Parcerias que dão certo

Por: Luciano Guimarães
01 Março 2010 - 00h00

Mesmo enfrentando dificuldades com empresas não acostumadas a investirem no Terceiro Setor, empreendedores sociais conseguem firmar convênios e manter projetos fundamentais para a sociedade

O sucesso de projetos sociais geridos por ONGs no Brasil não depende apenas da boa vontade dos diretores das entidades, dos voluntários que prestam serviço ou do poder público – no repasse de recursos quando são celebrados convênios –, mas também da sensibilidade de uma parcela crescente de empresas privadas.

As dificuldades em se tocar um projeto sempre existirão e serão proporcionais ao porte e aos objetivos da entidade. E, certamente, quanto menos projeção na mídia e na sociedade tiver a instituição, mais difícil será sua luta diária (veja a primeira parte da reportagem sobre este tema – Luta árdua e desigual – págnas 20 e 21 da edição 44 da Revista Filantropia).

Hoje, a participação das empresas é fundamental para o sucesso de iniciativas como o Projeto Tamar-ICM Bio, patrocinado pela Petrobras e apoiado por parceiros como Arcor, Arcelor Mitall, Celpe e Deten Química.

Na mesma linha, a ONG SOS Mata Atlântica atua em diversos projetos, com destaque para o ClickÁrvore, que já recebeu doação equivalente a 23,7 milhões de árvores e que conta com a parceria do Grupo Abril e o patrocínio do Bradesco. A entidade tem ainda parceria com o Grupo Pão de Açúcar para a venda das famosas sacolas retornáveis (ecobags) fabricadas 100% com garrafas PET.

Outro exemplo que vem dando certo é o da ONG Ipê Instituto de Pesquisas Ecológicas, possuidora do título de Oscip, cujos projetos recebem o patrocínio de empresas como Alpargatas/Havaianas, Grupo Martins, Faber Castell, Vivo, Bimbo, Bovespa Social, O Boticário, Banco Triângulo S/A, Danone, entre outras.

No caso específico da Alpargatas, a parceria com o Ipê Instituto de Pesquisas Ecológicas é do tipo Marketing Relacionado à Causa (MRC), no qual 7% do lucro líquido das vendas das sandálias da coleção Havaianas-Ipê é revertido para a entidade para a formação de um fundo de conservação.

Além de apoiar o Ipê, a Alpargatas recentemente fechou convênio nos mesmos moldes com a ONG Conservação Internacional, que receberá 7% das vendas líquidas das sandálias Havaianas Conservação Internacional.

“Os recursos serão destinados a projetos socioambientais no litoral do Brasil, que aliam conservação da biodiversidade marinha a práticas harmônicas de uso dos recursos naturais, como a pesca sustentável e o ecoturismo”, conta Marcelo Fibe de Cicco, diretor de marketing da marca Havaianas. “Nossa estratégia é firmar poucas, mas eficazes parcerias com organizações sérias e com credibilidade, cujo foco de atuação é o Brasil”.

A Natura é outra empresa que apoia o Ipê, por meio de um campus onde está sendo oferecido mestrado – aprovado pela Capes/MEC – pela Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (Escas). “Trata-se de um dos maiores empreendimentos desenvolvidos entre uma ONG e uma empresa do setor privado”, define Suzana Padua, presidente do Ipê, que recentemente recebeu o Prêmio Empreendedor Social 2009, realizado pela Folha de S. Paulo e Fundação Schwab.

Segundo ela, o empreendedorismo social é uma área que tem despertado interesse cada vez maior em diversos setores, especialmente das grandes empresas. O equilíbrio entre as demandas dos parceiros precisa ter uma perfeita sintonia para que não desafine.

“Em uma parceria, um lado não deve impor-se em relação ao outro nem ceder seus princípios para agradar o parceiro. O diálogo pode ajudar a evitar que, por conta de recursos, uma ONG abra mão de sua missão para desempenhar o que uma empresa demanda, por exemplo. A empresa também não deve ser apenas repassadora de recursos, pois o envolvimento com a causa com a qual está se associando pode trazer satisfações muito além de manter uma boa imagem pública”, argumenta Suzana.

Interior

Uma parte considerável dos empreendedores sociais começa a trilhar um caminho que muitos outros profissionais já desbravaram – o interior do país, especialmente nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

O Ipê Instituto de Pesquisas Ecológicas, por exemplo, desenvolve mais de 50 projetos espalhados em seis regiões do Brasil, com destaque para os viveiros de árvores nativas com os assentados do Pontal do Paranapanema (SP) e para o Projeto Café com Floresta, no qual o café é plantado juntamente com árvores nativas que o protegem de geadas.

“Esses projetos fornecem renda às famílias participantes e, ao mesmo tempo, enriquecem a paisagem e a biodiversidade regional. Iniciativas como essa são o que chamamos de “win-win” ou “ganha-ganha”, pois tanto as pessoas como o ambiente saem beneficiados e integrados”, frisa Suzana Padua.

Em Tocantins, o plano assinado pelo Vetor Brasil, grupo fundado em 2006 por estudantes da Unicamp, Universidade de São Paulo (USP) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), foi finalizado e está em fase de implementação. Em Palmas, o projeto ainda está em fase inicial. Os gestores da entidade resolveram concentrar suas forças no incremento de projetos e planos de desenvolvimentos para pequenos e médios municípios, que geralmente ficam em segundo plano na distribuição de recursos federais e estaduais. Assim, criaram o Vetor Cidades, empreendimento do Vetor Brasil, com foco nesse tipo de trabalho.

“O intuito é conduzir esses municípios a patamares próximos aos dos observados em países desenvolvidos, a médio e longo prazo”, explica o engenheiro mecatrônico José Frederico Lyra Netto, presidente da ONG Vetor Brasil. De acordo com o gestor, o grupo atua mostrando os conceitos básicos do trabalho tanto no âmbito social quanto no campo da gestão pública e da capacitação profissionais dos servidores. “Buscamos a qualidade da educação, o caráter preventivo da saúde básica, reduzir a pobreza e a desigualdade e reforçar a identidade local, entre outras ações”, argumenta.

“Além de tratarmos da questão dos incentivos aos profissionais da área pública, propomos maneiras de reduzir a dependência fiscal da cidade de repasses externos, como está acontecendo, por exemplo, em Araguaçu, com o projeto Araguaçu 2020 (Plano de Desenvolvimento de Araguaçu).

Mesmo com todas as dificuldades que o empreendedorismo social vem encontrando para se desenvolver no Brasil, existem muitos casos de sucesso. Mesmo assim, é evidente que ainda falta muito para se aproximar dos países ricos, onde o apoio a projetos sociais é histórico e cultural.

“As fundações estrangeiras são inúmeras, e não só as empresas, mas as famílias abastadas, fundam organizações para apoiarem causas diversas. No Brasil, o número de fundações empresariais é bem menor, e as familiares, quase inexistentes”, lamenta Suzana.

Com tal afirmação, a gestora traduz o sentimento da maioria dos empreendedores brasileiros: apesar das muitas dificuldades e frustrações, persistência, perseverança e muito trabalho são os ingredientes para vencer os desafios.

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