O protagonismo da terceira idade

Por: Silvana Queiroz do Nascimento, Bárbara Cristina Melo, Luciana Torres de Aguiar Pereira, Edson de Souza Lima
23 Outubro 2018 - 00h00

De acordo com as orientações nacionais sobre o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), ele deve ser complementar ao Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família / Serviço de Proteção e Atendimento Especializado à Família e Indivíduo (PAIF/PAEFI). As atividades são escolhidas e planejadas mediante necessidade do público e do contexto social, político e cultural que vivenciam.  Para as pessoas idosas, partindo de seu reconhecimento enquanto público de uma sociedade na categoria de Terceira Idade e de seu caminhar com ou sem violências, desenvolve-se um protagonismo desde sua alimentação até o fortalecimento de vínculos na família e comunidade, com exercícios esportivos por um bem viver.

Além disso, é na lógica de prevenção das violações de direitos e de atendimento ao público com direitos violados, dentro dos perfis prioritários, que o SCFV se debruça e fomenta espaços e momentos de interação, norteado por eixos de “conteúdos” sociopedagógicos para estimular mais práticas saudáveis.

Em uma primeira experiência de convivência social com idosos, foi realizada a palestra “Alimentação Saudável na Terceira idade”, com informações sobre mudanças na alimentação e a fomentação da importância da prática de exercícios físicos para melhorar a qualidade de vida e tratar as patologias da idade. Em seguida, na roda de diálogos, foram apresentados os alimentos que mais prejudicam e que acarretam doenças características da Terceira Idade, como diabetes, colesterol alto, triglicerídeo alto e hipertensão. Também foram esclarecidas as dúvidas sobre quais práticas auxiliam na qualidade de vida, com uma rica discussão sobre autoestima e envelhecimento ativo.

A temática “Terceira Idade na Atualidade” também foi apresentada, enfatizando que os idosos não estão mortos socialmente e podem contribuir em várias atividades de forma individual ou coletiva, ou ainda buscar ações que proporcionem prazer na cidadania ativa. Em seguida, houve uma roda de diálogos com frases estigmatizadas e abusivas sobre o papel dos idosos, como “no fim da vida”, “que não servem para nada”, “que só esperam a morte”, muitas usadas pelos próprios familiares. Após esse momento foi-se edificando o quanto a sociedade subestima o papel da Terceira Idade, assim como a necessidade de oportunizá-los nesse novo protagonismo.

Também houve uma roda de diálogos e oficina com a temática “Igualdade de Direitos das Mulheres”, em que foram trabalhadas a sensibilização e a construção de seu empoderamento, desde sua identidade até sua atuação nos âmbitos privado e público. Além disso, fez-se uma reflexão sobre a historicidade da mulher e a “cultura do plano B” convencionada na sociedade. Antes de ser idosa, é ser mulher. Tratar desse tema é fazer uma retrospectiva sobre a própria história, por isso a escolha da música de acolhimento “Logo de Manhã Bom dia”, de Zizi Possi, a fim de proporcionar um clima de abertura e conexão ao momento. Em seguida, várias frases sobre o que a sociedade machista espera de uma mulher submissa foram expostas para leitura. Por meio dessa escuta foi possível fazer a linha do tempo de vida das mulheres e alimentar um processo reflexivo sobre sua trajetória.

A partir desse percurso intencional observou-se uma categoria em construção entre as pessoas participantes, pouco a pouco, envolvendo sua reorganização pessoal, social e política, sobretudo nessa transição de etapas de vida para aposentados. Também a observância de particularidades, em suas respectivas comunidades, posicionamentos, vivências, potencialidades, das relações interpessoais e como é sua forma de ver o mundo, de reagir e de expressar sentimentos - porque não é e nunca foi fácil se reconhecer enquanto idosos que lutam por expectativa e perspectiva de vida.A avaliação das atividades aconteceu de maneira sistematizada com o objetivo de registrar e apreciar os resultados obtidos em relação às metas socioeducativas estabelecidas previamente na participação. Levando em conta que o ser profissional da educação social significará participar da emancipação das pessoas, sabendo que o objetivo é ajudar a torná-las mais livres e menos dependentes do poder econômico, político e social. 

O método utilizado foi a avaliação participativa, em que os sujeitos colocaram suas impressões sobre os trabalhos propostos na perspectiva de aferir se as estratégias atenderam as expectativas dos usuários e se esses processos trouxeram ganhos efetivos do ponto de vista sociopedagógico. Segundo Paulo Freire, existe frequentemente a “negação do direito de ‘ser mais’ inscrito na natureza dos seres humanos”, por isso subscreve-se a avaliação participativa para positivar o idosos.

Diante desse objetivo formativo, ocorre uma transformação social em cada um, ao saírem de cada convivência mais leves e se comprometendo a cuidar de sua alimentação alinhada a exercícios físicos. A autoestima elevada também contribui para que eles não mais se enxerguem como seres submissos ou inferiores, e sim como autores de suas próprias vidas.

Concluímos que a relação entre a Educação, os Direitos Humanos e a Assistência Social fortalece o SCFV para que a construção das atividades seja embasada nas políticas e em formação que tragam conhecimento atualizado de temáticas relevantes para o grupo de idosos. Compreendemos que o percurso torna as experiências significativas e o trabalho no SCFV norteia a construção de atividades focadas nos sujeitos e na perspectiva de fortalecimento dos vínculos sociais e familiares.

Assim, enfatizamos a importância de trabalharmos numa política pública de assistência social que seja conectada em rede, destacando a realidade vivida no território pelo grupo de idosos, com respeito às histórias pessoais e coletivas da comunidade. Essa finalidade pode subsidiar outros saberes e fazeres na gestão pública para desenvolver com mais qualidade o SCFV e garantir espaços de diálogos, construções e resistências.

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