O Voo do Mosquito Sem Asas

Por: Fabio Maganha de Brito
09 Junho 2016 - 04h52

 

Um sincretismo psicopedagógico para a microgênese da ginga na capoeira

Como ensinar a ginga na capoeira? Foi tentando responder essa pergunta – que não é nada fácil – através da observação participante nas aulas capoeira, que eu escutei um aluno afirmando: “ô professor, o mosquito sem asas voou”. Refletindo sobre essa afirmação, intuitivamente percebi que as respostas infantis seguem uma lógica própria que difere da lógica do adulto, portanto, eu tinha que repensar as minhas estratégias para ensinar a ginga na capoeira. Durante essa busca, em meio a um sincretismo de ideias, acabei musicando a frase dita pelo aluno e comecei a cantar nas rodas de capoeira; resolvi passar a melodia da música para o berimbau. Como o berimbau não é um instrumento melódico, a letra da música transformou- -se num ritmo que eu chamei de “o voo do mosquito sem asas”.

Por fim, o “voo do mosquito sem asas” se tornou, simbolicamente, um brinquedo muito importante, uma brincadeira muito séria, que valoriza o processo da ginga na capoeira, e não apenas o produto. Depois de algum tempo aprendendo a ensinar a ginga na capoeira, posso afirmar com um ritmo (o voo do mosquito sem asas), criado excepcionalmente para isso, que só podemos ensinar a ginga se estivermos dispostos a aprender a gingar: se pararmos de aprender é sinal que não podemos mais ensinar. O capoeirista marca e é marcado pela interdependência do processo de ensino- -aprendizado da ginga na capoeira, no qual o respeito mútuo é parte integrante das regras que efetivam o jogo. Ninguém ensina ou aprende sozinho, somos marcados e marcamos o mundo da capoeira, simbolicamente representado pela roda. Segundo mestre Curió, “o capoeirista não sabe o que faz, os dois sabem, os dois são um só” (Pastinha!, 1998).

Através de situações experimentais, passei a observar o comportamento das crianças na aprendizagem da ginga. Durante a busca de um processo de educação mais natural, ocorreu um estado provisório de sincretismo, fundamental para a invenção de um ritmo no berimbau, chamado “o voo do mosquito sem asas”. Hoje, me afastando daquele momento provisório de sincretismo, posso dizer que esse ritmo vai contra os métodos dogmáticos e preestabelecidos, pois tais métodos apenas robotizam as crianças, ou seja, na verdade elas não adquirem o conhecimento da ginga, estão apenas condicionadas a reproduzir movimentos sem a apreensão do seu significado ou função. Com normas preestabelecidas, isto é, normas que desconsideram o universo da criança, o educando poderá aprender conteúdos, gravar informações, expressar fielmente o conhecimento do professor, mas, provavelmente, não sairá dessa relação como sujeito pensante.

Este trabalho, sustentado pelas ideias de Jean Piaget, Henri Wallon e Lev Vygostky3, justifica-se, desse modo, na valorização dos questionamentos, interpretações e comentários vindos das próprias crianças como base para uma prática pedagógica mais significativa. O objetivo geral é refletir sobre as vivências nas aulas de capoeira em que o aprendizado ocorre pelo autoconhecimento do corpo, deflagrado de dentro para fora, diferentemente do que é proposto pelas técnicas aplicadas através dos métodos de exposição- -reprodução. Em outras palavras, devemos possibilitar a busca do autoconhecimento por meio do corpo, não uma reprodução do modelo, mas sim um modelo a ser criado.

A criança aprende a comunicar-se antes mesmo de dominar os movimentos pelos quais a comunicação se dá. O educador precisa entender que, quando a criança chega à instituição escolar, ela já interage com os sinais utilizados no seu meio social. Portanto, apesar da educação formal da criança começar quando ela vai à escola, o processo de aprendizagem já tem início anteriormente. Por meio de métodos autoritários, as crianças podem aprender a gingar mais rapidamente, porém, esse tempo ganho será perdido em qualidade e prazer do aprender, fazendo da movimentação da ginga uma tarefa árdua e estressante. As crianças constantemente dão provas de que são criativas e imaginativas, por isso não devemos desconsiderar a bagagem cultural que elas trazem.

Com a inversão dos caminhos no início da aprendizagem da ginga, percebi que, antes de sintetizar, é necessário dominar a totalidade.

Após estabelecer a proposta de pesquisar os autores citados, relacionando-os com o ensino-aprendizado da ginga na capoeira, o primeiro procedimento para a realização desse projeto foi o levantamento bibliográfico inicial, com o objetivo de entrar em contato com a obra desses autores. Desta pesquisa, selecionei o capítulo “O papel do brinquedo no desenvolvimento” do livro A formação social da mente, de Vygotsky, que se relaciona diretamente com a ideia de aprender a ensinar a ginga na capoeira.

Num segundo momento, com a pesquisa de campo, fez-se necessária a utilização do método da observação participante. É participante porque o observador, na medida em que desempenha um papel ativo na coleta, analisa a interpretação dos dados, envolve-se com o observado, identifica-se com ele e vai além da objetividade da pesquisa empírica clássica. Antonio Carlos Gil, no livro Métodos e técnicas de pesquisa social, afirma que a observação participante é a técnica pela qual se chega ao conhecimento de um grupo a partir do interior dele mesmo (GIL, 2008).

Referências

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo:

Atlas, 2008.

PASTINHA! Uma vida pela capoeira. Filme documentário. Direção: Antonio Carlos

Muricy. Brasil: 1998.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

*Compilado da monografia apresentada na pós-graduação lato sensu em Psicopedagogia Clínica e Educacional pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), 2015. **Orientador socioeducativo no Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) De Olho no Futuro da PAULUS, em Osasco (SP).

3 Para fundamentar este trabalho, consultou-se três autores da Psicologia: Jean Piaget, Henri Wallon e Lev Vygotsky, formuladores de conceitos que ajudaram a contextualizar a interdependência do processo de ensino-aprendizado da ginga na capoeira. Piaget considera que as respostas infantis têm uma lógica própria e, portanto, não podem ser consideradas como erradas antes de serem analisadas segundo a idade da criança; Wallon valoriza o pensamento sincrético como algo que possibilita criações fundamentais e, Vygotsky, por meio do conceito de microgênese, faz com que olhemos como cada pequeno fenômeno tem sua história, e como ninguém tem uma história igual ao outro. Ele considera, a partir daí, a construção da singularidade de cada pessoa e a heterogeneidade entre os seres humanos.

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