Para que serve um relatório de sustentabilidade?

Por: Dal Marcondes
08 Janeiro 2014 - 19h20

Muitas empresas utilizam os relatórios de sustentabilidade como peças de marketing que pouco contribuem para que a sociedade tenha uma visão transparente da atuação corporativa.

Nos últimos anos tornou-se mais corriqueiro as empresas publicarem a cada ano seus relatórios de sustentabilidade, uma ação que deveria contribuir para dar transparência não apenas às ações que uma organização faz em direção a uma gestão mais sustentável, mas também para expor os dilemas que enfrenta, seja por conta do setor em que atua, seja por conta do tipo de matérias-primas que utiliza, ou pelos produtos que desenvolve, além de tornar explícita sua política de relacionamento com os diversos públicos que impactam com suas operações, principalmente as comunidades.

Os relatórios deveriam ser instrumentos de gestão para as empresas, uma forma de se conhecerem melhor através do esforço para esmiuçar suas atividades de acordo com padrões internacionalmente reconhecidos, como o Global Reporting Iniciative (GRI). No entanto, em boa parte das vezes, isso não acontece. Os relatórios são preparados por equipes mais preocupadas em preservar a imagem da empresa e valorizar iniciativas que considerem adequadas do que para oferecer uma visão de conjunto sobre as políticas de sustentabilidade corporativa. Mesmo assim, vale registrar: ruim com eles, pior sem eles.

Foi nessa linha que a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBOVESPA) lançou para as empresas listadas em seus pregões o desafio de universalizar a prática de produzir relatórios de sustentabilidade. A normativa da bolsa é explícita: “As empresas devem apresentar seus relatórios ou explicar por que não fazem esse relato”. Uma orientação que certamente causa alvoroço entre os profissionais das empresas, que agora terão de pensar em como agir e dar materialidade a essa orientação, e para as empresas e profissionais que hoje vivem de produzir relatórios para empresas, além de ser um mercado certamente em expansão.

Estima-se que no Brasil cerca de 200 empresas façam seus relatórios dentro dos padrões GRI, mas a estatística é falha, porque não há uma regra que obrigue a empresa a registrar seu relatório junto ao escritório do GRI. Um dado relevante é que dentre as empresas listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA, neste ano foram quase 40 que participaram, e todas publicaram relatórios.

Mas uma pergunta recorrente é: “Para que serve um relatório de sustentabilidade?”

Os atuais, para muito pouco. Uma enquete informal feita com profissionais que atuam na área de sustentabilidade e especialistas no tema em todo o Brasil mostrou que poucos são aqueles que se disponibilizam e dedicam tempo à leitura do relatório. A maioria apenas olha de relance e guarda, até que o exemplar do ano seguinte lhe chegue às mãos. Mesmo os analistas de investimentos e os potenciais investidores dão pouca atenção aos relatórios, porque sabem que, em sua maior parte, são peças de marketing e não oferecem uma visão credível dos processos de gestão das empresas. O marketing e as informações relevantes estão de tal forma entrelaçados que não é possível ao leitor fazer uma distinção entre as informações efetivamente relevantes daquelas que simplesmente tentam mostrar uma foto mais palatável da empresa.

Em tempos de mudanças, em que antigos paradigmas econômicos são cotidianamente contestados, conhecer as empresas de fato, o que pensam e como enfrentam seus dilemas torna-se fundamental para a criação de um mercado mais equilibrado e eticamente sustentável. Os relatos empresariais deveriam oferecer aos leitores uma visão da complexidade da gestão e de seus impasses, o que pensam os executivos e como é a percepção, de fato, que os seus principais públicos, stakeholders, têm da corporação. De fato, o ideal é que as empresas se ofereçam para uma reportagem, algo mais próximo do jornalismo do que do marketing, pois assim poderiam dar credibilidade às informações publicadas.

A própria empresa e seus executivos e colaboradores deveriam também ser tratados como stakeholders, uma vez que o quadro geral apenas se forma com a junção de todos os componentes desse quebra-cabeças, que é uma organização complexa. Nos próximos anos um número enorme de novas empresas irá incorporar em suas práticas o relatório anual de sustentabilidade. É importante que essas peças de informação tenham alguma utilidade para a própria empresa e para a sociedade e comunidades onde suas unidades estarão inseridas. Outro ponto fundamental é que o relatório de sustentabilidade ganhe a mesma relevância dos balanços, onde os números das empresas são esmiuçados por investidores, e nunca poderá haver qualquer tipo de maquiagem.

Ser sustentável tem uma relação direta com a redução de riscos para a empresa com a manutenção de sua “licença para operar”, não pelas leis, mas pela própria sociedade, e com a perenidade dos negócios. Relatar, mais do que a montagem de um cenário idealizado, deve significar cada vez mais buscar, através da transparência, compartilhar dilemas com a sociedade e com outros setores do mercado. Também, é claro, mostrar suas boas práticas.

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