No caminho da profissionalização

Por: Luciano Guimarães
01 Novembro 2007 - 00h00
O acelerado crescimento do Terceiro Setor no Brasil, registrado nos últimos anos, vem transformando o modelo de gestão das organizações não-governamentais. Gradualmente, modifica-se a estrutura administrativa, ao se contratarem profissionais full-time, que tragam na “bagagem” extensa formação gerencial e experiência no Segundo Setor para cargos de chefia, como gerente, diretor e até mesmo presidente.

Os antigos presidentes ou fundadores, entretanto, continuam atuando, mas em um cargo estratégico, de contato com os stakeholders, ou participando mais ativamente de conselhos administrativos, nos quais seus membros são voluntários. Diferentemente do que se possa pensar, têm muito trabalho pela frente, sendo decisivos nas diversas tomadas de decisões. Esse movimento já acontece há algum tempo na iniciativa privada. Empresas familiares dirigidas pelo fundador ou por uma das gerações subseqüentes percebem que a profissionalização é, muitas vezes, a saída para o desenvolvimento da corporação.

Cada mudança traz um tipo de situação – as traumáticas e as não-traumáticas –, valendo para todos os setores, inclusive no poder público. A primeira se verifica quando há um choque de culturas entre os novos profissionais e aqueles que já atuam na entidade social, o que pode trazer problemas para o seguimento das atividades. A segunda ocorre quando todos os entes envolvidos no processo conseguem absorver os impactos da nova direção e se unem em prol do mesmo objetivo.

Aspectos positivos

Se por um lado há dúvidas se a profissionalização da gestão das ONGs subverteria o verdadeiro conceito por trás das entidades sociais, tornando-as capitalistas ao ponto de esquecer seus ideais de origem; por outro, o Terceiro Setor está disposto a dar mais transparência à sua administração.
Os gestores apontam ao menos quatro aspectos positivos para a profissionalização das ONGs:

• mais organização e transparência, que significam a obtenção de maior volume de recursos financeiros e a otimização das atividades;

• mais dedicação dos colaboradores, que são contratados para dispensar dedicação exclusiva às atividades.

• ao contrário dos voluntários, podem ser cobrados pelos resultados conseguidos; e

• prevenção a problemas judiciais com ex-voluntários, que podem procurar indenizações trabalhistas. Por sinal, esse é um dos grandes pesadelos das ONGs.

“A entidade que hoje quer atender bem ao seu público precisa ter uma gestão profissional”, argumenta Marcelo Gallo, coordenador de captação de recursos da Gota de Leite, entidade santista que atende 465 crianças em educação infantil e creche. “A Gota de Leite vem se profissionalizando desde o ano 2000, saindo dessa realidade assistencialista. Nosso próximo passo é estruturar os departamentos de marketing e jornalismo, para uma maior divulgação.”

A Gota de Leite conta com 16 professores e 16 estagiários remunerados. Nos cargos administrativos também possui profissionais em nível de coordenadoria contratados via CLT, para as áreas de pedagogia, captação de recursos, administrativo-financeiro e manutenção. “Ao todo, temos 75 funcionários remunerados e de 200 a 300 voluntários, dependendo do evento promovido”, ressalta Gallo.

Caminho certo

O mesmo movimento vem acontecendo na Children’s Aid, entidade inglesa que mantém escritório no Rio de Janeiro e parceria com diversas entidades, como a Onda Solidária. “Teremos nossa sede física até o final deste ano, e estamos contratando um gestor e um coordenador de projetos”, explica Ricardo Calçado, diretor-presidente das duas organizações sociais, que atendem 300 crianças e adolescentes no Brasil e mais de 2.000 no mundo, para a geração de oportunidades no esporte e na educação.

A contratação de profissionais para a gestão administrativa é uma das prioridades da entidade no Brasil. Os voluntários ficarão com a função de participar de conselhos internos, para a tomada de decisões. “A mão-de-obra full-time é necessária para o desenvolvimento do Terceiro Setor, mas não se pode perder o foco, a essência do social, do comprometimento. A estrutura solidária deve ser mantida, pois é assim que tudo funciona”, frisa Calçado.

Na organização Aldeias Infantis SOS Brasil, presente em 11 estados e no Distrito Federal, e parceira da Children’s Aid, a contratação de pessoal para cargos de alta gerência é uma realidade. Segundo a gestora nacional da ONG, Sandra Greco, a entidade tem hoje 545 pessoas contratadas via CLT. Os voluntários são membros da sociedade civil e apóiam a gestão por meio de reuniões de avaliações.

“A contratação de pessoal cria uma relação mais profissional do trabalho. Não é raro que voluntários, após se desligarem da entidade, movam ações querendo que o vínculo empregatício seja analisado pela Justiça”, explica Sandra, lembrando que a folha de pagamento da ONG, que atende a 7,2 mil crianças, representa apenas 4% da receita anual.

A Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais (Avape) é uma entidade que dá prioridade para a mão-de-obra contratada. São 2.500 pessoas sob CLT e 300 voluntários. “Uma organização sem fins lucrativos também não pode ter prejuízos e precisa de recursos para ampliar suas ações e garantir sua missão”, argumenta Eliana Victor, diretora da Divisão de Reabilitação e Inclusão da Avape.

A entidade atua nos segmentos da saúde, educação, trabalho, cultura e esportes, bem como na geração de trabalho e renda para pessoas com deficiência e em vulnerabilidade social. Para tanto, ressalta, “precisa ser atualizada, ter profissionais competentes e qualificados, ter metas, avaliar seus resultados, investir adequadamente seus recursos e, como qualquer empresa, praticar conceitos do PDCA, ser transparente e estar alinhada com seus stakeholders”.

De modo geral, as organizações do Terceiro Setor vêm copiando os modelos de gestão empresarial, conhecidos pela eficiência, tanto no trato com o dinheiro quanto com o público-alvo. Parece ser o caminho certo, uma vez que a entrada de verbas públicas e da iniciativa privada nos cofres das entidades depende do bom senso no gerenciamento e, acima de tudo, do profissionalismo de seus gestores.
Links
www.aldeiasinfantis.org.br
www.avape.com.br
www.childrensaid.org.uk
www.gotasdeleite.com.br
www.ondasolidaria.org

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