Gerd Leipold

Por: Thaís Iannarelli
01 Julho 2009 - 00h00

Gerd Leipold, nascido em uma pequena cidade da Alemanha em 1951, formou-se em Física pela Universidade de Munique. Depois, continuou os estudos em Hamburgo, onde se dedicou à oceanografia e à meteorologia.

De 1981 a 1990, Gerd atuou como diretor no Greenpeace da Alemanha. À época, a organização local passou de um pequeno grupo de voluntários à maior organização de meio ambiente do país – com mais de 80 funcionários, 400 mil colaboradores e uma renda anual de € 25 milhões. Em 1987, ele também assumiu a coordenação da campanha de desarmamento do Greenpeace Internacional, que lutava contra o teste de armas nucleares.

Entre 1993 e 2001, Gerd Leipold se afastou da organização para se tornar diretor de uma empresa inglesa de consultoria e apoio a organizações sociais, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Oxfam, Action Aid, entre outras.

Em 2001, voltou ao Greenpeace Internacional e, até hoje, atua como ativista e diretor executivo da instituição. Em entrevista exclusiva à Revista Filantropia, Gerd fala sobre ações da organização, os problemas do meio ambiente e a posição do Brasil em relação a esse cenário.

Revista Filantropia: Como e quando você começou a atuar na área do meio ambiente?

Gerd Leipold: Considero-me um tipo de membro “atrasado” do movimento estudantil de 1968, na Alemanha. Isso porque sempre fui interessado em política e no ativismo, mas nunca gostei muito das políticas estudantis. Eu fazia parte de um movimento antinuclear nos anos 1970 e, quando o Greenpeace começou a atuar na Europa nessa época, também era cientista. Eu achava que não era tão bom o fato de que todos os cientistas trabalhassem para o governo, e foi aí que decidi ajudar o Greenpeace como voluntário. Isso aconteceu em 1980. A partir de 1983, comecei a trabalhar efetivamente na organização.

RF: Como você descreveria o trabalho do Greenpeace em relação à atuação de outras organizações ligadas ao meio ambiente?

GL: Temos muitas coisas em comum, mas com algumas diferenças. Uma delas é que somos uma organização realmente global, estamos em todas as partes. Também agimos de acordo com um programa, temos políticas em comum. Uma das maiores diferenças, sob o meu ponto de vista, é que não aceitamos dinheiro de governos ou do setor privado. Isso significa que podemos desafiá-los e não precisamos fazer favores para eles. Podemos confrontar, mas também, quando cooperamos, o fazemos pelo interesse do meio ambiente, e não porque esperamos doações de uma empresa, por exemplo. Além disso, todos no mundo conhecem o trabalho do Greenpeace, e isso, para nós, é algo muito especial.

RF: Atualmente, as pessoas estão mais cientes dos problemas do planeta do que, por exemplo, há dez anos. Você acha que essa conscientização está mudando o comportamento da sociedade?

GL: Sim, concordo plenamente com isso. Atualmente, muitas pessoas que nunca pensaram nos perigos que as florestas corriam, hoje, quando compram móveis ou madeira, perguntam se os produtos são sustentáveis; ou, ao comprar aparelhos eletrônicos, questionam sobre o gasto de energia. Então, acredito que existe uma mudança no comportamento consumista. Claro que não com todos, mas com muitas pessoas que não haviam pensado nisso antes. Agora, o que temos de nos perguntar é se essa mudança de comportamento é suficientemente forte para lidar com os problemas que estamos enfrentando.

RF: Em relação ao Brasil, fala-se muito sobre os biocombustíveis derivados de plantas e sementes. Qual é a sua opinião sobre essa fonte alternativa de energia?

GL: Inicialmente, é importante dizer que a energia renovável é aquela que vem de fontes que “se repõem”. Este é o princípio, que depende também de como o processo é feito. Por isso, considero o termo biocombustível errado – o correto seria “agrocombustível”, para melhor subsidiar o setor da agricultura e seu desenvolvimento. Mas, em relação ao seu uso, a primeira coisa que os biocombustíveis devem fazer é reduzir a emissão de CO2. Porém, se você tomar como exemplo a União Europeia, essa fonte de energia não cumpre esse papel. Também não concordamos com a monocultura, porque esse tipo de produção é insustentável, da mesma forma que discordamos da transformação de alimento em combustível. Porém, de todos os produtores de biocombustíveis do mundo, acredito que o Brasil esteja entre os melhores.

RF: Quais são as ações que o Greenpeace tem empreendido atualmente?

GL: A prioridade é a alteração climática, e estamos muito mobilizados para a conferência que acontecerá em Copenhagen, na Dinamarca, no fim do ano. Lá, nossa meta é conseguir que os países ricos se comprometam a reduzir as emissões de CO2, fato que nos ajudará a manter a mudança climática em menos de 2°C. Também tentaremos incentivar os países desenvolvidos a disponibilizar fundos para que os países mais carentes possam reduzir suas emissões e lidar com a adaptação às mudanças climáticas. Além disso, estimularemos os países em desenvolvimento a continuarem seguindo em frente. Outro fato que prezamos muito atualmente é a proteção às florestas.

RF: Você acha que, no ponto em que estamos, é possível resolver os grandes problemas ambientais da Terra?

GL: Certamente espero que sim, e trabalho para isso! Acho que o fato de as pessoas terem mais informação agora do que no passado ajuda muito, e essa preocupação com o meio ambiente está em todos os lugares do mundo. Então, temos visto melhorias, já resolvemos algumas coisas. Por exemplo, o problema da camada de ozônio está sendo discutido pela comunidade internacional. Identificamos os problemas, conduzimos o protocolo e tentamos resolvê-los. Se você analisar a poluição dos rios, principalmente em áreas industrializadas, a situação melhorou muito. Temos bons exemplos, mas também sabemos que estamos nos distanciando da solução para alguns dos maiores problemas ambientais, como as mudanças climáticas, a questão da água e a pesca predatória nos oceano; tais problemas se tornam cada vez maiores. Por isso, acho que, como ativistas do Greenpeace, devemos ser otimistas, porque a melhor energia é o entusiasmo humano para resolver problemas. Dessa forma, não basta que os jovens tenham acesso a informações; é mais importante que encontrem alguma causa para se engajarem.

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