Multiplicando O Suas

Por: Nádia Lebedev
07 Julho 2015 - 14h30

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Onde Está A Novidade?

Esquecemo-nos com frequência de revisitar a história  cultural humana. Usamos expressões como “novas  mídias” ou “novas tecnologias”, e acreditamos piamente  que estas possibilitaram uma “democratização  do acesso”, exclusiva dos dias de hoje, a qual depende apenas de  computadores, tablets e smartphones – cada vez mais baratos – e  uma conexão que amplia o domínio de seu território progressivamente  e de forma eficaz.   

Antes de tomarmos isso como verdade, vale perguntar: se hoje  temos novas tecnologias, quais são as velhas? A novidade está  nos aparelhos? No uso? Se realmente há uma democratização de  acesso, de que acesso estamos falando? Em qual momento saímos  do antigo não democrático e entramos no novo, com acesso livre?  Além disso, temos acesso a que mesmo? Claro que estas são somente  provocações, mas, honestamente, quando o tempo parou para que  pudéssemos definir que hoje estamos em uma nova era midiática?   

Tomemos o YouTube como exemplo. Ele aparenta ser uma  ferramenta recente, porém, não saberíamos nos portar diante  dele se a televisão não tivesse aparecido antes, nos acostumando  com a ideia das imagens técnicas dentro de nossas casas e escolhidas  por nós. É óbvio que o YouTube possibilita uma quantidade  maior de conteúdos e uma resposta mais imediata por  parte do usuário, mas não podemos nos esquecer que ‘zapear’ e  ‘medição de audiência’ também são indicativos da preferência  do telespectador. A televisão não surgiria se o cinema não nos  tivesse possibilitado experimentar a imagem em movimento.  O cinema, por sua vez, não apareceria se a fotografia não tivesse  sido desenvolvida. 

Pensando na nossa história cultural, as bases para o surgimento  da fotografia datam do final do século XIV. Foi o homem renascentista  que, com sua pintura em perspectiva, passou a representar  fielmente cenas do humano e da natureza. Até então, pintávamos  majoritariamente figuras sagradas e sobre humanas. Se os  nossos ancestrais não tivessem feito aquele primeiro esforço de  registro nas paredes das cavernas, não teríamos desenvolvido essa  vontade de expressar a nós mesmos, nosso cotidiano, nossa subjetividade  e nossas crenças, temas frequentes nos nossos desenhos e  pinturas, bem como nos vídeos que hoje postamos. Então, qual  de fato é a velha mídia? Até hoje pichamos e grafitamos nossos  muros, e, claro, fotografamos e filmamos os mesmos. As práticas  se complementam, mas nunca desaparecem, e todas são midiáticas.  Mídia é uma palavra de difícil definição, mas a raiz de seu  significado passa pela ideia de ‘estar entre’, a mídia será aquilo  que está entre nós. O telefone é o que se põe entre você e pessoa  para quem você ligou, um livro é o que está entre mim e a história  contada, a televisão está entre a empresa de comunicação,  composta por um grupo de pessoas, e toda a população que assiste  aquele determinado canal. 

Entramos, então, em outro ponto fundamental: o uso.  Falamos sempre em democratização do acesso, entretanto, talvez  fosse mais interessante pensar em democratização da produção.  A tal interação midiática só pode acontecer se houver  resposta do receptor. De fato, esse sujeito hoje tem uma gama  muito maior de ambientes para se manifestar, entretanto, a prática  não tem nada de novidade. Explicando melhor: pensando  no acesso, basta lembrar que um celular desligado é simplesmente  isso, um aparelho que não funciona. O mesmo vale para  um computador, para a televisão, para uma hidroelétrica ou até  mesmo um livro. Livros fechados, que não são lidos, é conhecimento  que não é aprendido. Dependem por completo de um  ser humano, tanto para seu funcionamento e uso quanto para  sua manutenção, atualização. 

Pensando em termos de produção, a comunicação racional  é uma das grandes marcas da espécie humana, que transforma  a natureza e imprimi carga simbólica em tudo que faz. Vejam,  é claro que os animais se comunicam, mas esta é uma comunicação  instintiva. O homem, desde os primórdios, transforma a  natureza em técnica e amplia seu domínio – territorial, cultural  e simbólico. Um gorila pode atacar outro que o ameaça usando  uma pedra; já os primeiros seres humanos se defendiam projetando  possíveis ataques. Com um pedaço de pau e uma pedra talhada  o homem pré-histórico fazia uma lança, e com esta caminhava  para se proteger caso um predador ou inimigo cruzasse seu caminho.  O gorila não é capaz de fazer previsões e usar a natureza a  seu favor; só o homem é. Essas projeções manifestadas através da  manipulação da natureza foram fundamentais para a formação  de consciência da espécie. 

Precisamos modificar a natureza para criar nossos aparatos técnicos,  seja no caso de uma lança ou pigmentos para desenhar nas  paredes das cavernas, seja para construir um prédio ou desenvolver  uma câmera fotográfica. Não estou equiparando uma lança a uma  câmera, mas fundamentalmente o processo de produção parte do  mesmo lugar: exploração de recursos naturais para ampliarmos a  nossa sobrevivência e presença. 

Agora, pensemos sobre o caráter simbólico de nossas criações.  Uma fotografia é o registro do olhar do fotógrafo, que parte das  mais variadas razões para criá-la: uma lembrança do aniversário  de um ano do filho, um registro de uma cena de guerra, uma  selfie. Todos têm em comum a escolha do momento da foto, do  enquadramento, há valor simbólico. Assim como os primeiros  desenhos pré-históricos, que são cenas inspiradas no ambiente e  nas vontades do homem primordial, carregadas de simbolismo. 

Quando falamos em evolução não se trata de melhora ou  piora; trata-se de aumento de complexidade. Uma fotografia  é mais complexa – do ponto de vista da produção, em termos  simbólicos não há como medir – que uma pintura na  caverna de Lascaux na França. Mas a primeira não surgiria se  o esforço de criação da segunda não tivesse ocorrido. Logo, o  decorrer do tempo é fundamental para compreendermos nossa  história. Não é interessante parti-lo e acreditar que práticas  ficaram para trás, ultrapassadas, e que agora estamos em um  novo processo. Se fizermos isso, ignoramos nossa história cultural  e perdemos uma parte fundamental para que possamos  entender um pouco melhor nossa existência, sem encantamentos  cegos, típicos dos que acham que os aparelhos tecnológicos  vão salvar o mundo, esquecendo-se de que quem os usa  são seres humanos. Também não podemos nos fechar numa  redoma crítica e não participar do aumento da complexidade  da espécie humana. Como afirma o Prof. Dr. Norval Baitello,  a cultura é cumulativa. Esta é uma boa ideia para ser incorporada  socialmente e individualmente.

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