O Protagonismo Juvenil Na Contrução De Cultura De Paz

Por: Eleni Raquel da Silva Tsuruzono
03 Fevereiro 2016 - 17h59

28A busca pela paz congrega pessoas que se dispõem a contribuir para a viabilização de um sonho, que passa a ser de todos. Nesta perspectiva, o desenvolvimento de atividades que possibilitem um diálogo reflexivo sobre suas atitudes e as expressões do seu meio social, resignificando o seu papel na sociedade, é de fundamental importância. Diante disso, foi desenvolvido o projeto-piloto “Construindo uma cultura de paz com o Protagonismo Juvenil”, através da parceria entre o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Leste e a Escola de Ensino Fundamental Municipal José Protázio Soares de Souza. Os recursos foram captados via Fundo da Criança e do Adolescente. Outras entidades se uniram para compor o projeto: Secretaria de Educação, Conselho da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelar, Pastoral, Guarda Municipal e TV Caxias.

A intencionalidade maior do projeto foi “desenvolver metodologias participativas com adolescentes para a construção de uma Cultura de Paz na região leste de Caxias do Sul (RS)”. Para a concretização deste projeto foram delineados os seguintes objetivos específicos: estimular ações proativas que permitam a reflexão e a análise sobre atitudes positivas; ressignificar o sentido de suas vidas, desenvolvendo senso crítico, construtivo e socioafetivo, na compreensão da sociedade atual, dos novos arranjos familiares e das mutações do adolescer; desenvolver oficinas de teatro, música, produção de vídeo, acampamento sociopedagógico, integração cultural, entre outros; incentivar a permanência e o avanço na escola; acompanhamento individual e sociofamiliar referenciado no CRAS, promovendo uma aproximação por meio de um diálogo de confiança entre comunidade escolar, orientadores sociais e família; promover o acesso aos serviços disponibilizados na rede na perspectiva de atender o adolescente nos aspe

ctos biopsicossocial; fomentar parcerias intersetoriais e intrainstitucionais.

Procurou-se desenvolver as ações propostas e, ainda, conhecer o cotidiano dos adolescentes, o meio em que vivem, bem como suas famílias. Conhecer a história de vida dos adolescentes é fundamental para compreender os movimentos que se estabelecem no cotidiano, seu comportamento, modo de vida, formas de resistência, não deixando de estabelecer a relação com as questões culturais, crenças, valores, atitudes e hábitos. Trata-se da soma de esforços para compreender e atender o adolescente e seu núcleo familiar nas suas múltiplas necessidades. Requer, fundamentalmente, construir uma responsabilidade compartilhada, evitando a “penalização” destes, na busca do fortalecimento dos laços familiares e comunitários.

Durante o desenvolvimento das ações, o pilar que as embasou está fundamentado na cultura da paz, pois a paz em ação é a coerência do discurso com as atitudes na busca de uma sociedade justa e igualitária. Enquanto isso, a cultura da vida trata-se de tornar diferentes indivíduos capazes de viver juntos, de criarem um novo sentido de compartilhar, de zelar pela vida no planeta e de assumir responsabilidades por sua participação numa sociedade democrática que luta contra a pobreza e exclusão, garantindo igualdade política, equidade social, diversidade cultural e desenvolvimento sustentável. Desta forma, as oficinas foram conduzidas em um esquema metodológico ação-reflexão-ação. Para a execução das ações foram utilizados pressupostos básicos de intervenção com os diferentes públicos.

No que tange o trabalho com o adolescente, o processo baseou-se na participação deste como protagonista e sujeito, desenvolvendo sua capacidade para assumir direitos e responsabilidades (decidir) como membro consciente de um grupo, de uma comunidade. Somente participando, envolvendo-se, investigando, fazendo perguntas e buscando respostas, problematizando e problematizando-se é que se chega realmente ao conhecimento. Deu-se ênfase ao diálogo, à interação, à reflexão, problematizando dados, informações (conteúdos), respondendo as necessidades e inquietudes por parte do grupo.

O papel da família é fundamental para colher os resultados no trabalho com adolescentes. Desta forma, estimulou-se a construção de um ambiente familiar saudável, acolhedor, solidário, possibilitando aos familiares o entendimento das diversas problemáticas que afligem o jovem (sexualidade, crises, perdas e lutos, drogadição, consumismo exarcebado, movimentos que se identificam, entre outros) e na busca e construção da adultez (rituais de passagem).

Em relação à interação do jovem na sociedade, o movimento de cultura de paz deve ser construindo coletivamente, pois “ninguém se educa sozinho, não se faz revolução sozinho, mas sim através da experiência compartilhada, da inter-relação com os demais”, o que exalta os valores solidários e a capacidade criativa de todo indivíduo.

Na realidade, o principal objetivo é fazer pensar sobre todos os determinantes que geram a violência. Mas este pensar (transformador) deve levar pessoas e grupos a agirem, a transformarem uma realidade, a construírem um município saudável, com maior qualidade de vida e de inclusão social.

Com esse entendimento foram desenvolvidas oficinas no intuito de concretizar os objetivos propostos. Durante as atividades procurou-se valorizar a vida em todas as suas expressões; preservação e cuidados com a própria vida e com a do outro; preservação e cuidados com o meio ambiente; luta pela qualidade de vida apesar do contexto adverso (e, muitas vezes, excludente); importância do pertencimento como condição para inserção social; possibilidade de ser/estar acolhido; compartilhamento de valores; ser aceito e ter referências construtivas de reinserção na escola e na sociedade; articulação entre a dimensão individual e social do sujeito; contextualização das práticas sociais e individuais; questionamento da perspectiva individualista de realização pessoal.

Para implementar o “pensar pedagógico” foram adotadas algumas estratégias metodológicas: reunião em rede; conhecimento do público-alvo; planejamento das ações com jovens, comunidade escolar e CRAS Leste; readequação do projeto a partir dos anseios dos jovens; contratação dos oficineiros; reuniões sistemática com oficineiros e profissionais envolvidos no projeto e; acompanhamento dos jovens e suas famílias.

No intuito de trabalhar a importância da coletividade e o respeito pelo colega, os adolescentes foram a um camping no interior da cidade. Na oportunidade foram realizadas atividades como: trabalho em equipe, jogos cooperativos, diálogos reflexivos, bem como divisão de tarefas.

Dentre os objetivos propostos está o atendimento sociofamiliar. Esta ação teve como objetivo compreender os adolescentes nas suas particularidades. Buscou-se conhecer seu modo e condição de vida. Para isso, aconteceram visitas domiciliares, bem como entrevistas com os familiares. Após o contato com sua realidade estabeleceu-se um vínculo e, assim, após o diagnóstico inicial, efetivamos algumas ações, como: inclusão de adolescentes em cursos profissionalizantes, profissionalização de chefes de família e inclusão no mercado formal de trabalho e atividades de forma associativista para ampliar o rendimento mensal.

Os resultados deste projeto foram disseminados por meio dos meios de comunicação, jornais e TV local, através de relatórios ao Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e entidades parceiras.

Assim, as famílias não devem ser penalizadas, mas sim olhadas diante de uma totalidade, entendendo, e, ao mesmo tempo, respeitando sua cultura, religião, sentimentos, formas de sobrevivência e, muitas vezes, de resistência à mudança.

Outro ganho na execução deste projeto foi a constituição do trabalho em rede, a intersetorialidade e a interdisciplinaridade no olhar para esses adolescentes e suas famílias. A reflexão sobre os multifacéticos ângulos do processo de adolescer, o papel do adolescente, da família, da escola e das políticas públicas no processo de inclusão e reinserção social desses jovens desbravadores de sonhos tem sido um aprendizado constante para os oficineiros, técnicos e professores.

Referências

AMARO, Sarita. Visita Domiciliar: Guia para uma Abordagem Complexa. Porto Alegre: AEG, 2003.
FALEIROS, V. P. Inclusão social e cidadania. Brasília, 17 de jul. de 2006. Palestra proferida na 32ND Internacional Conference on Social Welfare ICSW32.
GUIMARÃES, Marcelo R. Aprender a educar para a paz. Porto Alegre. Educapaz, 2003.
JUNIOR, Norton Cezar Dall Follo da Rosa. Adolescência e violência: direção do tratamento psicanalítico com adolescentes em conflito com a lei. Dissertação de Mestrado apresentado a Universidade Federal do RGS. Porto Alegre, 2006.

 

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