O papel da mulher no cooperativismo

Por: Juliana Fernandes
01 Setembro 2010 - 00h00

A atuação da mulher é cada vez mais frequente nas cooperativas, seja como associada, nos conselhos
fiscais, na administração ou até mesmo na presidência. Essa presença mostra que a participação
feminina é fundamental para o sucesso do cooperativismo no país. De acordo com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), órgão máximo de representação do setor, as cooperativas são associações autônomas que reúnem pessoas para satisfazer necessidades econômicas, sociais ou culturais.
O ramo é uma alternativa para aqueles que pretendem comercializar ou ofertar à sociedade um produto ou serviço. Segundo o consultor em cooperativismo, Ney Guimarães, desde a criação da atividade, em 1844, o setor já trazia algumas virtudes. “Uma delas é trazer a mulher para a ponta como gestora, administradora ou parte integrante da cooperativa”, diz Guimarães, já que por muitos anos ela se manteve à ‘margem’ do trabalho principalmente por questões de gênero. “Essa questão de gênero, a diferença entre homem e mulher, é uma questão de cidadania e humanização. O Terceiro Setor e a governança pública têm que se preocupar com isso. Nós temos que, com coragem, ajudar não só as mulheres, mas os homens também, a sair dessa cultura”, sugereGuimarães.

Para a coordenadora geral de autogestão cooperativistado Coopergênero, Vera Lucia de Oliveira Daller, a figura do marido provedor e da mulher submissa deu lugar a uma nova ordem social, em que a igualdade é uma batalha diária e contínua em todas as esferas. “O que é preciso entender é que ninguém quer ocupar o espaço de ninguém. Existe espaço para todos”, afirma Daller.

Atualmente, para atrair ainda mais a participação feminina, as cooperativas modernas investem nos chamados
núcleos femininos. Guimarães explica que esses núcleos funcionam como “uma estratégia de aproximar a mulher para que ela tenha visão do seu negócio e, a partir disso, agregar o seu modo de ser”. O consultor ainda afirma que essa participação é evidente, já que “a cooperativa toma mais força”.
Segundo Daller, os benefícios para as mulheres que fazem parte dessas iniciativas são incontáveis. “Inserida na economia, a mulher participa do desenvolvimento do país. Tudo isso contribui para a melhoria
da sua autoestima e, consequentemente, de sua qualidade de vida. E na cooperativa acontece o mesmo,
as pessoas trabalham mais felizes porque acreditam em sua capacidade, em seu empenho e em sua utilidade à sociedade”.

Panorama

Desde a Conferência de Beijing, em 1995, a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) tem promovido a questão da mulher no cooperativismo. No mesmo ano, a ACI ainda desenvolveu o Programa de Ação Regional para as Mulheres da América Latina e do Caribe. O objetivo foi estimular a atuação feminina nas cooperativas e, principalmente, a igualdade de participação nas tomadas de decisões.

Em 1998, a OCB criou o Comitê de Gênero e Desenvolvimento Integrado em Cooperativas (GEDEIC) no Brasil. A iniciativa era composta por sete mulheres que representavam as cinco regiões brasileiras. Com sua extinção, foi implementado em 2003 o Programa de Gênero e Cooperativismo: Integrando a Família (Coopergênero), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O projeto capacitou diretamente mais de 26 mil mulheres e indiretamente outras 64 mil, tanto para atuarem
em áreas técnicas quanto nas administrativas. Para Daller, “a capacitação é uma importante arma para o empoderamento da mulher”.

Já para o consultor Ney Guimarães, a palavra de ordem é conquistar, “e desse ponto de vista, as cooperativas que abrem espaço e dão oportunidade para que as mulheres cresçam e conquistem o seu espaço só vão ganhar”. Ney ainda sugere que as iniciativas fidelizem seus cooperados para que eles se deem conta de sua importância. Reconhecimento este que Maria Luiza, da cooperativa de tecelagem Nós da Trama, faz questão de destacar: “fazer parte da cooperativa foi de extrema importância para que eu percebesse que tenho valor. A quantidade de coisas que saem daqui é impressionante. Tornei-me uma pessoa mais feliz e mais confiante. Não só aprendi algo novo, mas também posso contribuir com as despesas da casa”, explica.
De acordo com a coordenadora da Nós da Trama, Solange Bastos, “a maior conquista é perceber a transformaçãodas pessoas. O quanto elas se sentem importantes quando percebem que têm valor e que podem contribuir somando seus esforços aos de outras pessoas”.

Flores de Pilões

A mulher tem desempenhado um papel fundamental para o desenvolvimento do cooperativismo, principalmente no setor do trabalho e da geração de renda. No país, existem diversos exemplos de sucesso de cooperativas
femininas ou que têm a participação de mulheres. Entre elas está a Cooperativa de Flores de Pilões.

A Cofep, como é conhecida, foi criada em 1999 por um grupo de mulheres no interior da Paraíba. “Foi como uma piada quando surgiu”, relembra uma das fundadoras, Maria Helena Lourenço. Segundo ela, “a decisão foi muito difícil na época, tanto pelo meio em que vivemos quanto pelo machismo dos maridos e dos próprios moradores da comunidade”. Outro obstáculo encontrado foi a escassez de recursos, que fez com que a iniciativa fosse viabilizada apenas em janeiro de 2002. Hoje, superadas as dificuldades, a cooperativa é motivo de orgulho para a região. Cerca de 250 pessoas são beneficiadas direta e indiretamente com a produção mensal de 40 mil flores, que também são exportadaspara cidades do Rio Grande do Norte e Pernambuco.

“Aos trancos e barrancos, constituímos a cooperativa. Hoje, conseguimos nossa independência financeira”, declara Maria Lourenço. Entre os apoiadores do projeto estão: Sebrae, prefeitura de Pilões, Banco Mundial, Banco do Brasil, Universidade Federal da Paraíba e a Empresa de Assistência e Extensão Rural (Emater).

O assunto em números:
  • 24% das cooperativas têm algum departamento voltado para as atividades femininas (ensino infantil, cursos de economia doméstica, atividades socioculturais, entre outras);
  • 70% das cooperativas desconhecem programas destinados a aumentar a participação das mulheres no setor;
  • Apenas 7% preveem em seus estatutos qualquer incentivo para o aumento da participação feminina em suas atividades;
  • 38% das cooperativas afirmam ter tomado alguma iniciativa para aumentar a participação das mulheres;
  • 48% declaram ter planos futuros para estimular essa atuação.

 

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