Organizações paraibanas apostam na educação

Por: Felipe Mello
01 Maio 2005 - 00h00

Um provérbio chinês diz que se o planejamento é para um ano, deve-se plantar cereais; já se o planejamento for para uma década, o melhor é plantar árvores; no entanto, se o planejamento é para a vida, o caminho é investir na educação. Soma-se às sábias palavras o dito de Pitágoras, que, categórico, afirma: “eduquem as crianças para não castigar os adultos”.

Redundante seria apresentar mais argumentos que justifiquem o foco em ações educativas, exatamente o caminho seguido pelas entidades aqui expostas. Ambas se destacam pela produtividade e pertinência, ou seja, o impacto conquistado junto ao público beneficiário.


A primeira trata de democratizar o acesso à leitura junto a alunos de escolas públicas em comunidades rurais, enquanto a outra convoca o esporte para enriquecer o processo de educação, promovendo saúde física e cultura.

 

Biblioteca itinerante melhora desempenho na leitura de jovens alunos

Em fevereiro de 1997, a escola da comunidade de Capim Açu, próximo à cidade paraibana de Conde, observou o início do projeto de incentivo à leitura, denominado Biblioteca Livro em Roda. A atividade itinerante, que funciona na área rural do município, oferece material de leitura e um programa de incentivo para alunos de escolas pequenas de ensino fundamental que não possuem bibliotecas.

O projeto começou atendendo uma escola de 50 alunos, com pequeno acervo de 80 livros de literatura infanto-juvenil. O meio de transporte era o carro das duas fundadoras, Teresa Cristina Barbosa de Brito e Anne Ceulemans. Os gastos de combustível eram pagos com pequenas doações oferecidas por simpatizantes da idéia. Com o passar do tempo cada vez mais escolas foram sendo atendidas, aumentando a credibilidade da iniciativa. As verbas começaram a chegar e, já ao final do terceiro ano, 16 escolas e seus 1.500 alunos era visitados.

Atualmente, o projeto está em 20 escolas e 2 creches, ampliando a capacidade de leitura de mais de 2.050 crianças toda semana. O programa é formado por duas partes igualmente importantes: levar o material de leitura até as crianças e apresentar semanalmente um livro infanto-juvenil por turma, estimulando também os professores a ler para os alunos.

A idéia de apresentar um texto por semana serve para mostrar aos alunos e professores que a leitura motiva o mergulho, o sonho e a viagem sem nenhum tipo de cobrança. Todas as semanas, a Biblioteca Livro em Roda leva uma quantidade de livros às escolas atendidas e empresta um título para cada aluno por uma semana, que pode lê-lo em seu ritmo, no ambiente e no horário que escolher.

Os principais desafios vêm sendo driblados ao longo do tempo, como a criação da metodologia de leitura, a conquista da confiança das escolas e o interesse real e constante dos alunos. Os resultados práticos tornaram viáveis as parcerias com órgãos do governo, empresas e instituições internacionais de financiamento. Entretanto, observa Teresa Cristina, “os grandes desafios atuais são a falta de livros – estamos com somente 2.365 livros no acervo, com 90% de taxa de retirada – e a lentidão da municipalidade”, uma vez que os títulos infanto-juvenis são muito caros, e é preciso comprar uma quantidade elevada para que os alunos tenham na diversidade uma fonte de interesse.

Ainda segundo Teresa, as editoras praticam os mesmos valores cobrados aos consumidores normais, dificultando o acesso. Com relação ao poder público, o impasse se dá em função da recente troca de prefeitos e, conseqüentemente, secretários de educação. O financiamento do combustível dos carros que levam os livros ainda não foi definitivamente garantido pela atual gestão do município de Conde, principal atendido pelo projeto.

Desafios à parte, a iniciativa tem alto potencial de sobrevivência e ampliação, principalmente em função de sua pertinência e metodologia, que certamente tem como inspirar projetos semelhantes em outras localidades do país.

“Atenção, atenção! Um projeto de baixo custo e alto impacto social.” Nada melhor que as palavras de uma aluna atendida para comprovar: “Toda quarta-feira fico olhando pela janela se a tia já vem. E quando chega o carro com os livros, é uma bagunça, é uma felicidade!”. Felicidade é um país formado por leitores.

 

Educar por meio do esporte é o principal objetivo do Instituto Alpargatas

O segundo projeto social está ligado a uma empresa de expressão nacional, a Alpargatas. Apesar de bastante recente, a iniciativa social demonstra sua eficácia por meio de números que impressionam. O programa beneficia milhares de alunos de municípios distintos, especialmente Santa Rita, situada a 20 minutos da capital, onde existe uma importante fábrica da empresa.

De acordo com o diretor-executivo do instituto, Berivaldo Araújo, “trata-se de uma busca incessante para implantar e implementar metodologias que relacionem a prática esportiva qualificada com a multidisciplinaridade e o rendimento escolar”. Nesse contexto, o programa envolve alunos de escolas públicas municipais de comunidades carentes em projetos de ações na escola e pós-escola.

Com isso, intensifica a permanência dos jovens no ambiente escolar e proporciona a complementação do horário em atividades esportivas qualificadas e diversificadas. As aulas são acompanhadas por profissionais de Educação Física, que destinam conhecimentos técnicos à aplicação da metodologia criada a partir de experiências construídas dentro da própria realidade socioeconômica, cultural e de infra-estrutura.

“O instituto conduz suas atividades priorizando investimentos em comunidades de baixo IDH (índice de desenvolvimento humano), regiões brasileiras que necessitam de atenção mais urgente”, observa Berivaldo. Em 2003, o projeto Educação por meio do esporte caracterizou-se como piloto e atendeu 649 crianças e jovens de 7 a 17 anos, nas 19 escolas onde foi implantado. Um ano depois, com o objetivo de ampliar o atendimento e estabelecer uma política de implementação, foram atendidos 13.526 alunos.

Os números representam um aumento de 2.084% de alunos no projeto, percentual representativo para um trabalho que, em 24 meses, ampliou o atendimento a todos os alunos que estão matriculados no sistema municipal de educação da cidade de Santa Rita, o que representa um atendimento de 99,2% dos alunos que freqüentam as aulas de Educação Física.

A implementação do projeto estimulou a qualidade da educação das escolas, permitindo que as aulas ficassem mais atrativas no que se refere ao desenvolvimento global das capacidades físicas e habilidades motoras, à redução da agressividade e à aprendizagem a partir do raciocínio lógico-matemático, tanto nos conteúdos de Educação Física quanto na postura interdisciplinar dos conteúdos das demais disciplinas. “Os dados comprovam a qualidade do programa, uma vez que entre 2003 e 2004 a atratividade das aulas dobrou, na opinião dos alunos”, comemora Berivaldo Araújo.

Cabe salientar que o projeto aposta na diversidade e respeito à individualidade, pois diversas modalidades esportivas, jogos e brincadeiras da região são utilizados no fortalecimento do processo educativo. Cada escola possui um programa alinhado com suas necessidades e capacidades, sendo que alguns deles foram premiados nacional e internacionalmente.

O Instituto Alpargatas, após oferecer a metodologia por dois anos, além de investir na estrutura física das escolas, cumprirá, a partir deste ano, um papel coadjuvante, deixando a cargo das escolas, professores e alunos a tarefa de dar continuidade às iniciativas que se mostraram vencedoras. “Estaremos no suporte, preparados para contribuir em qualquer tipo de dificuldade”, garante Berivaldo. Fica a torcida para que a empresa continue firme nas ações de responsabilidade social, amparando-se no sucesso conquistado para criar novos modelos de transformação social.

 

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