Mão amiga

Por: Roberto Ravagnani
01 Janeiro 2004 - 00h00
A população de todo o mundo está envelhecendo, mas em que condições estão aqueles que atingiram tal estágio da vida? Uma análise breve evidencia que não é fácil envelhecer em pleno século 21, especialmente nos países mais pobres. Se antes havia o temor de instabilidade causada por jovens desempregados, suscetíveis a serem recrutados para atividades criminosas, a existência de um grande grupo de idosos desperta outras preocupações. O aumento do número dessa parcela da sociedade acarreta uma série de impactos: aumentam as pressões sobre os sistemas de atendimento médico, sobre planos de saúde e seguro social, bem como sobre os fundos de pensão particulares.

Estudo mundial da ONU

Incluir no debate social a questão da crescente população de idosos é ponto importante para o bem-estar das comunidades. O estudo Envelhecimento Populacional, publicado pela ONU, ainda reforça tal necessidade. Segundo esse mapa, nas nações mais pobres, os indivíduos com mais de 60 anos já representam um quinto da população. As previsões indicam que a proporção chegará a um terço até 2050. O grupo etário que mais aumenta no mundo é o de pessoas acima de 80 anos. O crescimento é de 3,8% ao ano. Ou seja, serão bilhões de seres humanos na fase da velhice – certamente dezenas de milhões deles em território brasileiro. E por tocar no assunto, como está a situação do idoso no nosso país, afinal? Ainda: como estará no futuro próximo?

A situação brasileira

Recentemente, o Brasil deu um passo necessário e importante: aprovou o Estatuto do Idoso, trazendo nova leitura aos direitos dessa parcela da população. Para se ter uma idéia, as estimativas indicam que, a partir do ano de 2020, o país terá a sexta maior população idosa do mundo, o que corresponderá a 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos. É claro que um conjunto de leis é uma evolução, mas não é um fim em si mesmo. Basta lembrar que a Constituição, vigente desde 1988, garante, entre outros benefícios, saúde e educação gratuitas e de qualidade. Sendo assim, precisa-se extrapolar as bem redigidas folhas do papel, que notoriamente tudo aceita, e colocar em prática a teoria. Um caminho a seguir é a viabilização de parcerias intersetoriais, contemplando governo, empresariado e a sociedade civil organizada, o proclamado Terceiro Setor.

Uma organização com 90 anos

A história comprova que a comunidade sírio-libanesa é parte da construção do Brasil, especialmente na região da grande São Paulo. Tal participação vai muito além do empreendedorismo voltado ao comércio, a exemplo da Sociedade Beneficente “A Mão Branca” de Amparo aos Idosos – organização sem fins lucrativos criada por integrantes dessa comunidade, cuja missão é atender idosos de ambos os sexos em regime de internato e semi-internato, sem fazer distinção de classe, religião ou raça, e sem levar em consideração condições financeiras ou estado de dependência.

Fundada em 1912 no bairro Chácara Santo Antonio, zona sul de São Paulo, a entidade tem uma trajetória de dedicação e carinho a uma turma que conta com idade mínima de 65 anos. “Atualmente atendemos 150 pessoas que têm, em média, de 80 a 85 anos. Há, inclusive, residentes com mais de um século de história para contar”, esclarece Elizabeth Camasmie Zogbi, presidente da entidade.

Na “Mão Branca”, como é chamada, as prioridades são a animação e o bem-estar dos idosos. O convívio social e os cuidados com a saúde também recebem atenção especial. A parceria com a Escola Paulista de Medicina garante a constante atualização da medicina geriátrica, da enfermagem padrão, nutrição e da terapia ocupacional da organização.

A sociedade beneficente conta com um privilegiado espaço físico de 4 mil metros quadrados de área construída e 5 mil de alamedas e jardins. É um espaço amplo para o preenchimento do tempo daqueles com muita energia ainda para gastar. “A estrutura interna oferece aposentos, salão de festas, salas de refeições, fisioterapia, computação, lazer, música, biblioteca e capela. Já a área externa apresenta espaços para piquenique e recreação, jardins, praças e uma igreja”, relata Elizabeth.

Equipe de funcionários e voluntários

A instituição mantém uma equipe de 104 funcionários responsáveis pelos serviços de administração, enfermagem, medicina, nutrição e terapia ocupacional. Além do regime de internato, outra idéia ganhou espaço dentro de seus domínios: um conceito de hospedagem em regime de semi-internato, com o objetivo de atender às famílias que não têm com quem deixar seus parentes durante o dia. Pode-se dizer que se trata de uma versão para idosos das creches infantis, muito alinhada à idéia de que os mais velhos, afinal, são apenas crianças há mais tempo. O novo serviço oferecido à comunidade está em fase de lançamento, sendo que uma senhora já freqüenta a organização diariamente.

“Nossa meta agora é a construção da nova ‘Mão Branca’, um centro geriátrico no km 26 da Rodovia Raposo Tavares, em Cotia. O projeto vai aliar recursos de saúde e lazer em um ambiente extremamente natural”, diz a presidente. E os projetos não param por aí. A instituição se prepara para abrir as portas aos moradores do bairro de mesma faixa etária. Monitorados por alguns dos 70 voluntários da entidade, eles terão acesso às oportunidades de lazer que são oferecidas aos internos.

O programa de voluntariado respeita algumas fases: há inicialmente uma entrevista, seguida de um curso preparatório para a especificação do trabalho com idosos e a apresentação do regulamento da casa. Duas vezes por semestre acontecem reuniões com os voluntários para capacitar, renovar atividades e integrar a equipe. Além disso, há um livro de presença para acompanhamento da assiduidade e compromisso dos participantes, uma caixa de sugestões e uma coordenação de voluntariado trabalhando diretamente com a presidência. Elizabeth complementa: “Formamos uma rede de voluntários que se responsabiliza pelas atividades de recreação e estimulação dos idosos. Por isso, investimos na seleção e capacitação daqueles que estão conosco”.

Recursos necessários para manter os trabalhos

Não é preciso explicar que a estrutura apresentada requer auxílio financeiro para se sustentar. Assim, a organização faz coro com aqueles integrantes do Terceiro Setor, que buscam sua manutenção na diversificação das fontes de capital. A explicação é a segurança que o trabalho ganha quando fica livre da dependência de uma única parceira.

“A participação da comunidade é intensa na arrecadação de recursos, trazendo contribuições mensais de empresas, sócios e familiares dos hóspedes, e organizando bazares e festas beneficentes”, conta Elizabeth. Além disso, a “Mão Branca” capta recursos com o aluguel de imóveis próprios (a maioria doada à organização), aplicações financeiras, aluguel de espaço para a colocação de outdoors e doações pela internet. A fim de deixar clara a aplicação do capital arrecadado, um balanço anual é publicado em jornal de grande circulação.

Como dizia o saudoso Betinho, qual a força de uma iniciativa multiplicada por milhões? A Sociedade Beneficente “A Mão Branca” de Amparo aos Idosos trabalha pela dignidade de centenas de senhores e senhoras. São exemplos como esse que indicam o caminho a trilhar no equacionamento da questão do envelhecimento populacional: colocar, em primeiro plano, o respeito à pessoa e às peculiaridades de uma fase tão bela e delicada da vida.

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