Mais Valiosos Que Dinheiro

Por: Luciano Guimarães
15 Setembro 2016 - 03h36

Organizações sociais investem e incentivam seus profissionais e voluntários a buscar constante conhecimento, provando que crescimento e realização pessoais não têm preço no Terceiro Setor

Jean-Luc Picard (Patrick Stewart): — A economia do futuro é um pouco diferente. O dinheiro não existe no século XXIV.
Lily Sloane (Alfre Woodard): — Nenhum dinheiro!? Isso significa que você não recebe pagamento?
Jean-Luc Picard (Patrick Stewart): — A aquisição de riqueza já não é a força motriz de nossas vidas. Trabalhamos para melhorar a nós mesmos e o resto da humanidade.

Travado no filme Jornada nas estrelas: primeiro contato, exibido nos cinemas em 1996, o diálogo entre o capitão da nave estelar Enterprise e sua mais nova aliada ilustra, especialmente na última fala, o desejo da maioria das pessoas que atua no Terceiro Setor, independentemente se elas trabalham em troca de um pagamento mensal ou se prestam serviços voluntariamente. No fundo, todos desejam se tornar pessoas melhores.

Enquanto o mundo ainda estiver baseado na riqueza do dinheiro, portanto longe do que nos apresenta a indústria cinematográfica, os profissionais que fazem parte de alguma organização sem fins lucrativos continuarão buscando o crescimento pessoal e o desenvolvimento de habilidades por meio da constante participação em processos de educação continuada.

Cada entidade construiu, com o passar do tempo, sua própria política de difusão de conhecimento, seja simplesmente estimulando os colaboradores a frequentar cursos e eventos, seja contribuindo financeiramente — em alguns casos — para facilitar a formação técnica requerida segundo a função de cada indivíduo na instituição.

"O impacto é importantíssimo e positivo. Embora seja um investimento de longo prazo, a capacitação dos profissionais do Terceiro Setor faz toda a diferença na eficiência dos trabalhos realizados pelas instituições", afirma Thaís Iannarelli, diretora executiva do Instituto Filantropia e editora da Revista Filantropia.

Apesar de ter sido divulgada praticamente há um ano, uma pesquisa promovida pelo IF com 223 participantes, direcionada para identificar a importância da capacitação técnica de equipes multidisciplinares, revelou que apenas 7,6% dos participantes informaram não ter realizado investimentos em capacitação nem pretender fazê-lo.

De acordo com o levantamento divulgado na edição 74 da Revista Filantropia, ao contrário dessa minoria, 17% indicaram ter planos de investir em capacitação nos próximos três anos, enquanto 66,4% disseram já investir. "Após o investimento em capacitação, 52,9% das organizações não governamentais (ONGs) consideraram que os resultados, em termos de captação de recursos e de parceiros, melhoraram um pouco, enquanto outros 10,8% ponderaram que evoluíram muito. Ou seja, mais da metade dos respondentes vislumbrou na capacitação uma ferramenta de melhoria na área de captação de recursos", argumenta Thaís.

Embora o IF promova, em média,180 treinamentos por ano (imersões, oficinas, cursos de oito horas, palestras e debates), tenha quatro mil afiliados e conte com mais de 100 palestrantes, a "menina dos olhos" da entidade é o Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE), que neste ano recebeu 581 participantes de todo o Brasil, os quais atualizaram conhecimentos sobre o Terceiro Setor. Em 2017, o evento será realizado de 4 a 7 de abril, em Foz do Iguaçu (PR).

"Desde o início da nossa atuação, muitas coisas mudaram no Terceiro Setor como um todo, inclusive a forma de pensar dos gestores. A visão estratégica e sistêmica, hoje, é muito mais presente na gestão das instituições, assim como a importância dada ao planejamento e à sustentabilidade das ações", avalia a gestora.

Segundo ela, também se perdeu um pouco — embora ainda não totalmente — daquele mito de que as instituições não podem ter superávit no fechamento de suas contas, afinal ele é necessário para que a instituição possa reinvesti-lo em sua causa. "Outra questão polêmica e que tem relação direta com a capacitação é a da remuneração de dirigentes, e treinamentos sobre esse tema têm sido cada vez mais procurados", salienta.

Para a diretora da GFAI Coaching, Rebeca Toyama, um dos grandes desafios da educação continuada no Terceiro Setor é conseguir se comunicar de forma efetiva com o segmento. "Porém isso costuma acontecer, também, em outros setores. Todavia, uma vez que essa primeira barreira seja superada, a educação continuada torna-se peça- -chave para o desenvolvimento de todos os envolvidos", argumenta.

A especialista acredita que, hoje, a maior habilidade não está relacionada a saber, mas à capacidade de aprender, ligada à habilidade de ler cenários e entender suas demandas e prioridades. "Cada vez fica mais fácil mensurar os benefícios intangíveis por meio dos resultados tangíveis, especialmente visto que resolução de problemas, aprimoramento de trabalho em equipe, comunicação e liderança são as competências mais procuradas em processos seletivos", destaca.

Da mesma maneira, a educação continuada viabiliza essa atualização dos profissionais em novos processos de gestão, em tendências e ferramentas de atração e retenção de colaboradores, atualização de conhecimentos técnicos, conceitos e atuação na liderança.

"Os profissionais de quaisquer níveis podem se beneficiar não só da aquisição de novos conhecimentos, mas da oportunidade que as ações de treinamento e capacitação geram de repensar formas correntes de atuação, ter novos insights sobre conhecimentos já consolidados, além de novos pontos de vista adquiridos por meio de discussões em grupo, seja em salas de aula presenciais, seja em situações colaborativas a distância", afirma a especialista em Recursos Humanos, Alessandra Zeppelini.

A especialista acrescenta que ferramentas como o coaching, que se destina a apoiar o desenvolvimento da carreira do profissional, colaboram para um desenvolvimento profissional muito consistente, desde que bem conduzido por profissional formado e certificado em boas instituições. É fundamentalmente um processo de facilitação conduzido pelo coach para que o próprio indivíduo (coachee) descubra suas habilidades e pontos fortes.

"É por meio desse reforço das habilidades que os coachees conseguem traçar planos para lidar com suas fraquezas. O coaching bem conduzido leva o indivíduo a estabelecer seus próprios planos de ação, os quais devem ser concretos, bem delimitados e factíveis, para que possam trabalhar nas dificuldades do indivíduo", ressalta Alessandra.

Tão fundamental quanto participar desse processo, é identificar os temas adequados, os que de fato agregarão valores ao profissional, à sua organização e à sociedade. "Quanto mais alinhado o conteúdo aos desafios, maior será o impacto", concorda Rebeca.

Progresso

A evolução do profissionalismo atingido pelo Terceiro Setor brasileiro, sobretudo na última década, é marcante, na opinião da diretora executiva da Fundação Bunge Claudia Buzzette Calais. "Fundações, ONGs e institutos sempre foram muito cobrados por transparência em seus processos, tanto da sociedade quanto das empresas mantenedoras ou financiadoras de projetos", comenta.

No caso da entidade que dirige, especificamente, essa profissionalização se reflete muito na estrutura de treinamentos e capacitações. Lá, os gestores passam todos os anos por formação em gestão de processos e pessoas para garantir a melhoria contínua dos projetos e a otimização dos recursos materiais e humanos.

Esse esforço levou a atividades envolvendo os 500 voluntários da fundação e os colaboradores da Bunge Brasil, em 2015, a participar de 185 formações e 182 ações de voluntariado, o que correspondeu a 8.233 horas voluntárias. "Esses trabalhos conjuntos entre voluntariado e capacitações geram um grande sentimento de pertencimento ao projeto, resultando em um amplo engajamento, que nos garante uma participação de quase 100% desses voluntários nos projetos da organização social", ressalta Claudia.

A executiva reitera que a ação voluntária contribui também para o desenvolvimento de habilidades profissionais importantes como comunicação, negociação, multifuncionalidade, melhor gestão de tempo e trabalho em equipe, habilidades que todo voluntário precisa ter. "E isso acaba migrando também para o ambiente de trabalho", complementa.

Renovação

Atualmente, passando por um profundo processo de renovação de suas políticas internas, a fim de adaptá-las à gestão por competências — tendência evidente no Terceiro Setor e também na iniciativa privada —, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) está criando um sistema de gestão que organiza e dá coerência, de modo global, aos processos de recursos humanos.

"Identificamos as competências organizacionais com base no mapa estratégico do Gife, e as competências que cada um deve ter para que realize suas atividades de maneira mais incisiva, contribuindo mais com os objetivos da organização. Com isso, conseguimos identificar quais são as lacunas que devem ser trabalhadas individualmente com treinamento e desenvolvimento", argumenta a gerente administrativo-financeira da entidade, Marisa Ohashi.

Se por um lado a organização investe em treinamentos que são de fato necessários e relevantes, por outro, opina a gestora, a equipe passa a ter mais clareza sobre o que é esperado dela e o que é preciso desenvolver em relação às competências para a execução de suas atividades. "E sabe ainda que isso será incentivado pela organização", reitera.

Para Marisa, o atual panorama do Terceiro Setor nacional corrobora a busca por benefícios intangíveis como desenvolvimento pessoal, propósito, conexões, identidade de valores, entre outros, bastante valorizados em uma equipe fortemente engajada, como é o caso de muitas organizações da sociedade civil (OSCs).

"Nesse sentido, a capacitação profissional tem papel importante tanto para o funcionário que busca seu desenvolvimento como também para a organização, que busca continuamente manter uma equipe mais qualificada e motivada", complementa a executiva do Gife.

Conexão

Considerado um exemplo de gestão, o Instituto Ayrton Senna alinhou suas políticas de recursos humanos não somente aos valores da entidade, mas também às estratégias das soluções educacionais levadas para a linha de frente, isto é, para as escolas, onde o fio condutor é o desenvolvimento integral do indivíduo por meio do incremento das habilidades cognitivas e socioemocionais de cada um.

A missão é preparar o aluno para ser bem-sucedido na escola e na vida, sabendo reconhecer e acreditando nas suas potencialidades e aproveitando as oportunidades. "Com essa prática interna, oferecemos para os 140 profissionais do instituto – todos eles contratados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) – oportunidades para desenvolver habilidades e competências socioemocionais, ampliar conhecimentos e vivenciar experiências desafiadoras, sempre com o apoio de consultorias e metodologias modernas", explica a gerente executiva de recursos humanos Silvia Espesani.

A busca pelos benefícios intangíveis aparece também na forma como os colaboradores do Instituto Ayrton Senna, presidido por Viviane Senna, relacionam-se com a própria organização social.

"Estão no nosso DNA o respeito mútuo, as relações de colaboração e a capacidade de trabalhar em time, o que torna o ambiente de trabalho muito diferenciado. Aqui as pessoas trabalham com paixão e é onde elas encontram um sentido maior, porque estão totalmente conectadas a uma causa e contribuindo para a transformação da vida de milhões de crianças e jovens. Isso não tem preço", comemora.

Migração

A educação, inicial ou contínua, é condição essencial para a melhoria dos resultados no Terceiro Setor. É imprescindível que as organizações sociais ofereçam aos seus públicos interno e externo oportunidades de qualificação de seus talentos. O motivo é bastante claro: os desafios sociais estão em constante movimento, em mutação, assim como o perfil do público atendido.

A opinião é do diretor fundador da ONG Canto Cidadão, Felipe Mello. "A dinâmica social ganha contornos novos a todo instante. Assim, há uma demanda por soluções inovadoras, que tenham a capacidade de compreender as novas nuanças, propondo ações capazes de amenizar ou solucionar questões do dia de hoje."

De acordo com o gestor, há também uma série de outras questões que acompanham esse movimento, especialmente a incorporação de técnicas e talentos mais profissionais na gestão social. "Novamente, também por isso, não há como escapar da educação continuada, caso se queira manter e ampliar os programas existentes", reforça.

A busca por benefícios intangíveis no Terceiro Setor também tem sua parcela de contribuição na cultura trazida pelos profissionais que todos os anos — e há muito tempo — vêm migrando da iniciativa privada e realocando-se em cargos e funções com características bem similares àquelas dos empregos que exerciam anteriormente.

"De fato, isso também seguirá determinando quais são as atividades que perdurarão. Sem profissionais cada vez mais qualificados, dificilmente uma organização seguirá cativando investidores, voluntários e aprovação coletiva. Hoje em dia, inclusive e felizmente, a vigilância sobre o bom uso de recursos – seja na esfera governamental, seja no Terceiro Setor – exige uma gestão excepcional e transparente", pondera Mello.

Em termos instrumentais, avalia o gestor, os avanços são nítidos. "Com mais acesso a dados e informações, os erros passaram a ser dragões menos assustadores, mas ainda devemos muito a nós mesmos em se tratando de evitar erros recorrentes de relacionamento. Estou falando, acima de tudo, de uma visão mais sistêmica e menos dirigida exclusivamente à causa direta da organização e ética. Os desafios cotidianos muitas vezes impedem o investimento de tempo em parcerias, trabalhos conjuntos, interferência nas políticas públicas", argumenta.

O diretor da ONG assinala que os bons treinamentos serão um importante fiel da balança no Terceiro Setor. "Digo os bons, porque há muitas ofertas de baixo nível". Segundo ele, no Canto Cidadão, que possui equipe remunerada direta e indireta — que varia de acordo com os projetos em curso — de aproximadamente 25 pessoas e mais de 300 voluntários —, os colaboradores são instigados a passar por treinamentos capazes de estimular o pensamento inovador.

"Nossas soluções sociais precisam de mentes e olhares atentos, dispostos e repletos de repertórios capazes de desafiar a estrutura estabelecida. E os nossos treinamentos também proporcionam um olhar muito especial aos nossos voluntários, uma vez que eles aceitam o desafio de caminhar conosco na realização de atividades sociais desafiadoras", frisa o dirigente.

Multiculturalismo

Presente em 21 países da América Latina e do Caribe – 14 fisicamente e 7 por meio de parcerias e redes –, a Fundación Avina atua na geração de mudanças em grande escala para o desenvolvimento sustentável por meio da construção de processos de colaboração entre atores de diferentes setores.

Com 85 colaboradores que exprimem o multiculturalismo do continente, a organização atua em uma realidade muito particular, sem concentração de equipes e trabalhando por programas. "Acredito que uma organização deve gerar oportunidades para estimular a aprendizagem de seus colaboradores", enfatiza a diretora de desenvolvimento humano da entidade, Márcia Pregnolatto.

Esse pensamento é demonstrado por meio da adoção de um modelo de designação de tempo para que os colaboradores possam se programar para novas oportunidades de aprendizagem. Anualmente, a Avina direciona US$ 200 por profissionais, para que cada um deles possa participar de treinamentos externos.

"Além disso, usamos recursos de webinars para conectar os profissionais que ficam nos países onde atuamos. Criamos a plataforma LabCIS, um ambiente digital de aprendizagem para os colaboradores da Avina e que futuramente atenderá os empreendedores por meio do conceito de e-learning", comenta a gestora.

De fato, salienta a executiva, o dinheiro não é encarado como o único objetivo para aqueles que desejam crescer pessoal e profissionalmente, de maneira especial no Terceiro Setor. "Além de constantemente ajudar quem necessita, é evidente a busca por uma evolução que os tornem seres humanos melhores", conclui Márcia.

Links: academiacoachingintegrativo.com | www.avina.net/avina/pt | www.cantocidadao.org.br | www.fundacaobunge.org.br | www.gife.org.br | www.institutoayrtonsenna.org.br |
www.institutofilantropia.org.br

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