O lixo televisivo

Por: Fernando Credidio
01 Novembro 2003 - 00h00

A programação da TV é responsabilidade da sociedade, das empresas que o patrocinam e até do Terceiro Setor

“Televisão é um invento que permite que você seja entretido na sala por pessoas que você não deixaria entrar em sua casa.” A afirmação de David Frost retrata com incrível fidelidade o que vem ocorrendo no Brasil, como a entrevista levada ao ar pelo programa Domingo Legal em 7 de setembro, comandado por Augusto Liberato. Na ocasião, falsos membros do Primeiro Comando da Capital, vulgo PCC (uma das mais cruéis facções criminosas do País), fizeram graves ameaças ao Padre Marcelo Rossi e a alguns apresentadores de TV que, a exemplo de Gugu, deixam a desejar quando os quesitos são qualidade, ética e respeito aos telespectadores dos programas que comandam.

Como era de se esperar, a imprensa promoveu um verdadeiro linchamento moral de Augusto Liberato, como se ele fosse o único culpado pelo lixo televisivo que a maior parte das emissoras de canal aberto costuma transmitir diariamente. Na realidade, Gugu pagou pelo que fez, pelo que não fez e, sobretudo, pelo que há tempos vem se fazendo na programação da TV brasileira. Foi mais uma atitude dissimulada da mídia, que sempre acobertou o referido apresentador da mesma forma como encobre costumeiramente outras personagens que usam e abusam da apelação, do sensacionalismo, da humilhação de humildes, do incentivo à violência e da difusão de desatinos semelhantes.

É fato: Gugu não é melhor nem pior que tantos outros integrantes de um sistema que exige a conquista de audiência, custe o que custar. Se analisarmos cuidadosamente, chegaremos à conclusão de que eles cumprem bem o papel de heróis das próprias emissoras, cujas principais “atrações” enfocam estupradores, traficantes, assassinos, garotas de programa e, obviamente, “bundas” e músicas de qualidade discutível. O mais grave é que todos eles, indistintamente, só estão no ar porque são sustentados por um público pouco crítico e, especialmente, porque contam com o patrocínio de anunciantes sem o menor pudor de associar suas marcas a tais “baixarias”, ainda que muitas dessas empresas se anunciem socialmente responsáveis.

Sem fazer apologia a nada que venha dos Estados Unidos, devemos reconhecer que a TV norte-americana equiparada à brasileira, na maioria dos critérios que se estabeleça, apesar de também transmitir alguns programas de baixo nível (que não são na mesma quantidade que aqui, nem exibidos nos horários considerados nobres), não é tão tolerante e permissiva quanto a nossa em relação a fatos que degradam e ferem a dignidade das pessoas. Por uma simples razão: a maior parte dos anunciantes de lá entende ser péssimo negócio associar a própria marca a programas com tal característica. Além disso, os grandes patrocinadores são pressionados por organizações não-governamentais a não despender recursos em prol de atrações que não contribuam para o desenvolvimento do potencial e intelecto humano. Como resultado dessa mobilização, as companhias direcionam a verba publicitária para programas de melhor qualidade e conteúdo.

Todos os programas televisivos, indistintamente, só estão no ar porque são sustentados por um público pouco crítico e, especialmente, porque contam com o patrocínio de anunciantes

Por que não fazer isso no Brasil? Por que nós, que militamos no Terceiro Setor, não abandonamos de vez os discursos vazios e as bravatas, tomando uma posição pró-ativa em relação aos péssimos exemplos e valores transmitidos pela TV? Seria por mera omissão ou por que alguns desses anunciantes são apoiadores e/ou patrocinadores das organizações que dirigimos? Será que os recursos que recebemos são mais relevantes que a moral e as nossas convicções? Por que algumas entidades e fundações tão representativas, que tanto apreciam os holofotes da mídia, não desencadeiam um movimento nacional com o objetivo de moralizar a programação da televisão brasileira? Por que certas personalidades e líderes do mercado socioambiental, tão cônscios de sua cidadania, se deixam borrifar pela tintura marrom que parte da imprensa? Seria apenas porque tal parcela da mídia garante a eles visibilidade permanente nos jornais, revistas, rádios e TVs, alimentando vaidades e inflando ainda mais os egos?

Por outro lado, as emissoras, como concessões públicas, deveriam ser canais, no sentido literal da palavra, de expressão social e cidadania, atuando como receptoras, promotoras e difusoras de cultura, pois exercem, como nenhum outro veículo, papel catalisador e sinérgico no processo de produção e projeção do modo de ser e de crer da sociedade. Carlos Jornet, editor do periódico argentino La Voz del Interior, define com precisão a função que a mídia deveria cumprir: ser forjadora de esperança, contar as coisas como elas são e, ao mesmo tempo, gerar espaços para as ações que propiciem a melhoria das condições humanas. Infelizmente, devemos concordar com a tese de que no Brasil não existe imprensa sensacionalista, já que, na maioria das vezes, a própria imprensa denominada séria cumpre exemplarmente esse papel.

Não há como negar a qualidade dos veículos de comunicação, principalmente em se tratando de TV, está nivelada por baixo. As atrações são quase idênticas na forma e no conteúdo, medíocre na maioria das vezes. Por isso, cabe a nós debater tal assunto com mais profundidade, uma vez que a sociedade gradativamente começa a exigir dos meios de comunicação mais que a pretensa responsabilidade social anunciada, cobrando que esses veículos sejam, sobretudo, cidadãos; que assumam compromissos com o desenvolvimento sustentável; criem pro­dutos e programas regidos por senso ético; não ludibriem leitores, ouvintes, telespectadores, internautas, e, notadamente, não ocultem o que ocorre no País, como conseqüência de interesses comerciais, políticos ou de qualquer natureza equivalente.

O que os meios de comunicação devem fazer, enfim, é fomentar cultura, gerar esperança, destacar gestos de solidariedade e propor soluções para as transformações sociais reclamadas pelo Brasil há mais de 500 anos que, por essa razão, não pode mais esperar.

A qualidade dos veículos de comunicação, principalmente em se tratando de TV, está nivelada por baixo.As atrações são quase idênticas na formae no conteúdo, medíocre na maioria das vezes

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