o Teor Das Palavras

Por: Maria Iannarelli
22 Janeiro 2015 - 23h51

Terminologia adotada por atuantes do  Terceiro Setor é importante no ato do cuidar

Pensamos demasiadamente.
Sentimos muito pouco.
Necessitamos mais de humildade que de máquinas.
Mais de bondade e de ternura que de inteligência.
Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.
Charles Chaplin

Neste artigo, abordaremos nossa prática profissional no Terceiro Setor e a forma como nosso vocabulário e as palavras que escolhemos utilizar demonstram em que lugar estamos quando falamos e agimos no dia a dia.
É possível que cometamos alguns equívocos (ou não). Mas é importante não nos esquecermos de que a palavra, depois de proferida, tem vida própria e não nos pertence mais. Ela será, literalmente, a nossa porta-voz e pode ser reproduzida inúmeras vezes, alterando conceitos e ampliando discussões.
Para um empreendedor social, um ativista social ou um técnico gabaritado na arte do cuidar, muitas vezes o silêncio é mais eloquente do que mil palavras. Essas palavras que compõem o nosso repertório vêm de uma ideologia construída no arcabouço da nossa história de vida.
E o que vem a ser, de fato, ideologia? Segundo a definição da palavra, ideologia é um “conjunto de ideias conscientes e inconscientes que constituem os objetivos primordiais do indivíduo, expectativas e ações. Uma ideologia é uma visão abrangente, uma maneira de olhar as coisas como em várias tendências filosóficas, ou um conjunto de ideias propostas pela classe dominante de uma sociedade para todos os membros da mesma (o chamado produto da socialização). As ideologias são sistemas de pensamento abstratos aplicados a questões públicas, tornando esse conceito central para a análise política. Implicitamente, qualquer tendência política ou econômica implica uma ideologia, sendo ela uma proposta explícita de pensamento ou não”.
Assim, resta saber como conceituamos e pensamos sobre a família e a comunidade, a ética do cuidar, o ativismo social, a “perfeição” esperada nos usuários dos nossos serviços, as lembranças que marcam nossa história profissional, os diversos assuntos e temas em que nos debruçamos no estudo teórico-prático, as vivências que foram nos moldando e nos ensinando a jogar, a efetivação da prática profissional de acordo com a cultura organizacional em que nos inserimos e os princípios que norteiam a nossa atuação na vida.
Da ação que nos move aos conteúdos que nos modelam, identificamos o outro e por ele somos identificados naquilo em que acreditamos.
Quais verbos escolhemos para atuar?

  • Acolher ou Atender?
  • Acompanhar ou Encaminhar?
  • Capacitar ou Formar?
  • Significar ou Ressignificar?
  • De que conteúdos somos feitos?
  • Assistência Social ou Assistencialismo?
  • Empoderamento ou Dependência?
  • Emancipação ou Manipulação?
  • No que acreditamos?
  • Espiritualidade ou em uma religião específica?
  • Resiliência ou falta dela?
  • Humanização do Cuidado ou Ditadura do Cuidado?

Como trabalhadores de organizações sem fins lucrativos, ou de áreas cujo braço principal envolve responsabilidade social, não estamos fora do barco alheio. Compreendendo a espiritualidade como a forma mais profunda de entendimento transcendental de cada ser humano, qualquer que seja o seu conteúdo e forma (e mesmo a ausência deles), passamos a agir de forma mais solidária para com o próximo e aceitar as diferenças nos tornam mais eficazes na realização dos nossos objetivos. Até porque essa perspectiva nos coloca em uma posição mais horizontal em relação ao que é o ideal para o outro: ele, em primeira instância, sabe o que é melhor para si próprio.

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