Gabriel o Pensador

Por: Thaís Iannarelli
01 Julho 2009 - 00h00

“Muda – que quando a gente muda o mundo muda com a gente; A gente muda o mundo na mudança da mente”. Com essa frase de Gabriel Contino, mais conhecido como Gabriel o Pensador, fica claro o foco da sua atuação na área social e o objetivo de sua organização, chamada Pensando Junto: estimular os participantes a repensar seus valores e desenvolver a autoestima, criando oportunidades para seu desenvolvimento por meio de uma rotina repleta de atividades físicas e intelectuais.

Nascido no Rio de Janeiro em 1974, o rapper sempre observou a realidade da desigualdade social e, por isso, as músicas dos seus sete discos são marcadas pelo ativismo social e político. Cansado de conviver com as injustiças sociais, decidiu criar, junto com seu tio, uma organização que oferecesse atividades de formação cultural e intelectual para crianças e adolescentes da Rocinha, no Rio de Janeiro, local onde a organização está situada.

Em entrevista à Revista Filantropia, Gabriel fala sobre sua vida como músico, ativista social e sua iniciação no Terceiro Setor.


Revista Filantropia: Em sua atuação no meio musical, você sempre demonstrou um engajamento político e social. Como isso começou?

Gabriel o Pensador: Eu comecei a ouvir músicas com temas que chamavam a atenção, com temáticas sociais, desde garoto. Eu gostava de Bob Marley, rock brasileiro e rap. Também convivi, quando era criança e adolescente, com pessoas de classes sociais diferentes. Tinha amigos mais ricos, outros da favela da Rocinha, e sempre fui um menino muito observador e atento. Acho que foi aí que descobri o que era preconceito, por conta própria, quando andava com meus amigos no shopping, por exemplo. Sempre fui ligado a esses temas e, aí, quando vi que gostava de escrever, fiz algumas letras de música aos 11 anos. Depois parei, mas voltei aos 16 anos, e percebi que já tinha uma temática que incluía esses temas, então foi algo natural.

RF: E como você fez para tornar isso público?

GP: Com 18 anos lancei uma música que foi censurada, não tinha gravadora nem nada, mas foi censurada. Era a “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, que falava do Collor, na época do impeachment. Essa foi a primeira que apareceu publicamente. Antes disso, eu tentava fazer aparições em festas, cantava algumas músicas em algum show. Aí lancei essa música, que ficou cinco dias no ar e o governo mandou as rádios pararem de tocar. Em 1993 consegui assinar com uma gravadora e lançar um disco. Eu estava entrando na faculdade de comunicação, queria fazer jornalismo, mas tranquei para me dedicar à música.

RF: E no que consiste o Pensando Junto, projeto social criado por você?

GP: É uma ONG pequena e recente, tem 30 integrantes. Oferecemos aulas de português, matemática, rap, break, informática e artes. Tem uma muito legal, que é a de DJ, eles tocam uns discos, aprendem a mexer. Além dessas aulas tem a de cidadania, que é mais um bate-papo, do meu ponto de vista.

RF: Como surgiu a ideia de criar esse projeto?

GP: A ideia surgiu com a garotada que ficava no sinal de trânsito. Eu dava umas roupas usadas, sem compromisso nenhum, mas passei a conhecê-los. Eles me contavam que um não estava mais na escola, que o outro tinha brigado com alguém, e eu vi que eles estavam se desencaminhando, estavam crescendo. Um dia o garotinho está ali, pequeno, fofinho e, no outro, já está maior, e ninguém mais quer dar dinheiro. Aí ele vai ter de roubar, fazer besteira. Por isso, resolvi encaminhá-los para um projeto que já existia, uma ONG de circo, mas era muito longe e eles não foram. Adoraram a ideia, mas era inviável. Aí resolvi fazer uma ONG ali mesmo, na Rocinha, e comecei com esses garotos.

RF: E com o tempo a ONG foi se desenvolvendo?

GP: É, comecei com esse pequeno grupo, depois acabamos juntando mais umas 15 pessoas, com meninas também. De lá para cá, aqueles primeiros já saíram, alguns tiveram problemas de adaptação mesmo, outros não... a gente vai aprendendo também a estimular os garotos. Antes não havia todas essas aulas, aumentamos a quantidade de aulas de música, a parte cultural, para que eles se interessassem mais. E o pré-requisito é que eles estejam na escola para poderem participar. Fizemos também algumas regras. Por exemplo, eles ganham uma cesta básica por mês, e passeios culturais a museus e parques. Caso aconteça algo muito grave, eles podem perder esses benefícios. Nós nos adaptamos à realidade do pessoal da comunidade.

RF: Agora que você atua em ONG, como você vê o Terceiro Setor no Brasil?

GP: Acho que as ONGs são uma alternativa legal para ajudar quem precisa. Claro que tem de tudo, tem as legais e outras nem tanto. Mas as que eu conheço são boas. Desde que comecei a conhecer as organizações, acho importante ver os resultados na prática, seja qual for sua natureza. Pode ser ligada ao esporte, à cultura, à música. Eu até me inspirei nessas para poder criar alguma coisa própria. Somos eu e meu tio que bancamos a ONG. Já tivemos patrocínio, agora não temos, mas fazemos com muito carinho. Acho legal ter uma iniciativa particular, de grupos de pessoas que, além de fazer bem para aquele pessoal, ainda inspira outros a agirem também.

RF: Você acha que o engajamento de pessoas com visibilidade na mídia tem impacto maior na sociedade?

GP: Acho. Eu sempre fui muito tímido com a minha ONG, não fico divulgando, não procuro uma postura de promover. Acho até que deveria fazer mais isso, aparecer em programas de televisão para divulgar, no fundo eu acho legal sim. Eu mesmo me inspirei em uma ONG que vi na televisão, do jogador de futebol Gonçalves. Não tem nada a ver com a minha, mas me inspirei nele. Pensei: quero fazer uma também. Conheço as grandes, como a Gol de Letra, mas, para começar, achei que deveria ser algo menor. Agora já acho que devemos aumentar, porque temos 30 pessoas, mas tem mais 60 na fila de espera para entrar, então estamos esperando patrocínio. Tenho vontade de encarar o desafio, de dobrar a quantidade de crianças e fazer a Pensando Junto crescer, mas tem de ser aos poucos.

RF: Você acha que, apesar de todos os problemas que vemos no mundo, ele está no caminho certo, em decorrência dos inúmeros projetos sociais que existem?

GP: Não sei, é difícil fazer esse tipo de avaliação. Acho que podemos fazer uma pequena parte, ter uma alegria com isso. Mas, sendo realista, a gente se espanta mesmo com o tamanho dos problemas. Às vezes ficamos mais otimistas, às vezes menos, porque é complicado, depender só das ONGs não dá. Acho que no Brasil, nos Estados e municípios, tem muito dinheiro rolando, muita receita mesmo, e temos tudo para dar outra condição para os mais pobres, seja criança ou adulto. Para pobre e para rico também, que seja melhor para todo mundo, melhorando a saúde, a educação, a segurança pública e tudo mais. Temos de cobrar, não adianta só ficarmos felizes porque o Terceiro Setor está crescendo, mas temos de cobrar do poder público também. Ao mesmo tempo, acho legal que o pessoal está “botando a mão na massa” e fazendo mudanças reais acontecerem.

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