O movimento das Apaes

Por: Thaís Iannarelli
01 Setembro 2004 - 00h00

Destacando-se pelo pioneirismo, a Apae - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - completa, este ano, meio século de existência.

Tudo começou no Rio de Janeiro em 1954, quando Beatrice Bemis, mãe de uma portadora de síndrome de Down, chegou dos Estados Unidos. Em seu país de origem, ela já havia participado da fundação de mais de 250 associações de pais e amigos, e admirou-se por não existir movimento parecido no Brasil.

Motivado por aquela cidadã, um grupo de pais, amigos, professores e médicos de excepcionais fundou a primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – Apae do Brasil. A primeira reunião do Conselho Deliberativo ocorreu em março de 1955 na sede da Sociedade de Pestalozzi do Brasil, que colocou à disposição parte de um prédio para que fosse instalada uma escola para crianças excepcionais, conforme o desejo do professor La Fayette Cortes.

A entidade passou a contar com a sede provisória, onde foram criadas duas classes especiais com cerca de vinte crianças. A escola se desenvolveu e apareceu a necessidade de implantar atividades criativas e profissionalizantes. Surgiu, assim, a primeira oficina pedagógica de atividades ligadas à carpintaria para deficientes no país, por iniciativa da professora Olívia Pereira.

No final de 62, 12 das 16 Apaes existentes realizaram a primeira reunião nacional de dirigentes, presidida pelo psiquiatra Stanislau Krynsky, para discutir a questão da pessoa portadora de necessidades especiais no Brasil.

Para melhor articulação das idéias, criou-se a Federação de Apaes, organismo nacional fundado em 10 de novembro de 1962. A federação é uma sociedade civil e filantrópica que congrega as Apaes e tem como missão promover e articular ações de defesa de direitos, prevenção, orientações, prestação de serviços, apoio à família, direcionadas à melhoria da qualidade de vida da pessoa portadora de deficiência e à construção de uma sociedade justa e solidária.

Hoje, cinqüenta anos depois, é o maior movimento filantrópico da área, no Brasil e no mundo. Esse crescimento vertiginoso se deu graças à atuação das federações estaduais e nacional, que, seguindo a mesma linha filosófica da primeira, permitiram e apoiaram a formação de novas Apaes. Estas, por meio de congressos, encontros, cursos, palestras e outros meios, sensibilizam a sociedade em geral e viabilizam os mecanismos que garantem os direitos da cidadania da pessoa portadora de deficiência.

Apesar de ter o registro como associação de utilidade pública e outras certificações, a entidade se defronta com diversas dificuldades, essencialmente no tocante à pessoa e à questão financeira. Esses últimos recursos talvez sejam insignificantes, se comparados à importância do compromisso que todo integrante do movimento tem diante da sociedade, da família e do próprio portador de deficiência.

A aproximação de seus compromissos institucionais com os princípios da atividade organizada, privada e voluntária, dá um exemplo real de força que o Terceiro Setor vem construindo. Hoje, há uma rede nacional de atendimento que abrange cerca de duas mil entidades prestadoras de serviço a quase 230 mil portadores de deficiência. A Apae integra essa atividade não-governamental com o olhar voltado para o futuro, pelo fortalecimento de sua missão institucional: defesa permanente dos direitos de seus usuários; disponibilidade de serviços de qualidade; mobilização das famílias; busca da plena inclusão social por meio da educação, do trabalho, da assistência, da saúde etc.

Atestar a relevância do papel das Apaes para a existência de espaços de atendimento, escolarização e qualificação profissional das pes-soas com deficiência permite situar o movimento como uma edificação da sociedade civil.

No entanto, anterior ao papel institucional que as Apaes e todas as escolas privadas filantrópicas especializadas têm prestado, deve-se observar que o Estado não pode deixar de promover a educação e garantir a cidadania das pessoas portadoras de deficiência no país.

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