O profissional de Terceiro Setor em programas de voluntariado empresarial

Por: Tanya Linda Rothgiesser
01 Janeiro 2004 - 00h00
O profissional do Terceiro Setor converge harmoniosamente suas duas faces de Janus para o alcance de um objetivo comum: a realização do projeto social

O profissional do Terceiro Setor é o principal agente mobilizador da ação social desse milênio, devido a sua atuação na gestão de programas e projetos junto a corporações e em convergência com a sociedade civil, Estado e mercado. Quando se trata de um representante de empresa privada que se envolve com a responsabilidade social, sua postura reflete duas posições contraditórias: ele fica dividido entre os de extrema sensibilidade às questões sociais, e aqueles de ordem rigorosamente técnica. Que atitude tomar nessa situação? Obedecer aos desígnios racionais ou aos emocionais?

A essas questões contrapõe-se a figura mítica do deus romano Janus, de cabeça com duas faces posicionadas em sentidos opostos: uma olha para um lado e a outra, para o lado contrário, de forma aparentemente dual e conflitante. Ainda se faz a sobreposição ao semblante do gestor de projetos sociais: a face masculina atua com a razão objetiva por meio da pesquisa, da reflexão, da organização de dados e informações, viabiliza condições operacionais para a realização dos próprios projetos (planejamento estratégico, captação e administração de recursos, negociação, controle, supervisão), acompanha e avalia resultados, além de, eventualmente, buscar novas parcerias.

O semblante oposto, sujeito feminino por excelência – referência fundamental ao sujeito masculino, simultaneamente também por ele respaldada – permite-se dominar pelo sentimento e se indignar contra as injustiças e desigualdades sociais, delira em projetos visionários e se emociona com o retorno dos índices junto à comunidade beneficiada, com sua cumplicidade em relação aos resultados alcançados e com o trabalho anônimo, silencioso e desinteressado dos voluntários da equipe.

É assim o profissional do Terceiro Setor, que converge harmoniosamente suas duas faces de Janus – o comprometimento profissional com a instituição a que serve e sua paixão à causa social – para o alcance de um objetivo comum: a realização do projeto social. Ele permite que aflorem ambos os semblantes da maneira que senso e sensibilidade lhe impõem naquele instante, sem negar ou camuflar a emoção, mas sempre privilegiando o eixo de equilíbrio em que se integra o objetivo maior de suas ações profissionais. Sem a prevalência da angústia, do arrefecimento da vontade ou do equilíbrio, mas na conduta ética e persistente dos desejos pessoais e institucionais de alcance social.

E o ator social voluntário? Em que bases conceituais e técnicas deverá o profissional sensibilizá-lo e comprometê-lo à prática, a partir de programas de voluntariado empresarial? O conceito do “ser” ou “estar” voluntário poderá auxiliar na visualização das diferenças entre duas dimensões de comprometimento institucional e de consciência de cidadania.

O “ser” e o “estar” voluntário

O cidadão-voluntário, no estágio de “estar” voluntário, elege como causa primeira e única o servir à proposta social que deseja abraçar. O que o impulsiona são elementos que dizem respeito a aspectos subjetivos, reconhecidos por fatos concretos, ligados a própria história de vida ou a acontecimentos nacionais que o sensibilizam e o chamam à ação. Para a prática dessa atividade pontual, ainda pouco articulada, escolhe geralmente uma organização de reconhecimento nacional ou busca identificá-la junto àquele amigo já voluntário de forma discreta, para evitar constrangimentos.

Campanhas, quando bem coordenadas, costumam ser ótima primeira experiência de “estar” voluntário. O sentimento da prática da cidadania compartilhado com pessoas de mesma sensibilidade social provoca rápida identificação e vínculos. O resultado das ações, em geral de retorno mais visível, quase imediato, também contribui para que essa atividade voluntária se faça singular, frente a quaisquer outras intervenções particulares, geralmente sofridas ou mal sucedidas. Se da marca bem sucedida de “estar” voluntário resultarem novos desejos, com novas experiências de trabalho voluntário, está aberto o caminho, o que não significa, todavia, o suficiente para o “ser” voluntário.

A transição do “estar” para o “ser” voluntário pode ser longa, e até mesmo nunca ocorrer, mas torna-se marcante por uma alteração radical de consciência do indivíduo em relação aos valores da humanidade, à vivência incondicional de solidariedade, a um profundo desejo de mudança e da percepção da própria capacidade de intervenção nessa realidade. Quando se verifica, coexistem ainda toda uma força e energia estruturadas por meio de ações e resultados, construídos e compartilhados no dia-a-dia. E para os quais a instituição organizacional terá como contribuir decisivamente com o suporte adequado.

No entanto, esse caminho de “ser” ou “estar” voluntário é raramente identificado em ambientes corporativos. Torna-se, portanto, muito delicada a tarefa profissional de sensibilização do funcionário à cumplicidade da ação social, em integração às propostas da empresa e, mais além, em harmonização a uma cultura institucional ainda em formação. Ambientes corporativos, criando e compartilhando propostas mais amplas de interesse da sociedade, ainda são pouco difundidos. Um fenômeno relativamente recente no processo de desenvolvimento social brasileiro – a construção de uma governança corporativa vinculada a valores éticos de solidariedade e inclusão social. Isso exigirá do profissional do Terceiro Setor não apenas paciência e delicadeza no processo de sensibilização, mas cuidados redobrados na abordagem das etapas do planejamento estratégico para a implantação de um programa de voluntariado empresarial.

O diferencial de trabalho do voluntário-profissional

Nem mesmo o aparato institucional e a adequabilidade das políticas, ferra-mentas e habilidades gerenciais no trato qualitativo de cada elemento agregado ao trabalho voluntário garantem a eficácia do “ser” voluntário. Continua sendo um mistério o momento da formação da consciência de cidadania e, conseqüentemente, do comprometimento de valorosos voluntários-profissionais às causas institucionais. Por isso, o chamado capital social de uma organização é algo de incomensurável valor. Os elos de solidariedade que permeiam e vinculam relações espontâneas e compromissos entre cidadãos a uma ação social são de um poder de transformação vital, interna e externamente.

Profissionais-voluntários e voluntários-profissionais – recursos humanos do Terceiro Setor atuando juntos em ambientes corporativos. Eles são o ponto de partida para a prática da cidadania corporativa com um suporte adequado da gestão da responsabilidade social pelos programas de voluntariado empresarial.

Esses cidadãos, conscientes de sua força de transformação social, preparam-se profissionalmente para dar conta – em um grau além da formação acadêmica, dos recursos institucionais disponíveis para o projeto e da crua realidade social a enfrentar – de uma proposta, esta sim, especialmente privilegiada na esfera do desenvolvimento sustentável econômico e social: a construção de uma Rede Global, baseada na ética da solidariedade e voltada à paz social.

A construção de uma governança corporativa vinculada a valores éticos de solidariedade e inclusão social exigirá do profissional do Terceiro Setor cuidados redobrados para a implantação de um programa de voluntariado empresarial

Eixos metodológicos do trabalho voluntário em empresas

A prática do voluntariado empresarial, à medida que vai se enraizando e se multiplicando na organização, acaba por influir favoravelmente em sua cultura, trazendo ganhos maiores que os próprios recursos investidos. Para tanto, torna-se primordial atentar para os seguintes aspectos:

  • O programa de voluntariado empresarial deve se constituir pela iniciativa formal da empresa. Essa característica é essencial, porque, ao contrário do que muitas vezes é divulgado, o trabalho voluntário é tradição na cultura brasileira, porém, quando se trata de ambientes corporativos, é preciso se organizar a partir de uma ação estimulada e articulada por programa institucional, ou seja, da empresa para os funcionários.

  • O programa de voluntariado empresarial deve refletir a prática interna dos valores fundamentais de ética, solidariedade e participação. A doação de tempo, trabalho e talento a causas de interesse social e comunitário é de maneira espontânea e nunca remunerada. O trabalho voluntário não deve ser recompensado nunca, nem de forma direta ou indireta, isto é, por qualquer tipo de benefício ou remuneração financeira.

  • A participação no programa precisa ser estimulada pela empresa, sem perder, contudo, seu caráter facultativo. Isso deve estar articulado no programa de forma bastante clara, a fim de se evitarem circunstâncias ou sentimentos de percepção equivocados por parte dos funcionários.

  • Políticas de reconhecimento e valorização institucional são fundamentais em programas de voluntariado. Elas devem ser apenas por ações de caráter eminentemente simbólico, discutidas e definidas durante a elaboração do planejamento estratégico do programa de voluntariado empresarial.

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