-participante de seu desenvolvimento e beneficiário ao mesmo tempo. Para tanto, o jovem precisa ter autonomia e conhecimento, deixando de ser apenas receptor para ter uma visão integrada, democrática e competente, baseada no trabalho coletivo, na solidariedade e na responsabilidade. Para a fundação, o educador é fundamental nesse processo ao disseminar os pilares da educação, ou seja, ensinar o jovem a ser, a conviver, a fazer e a conhecer.

Um dos projetos que coloca em prática o conceito é o Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável (DIS Baixo Sul), na região do Baixo Sul da Bahia. Apoiado pela fundação Odebrecht, os projetos têm como objetivo desenvolver economicamente as regiões beneficiadas, promovendo oportunidades de trabalho e renda para a população, acesso à educação de qualidade, à conservação do meio ambiente e à construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Dentre os projetos educacionais do DIS Baixo Sul estão as “Casas Familiares Rurais, do Mar e Agroflorestal”, que aplicam a pedagogia da alternância. “Os jovens passam uma semana em regime de internato, com aulas na sala e no campo, e duas semanas em suas propriedades, aplicando os novos conhecimentos, sob o acompanhamento e a orientação de monitores especializados”, explica Joana Almeida, consultora educacional da Fundação Odebrecht.

Segundo a educadora, tal metodologia nasceu na França, em 1937, e ao sistematizar e difundir os conhecimentos adquiridos nas famílias e comunidades acaba por introduzir novos padrões de qualidade e produtividade na produção local.

Para Tarcísio Botelho, coordenador pedagógico das Casas Familiares do Mar, Agroflorestal e Rural de Igrapiúna (projetos do DIS Baixo Sul), a associação de pais e cooperados é co-responsável pela condução das ações. No caso do projeto Casas Familiares, os pais dos jovens partilham das discussões sobre os caminhos trilhados por seus filhos na instituição.

“A definição de materiais didáticos é elaborada a partir da realidade da comunidade e o currículo do curso é construído e aprovado pela Associação Casa Familiar, contando com a participação de outros atores sociais locais, como sindicatos agrícolas, colônias de pesca, escolas etc.”, conta Tarcísio.

A ONG Canto Cidadão, que desenvolve atividades em hospitais, brinquedotecas e escolas, criou o programa social “Doutores Cidadãos”, grupo de voluntários palhaços hospitalares. O objetivo principal, segundo Felipe Mello, não é apenas conquistar sorrisos, e sim conhecer o espaço público de saúde e entender os motivos de um atendimento insatisfatório para a maior parte da população brasileira que depende do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Nossos programas estimulam e preparam para o protagonismo social consciente, que não acontece apenas durante a execução das ações, mas quando os voluntários levam para a sua vida pessoal, profissional e social aquilo que descobrem como valioso durante o treinamento e a prática”, afirma.

Um dos pontos mais importantes dentro do protagonismo social é a postura do educador envolvido. Para Tarcísio Botelho, é essencial ter vínculo com a comunidade. “O educador deve ser um profundo conhecedor da realidade daqueles com quem pretende estabelecer uma relação de apoio”, afirma. “Só é possível influenciar pessoas a partir do exemplo. Portanto, praticando ações protagonistas, o educador torna-se referência ao grupo”, complementa.

Na Bahia, o intenso trabalho com protagonismo já resulta em enredos mais dedicados para públicos maiores. “Temos jovens que organizaram associações de produtores; outros se tornaram presidentes de suas próprias associações. Além daqueles que se interessaram por questões que envolvem a comunidade e acabaram enfrentando desafios como a elaboração de hortas coletivas, limpeza de rios e nascentes, coleta seletiva e reflorestamento”, conta Tarcísio.

Embora haja diversas ações que exploram o conceito atualmente, os programas ou instituições que trabalham com o protagonismo social também enfrentam dificuldades. Segundo Joana Almeida, o problema não é elaborar projetos, e sim executá-los com disciplina e entendimento. “É importante encontrar adultos, educadores e líderes que encarem este desafio, que se façam de ‘ponte’, investindo e possibilitando o desabrochar dos educandos”, afirma.

Para Felipe, é importante despertar um interesse nos participantes que ultrapasse a ação imediata, transformando-se em postura de vida. “Mudar políticas públicas de educação, saúde e segurança é substancialmente mais complexo do que doar agasalhos ou distribuir sopas”, afirma. Apesar de valorizar tais ações, o diretor da ONG Canto Cidadão reforça que “o verdadeiro protagonista não se contenta em matar a fome do pão que é saciável, e sim amenizar a fome de beleza, que é insaciável”.

Links
www.cantocidadao.org.br
www.fundacaoodebrecht.org.br

 

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