Os Desafios Da Convivência Na Era Moderna

Por: Lucimar Reginato Zardo
07 Outubro 2015 - 13h24

Há dez anos criou-se o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), um sistema que veio, positivamente, corrigir as formas errôneas de definir Assistência Social.

Sou trabalhadora do SUAS e, como tal, sinto-me privilegiada em fazer parte desse sistema. Entretanto, há pouco tempo, como muitos outros trabalhadores, estamos nos inteirando sobre o sistema e buscando concretizar as adequações necessárias. Apesar de estarmos atrasados no conhecimento, infelizmente outros trabalhadores sequer sabem o que significa SUAS e ainda acreditam que seja apenas um pronome.

Para possibilitar a realização de um trabalho com qualidade é fundamental ter informação. E, mais do que isso, é preciso querer informar-se. Não basta ter um cargo ou uma função e acreditar que isso seja suficiente. Em tempos de modernidade, o comodismo pode representar um grande atraso na vida das pessoas. Aliás, talvez seja a modernidade o grande desafio de uma das principais proteções da Assistência Social: a proteção básica.

Os Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) fazem parte dessa proteção, que tem como um dos objetivos principais promover a convivência familiar e comunitária.

Coordeno um dos SCFV da Assistência Social de Caxias do Sul (RS), onde atendemos crianças e adolescentes dos 6 aos 15 anos. O trabalho da proteção básica é preventivo e de baixa complexidade, pois os direitos ainda não foram violados. E, para que se atinja esse objetivo, precisa-se investir na convivência, fortalecendo os vínculos entre os membros, garantindo a não violação de direitos. Acredito muito na eficácia do trabalho preventivo para um futuro de pessoas fortalecidas, com autonomia, e cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. O grande desafio da humanidade está em saber conviver, e a modernidade apresenta-se como um grande vilão para quem almeja promover a convivência entre as pessoas.

Sabe-se que um convívio familiar saudável e adequado é o alicerce para uma proteção básica bem-sucedida. Entretanto, o pouco tempo que a família tem para estar reunida fica comprometido na medida em que o computador, o celular e o tablet dividem o espaço da casa. A dependência dessa tecnologia isola as pessoas, e cada um acaba criando um mundinho seu, particular e sem acessibilidade. Outro fator negativo é o medo da violência, em que muros criam barreiras intransponíveis na convivência comunitária. Poucas famílias desenvolvem sentimentos de pertença, pois, além do isolamento por muros e grades, ainda existe o fato de a grande maioria das famílias ser migrante, e isso gera pouco ou nenhum envolvimento com a comunidade. Além disso, o pouco investimento ou a falta de manutenção dos espaços públicos acaba forçando as pessoas a ficarem cada vez mais enclausuradas dentro do próprio lar.

Nós, trabalhadores do SUAS, além das atribuições que nos cabem, teremos que tomar doses extras de criatividade para planejar ações suficientemente cativantes que consigam driblar as adversidades da era moderna. Talvez a grande sacada seja promover momentos simples, aos olhos da modernidade, mas com um grande poder de resgatar a convivência. Exemplos de como é possível cativar nosso público são atividades que consigam resgatar valores esquecidos e que, na correria do dia a dia, passam despercebidas. A maioria das pessoas está acostumada a fazer o que todos fazem ou o que está em voga. Dificilmente usam experiências do passado para surpreender, e isso pode ser um erro.

Uma atividade que desenvolvemos recentemente na organização surpreendeu pelo resultado e pela eficácia no alcance dos objetivos. Para trabalhar o sentimento de pertença e de reconhecimento do território, além de promover uma melhor convivência entre os grupos, realizamos, após uma caminhada pelo bairro, a brincadeira do amigo secreto, na qual o presente seria enviar uma correspondência para a residência do amigo. Com isso, tínhamos o objetivo de avaliar como era realizado o trabalho do carteiro, de como a correspondência chegava até a residência de cada um, como as ruas eram organizadas, entre outros. Mas o que pretendíamos principalmente era despertar sentimentos novos em cada um e fazê-los perceber que existem muitas formas de comunicação entre as pessoas, e que não precisamos exclusivamente da tecnologia para isso. Depois de receber a correspondência, os participantes deveriam trazê-la ao Serviço e compartilhar a experiência. Os relatos foram surpreendentes! Nunca tinham recebido uma correspondência em seu nome, e isso despertou emoções e sentimentos novos. Alguns exemplos dos depoimentos das crianças e dos adolescentes foram: “Me senti importante!”; “Senti que era gente grande”; “Pulei e gritei de alegria e perguntei ao carteiro se era para mim mesmo”. Houve o envolvimento da família que, curiosa, buscou informações de como havia sido desenvolvida a atividade. Isso mostra que uma prática antiga e fora de moda foi capaz de despertar emoções saudáveis, estreitando laços afetivos entre os participantes e promovendo novas descobertas.

Ressalto a importância de resgatar costumes antigos pelo simples fato de que, com a chegada da modernidade e da evolução, acabamos atropelando o que existia de mais saudável entre as pessoas: A convivência! Percebe-se que estamos à beira do abismo, e a humanidade não tem mais para onde avançar. Retroceder, para resgatar certos valores, talvez seja a solução. Acredito também que, em um futuro próximo, o papel de promover a convivência não será apenas da Assistência Social. O poder público terá que usar de muita criatividade também. Faz-se necessário criar espaços que estimulem a convivência entre as pessoas e que possam promover a igualdade. Isso porque a realidade nos mostra a maioria das cidades com poucos espaços de lazer, sendo que os que existem são seletos e, por si só, excludentes.

Temos um grande desafio pela frente. Se quisermos, realmente, desenvolver um trabalho com resultados positivos, será necessário equipar-se com ferramentas avançadas de criatividade. No entanto, sabemos o quão gratificante é o resultado, pois a parte mais emocionante de todo e qualquer desafio está na aventura de enfrentá-lo e na satisfação de superá-lo.

*Coordenadora do SCFV Laços da Amizade – FAS – Caxias do Sul / RS

 

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