Livros iluminando a viagem

Por: Roberto Ravagnani
01 Novembro 2003 - 00h00

Conheça o trabalho da Expedição Vaga Lume, organização social que busca contribuir para o desenvolvimento de comunidades rurais da Amazônia por meio da democratização do acesso ao livro

O vaga-lume é um animal interessante. Durante o processo evolutivo, na luta pela sobrevivência, uma característica foi desenvolvida para compensar certa defi­ciência. A fêmea não pode voar, somente se arrastar pelo chão. Já o macho tem asas e conseqüentemente voa. Como a equação da reprodução seria possível dessa maneira? A partir daí surge o diferencial: compensando a falta de asas, a fêmea desenvolveu uma substância que, em determinadas condições, torna-se luminescente. Ou seja, a luz verde é o sinal para que o macho interrompa seu balé aéreo e venha se juntar a ela. Com essa irradiação luminosa, a espécie garante a própria continuidade. Assim também é a Expedição Vaga Lume, que faz jus ao nome e leva, desde 2002, luz para comunidades rurais da Amazônia Legal. A luz que o projeto irradia é a cultura por meio do hábito da leitura, uma vez que 32 bibliotecas infantis já foram implantadas em escolas de comunidades rurais, além da capacitação de 550 professores e voluntários como mediadores de leitura.

Nem mesmo a distância da família e as condições precárias de alguns locais interromperam a aventura solidária
O primeiro vôo

A expedição se iniciou, tendo como protagonistas um pequeno grupo de amigas: a historiadora paulista Sylvia Guimarães, 26 anos, e a administradora goiana Laís Fleury, 29 anos, que se conheceram no carnaval de Olinda em 1999 e descobriram um interesse em comum – criar um projeto para os habitantes da Amazônia. Naquele instante, Sylvia julgou pertinente apresentar Laís à amiga relações públicas Maria Teresa Meinberg, a Fofa, 26 anos. Esse encontro resultou na transformação do desejo coletivo em uma causa. Segundo Laís, “cada uma tinha dentro de si o desejo de viajar pela Amazônia, conhecer os habitantes de lá e desenvolver um trabalho que contribuísse para o desenvolvimento das comunidades rurais”. Ainda complementa: “A Expedição Vaga Lume é a mistura de um pouco de cada uma de nós. As idéias surgiram e as viabilizamos com o apoio de várias pessoas, que compraram a causa. Cada um ajudou de sua forma”. Assim, o programa começou a vingar. Durante o ano de 2000, as três empreendedoras estudaram formas de captar o recurso necessário para iniciar o projeto: quase R$ 400 mil. Parecia, e realmente era, muito dinheiro. No entanto, o empecilho não foi suficiente para desmotivar o grupo que tinha como missão apresentar o prazer da leitura a crianças carentes, montando bibliotecas e promovendo o abastecimento das mesmas. Num ato de coragem, elas abandonaram os empregos e contaram com o apoio das famílias até que o programa tivesse algum retorno. Em 8 de março de 2002, a Expedição Vaga Lume decolou: passando por Mato Grosso, Tocantins, Amazonas, Acre e Pará, as aventureiras foram apresentadas a um Brasil ainda desconhecido para a maioria dos próprios brasileiros. Nem mesmo a distância da família e as condições precárias de alguns locais interromperam a aventura solidária. “O projeto era maior que tudo”, garante Sylvia. A volta, em 20 de dezembro, trouxe na bagagem a absoluta certeza de que esses nove primeiros meses tinham sido apenas a largada de uma longa jornada.

A engrenagem da iniciativa

Aceitar o desafio de reduzir o abismo cultural existente entre a população amazônica e outras regiões do País envolveu muitas variáveis. A viabilização das primeiras bibliotecas se deu com capital oriundo dos incentivos proporcionados pela Lei Rouanet. O orçamento de R$ 390 mil foi patrocinado pela Fináustria Financiamentos, que participou com R$ 320 mil, e pela Amazônia Celular, contribuinte de R$ 70 mil. Compraram-se os 10 mil livros iniciais e a empreitada começou. Cada biblioteca era constituída por caixas móveis, que continham 300 diferentes livros infantis e infanto-juvenis. As caixas foram feitas para serem facilmente transportadas, aproximando-se ainda mais das crianças.

O primeiro passo foi entrar em contato com as secretarias municipais de Educação e acertar as parcerias que tornariam real a iniciativa. Assim concretizou-se a criação das 32 bibliotecas em 22 municípios da região, atingindo 17 mil alunos.

Entretanto, além de entregar os livros, tornava-se fundamental criar multiplicadores que trabalhassem no dia-a-dia a importância da leitura. Era muito grande o risco de simplesmente deixar as bibliotecas, sem que existisse o envolvimento do corpo docente. Exatamente por esse motivo, 550 professores foram treinados como mediadores de leitura. A professora Maria Lucinéia de Oliveira ressalta a importância do curso dado por Laís, Sylvia e Maria Teresa: “Eu não sabia como contar uma história. Aprendi que é preciso dar liberdade aos alunos e trabalhar com espontaneidade”.

A entrega dos livros, aliada ao treinamento dos professores e à mobilização da comunidade, foi a receita para transmitir às crianças o encantamento da leitura

A pertinência da iniciativa

Além do apelo extremamente interes­sante – a democratização do acesso ao livro para desenvolver o hábito da leitura –, o projeto ganha em pertinência em função do público-alvo escolhido: povoamentos isolados da Amazônia, onde raramente existem bi­bliotecas em escolas públicas. A entrega dos livros foi a receita para transmitir às crianças o encantamento da leitura. Segundo José Edson Freitas, professor da comunidade indígena de Areial, as histórias estão sendo utilizadas em sala de aula. “Não havia livros aqui. Agora as crianças estão aprendendo a ir até a biblioteca e escolher qual história querem ouvir”, conta ele. Para Edneusa Carneiro Brazão, diretora da escola da tribo de índios tucanos e tarianas na Ilha de Camanaus, próximo a São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, os livros estão ajudando os alunos a melhor aprender o português, já que muitos se comunicam em casa nas línguas de origem. E acrescenta: “Só tínhamos livros didáticos; as histórias infantis são usadas para estimular a imaginação e desenvolver o raciocínio das crianças”.

Outra prova da importância da obra foi o reconhecimento público na Bienal do Livro Infantil/Juvenil, realizada em 2002 em São Paulo, quando a Expedição Vaga Lume foi homenageada com o Prêmio Difusor do Livro.

Confira os frutos do projeto

Exemplo de resultado e continuidade
Laís relata uma das experiências: “Em 2002, implantamos uma biblioteca em Castanhal no Pará, em um assentamento do MST. Tínhamos deixado 300 livros com eles. Voltamos lá em setembro de 2003 para ver como estava a biblioteca e eles haviam feito um programa de arrecadação, conseguindo mais 700 obras. Reformaram um galpão velho e montaram a biblioteca lá. Nesse período, já houve mais de 1.050 retiradas de livros pelas crianças. Os professores se organizaram e destinaram parte do próprio salário a uma pessoa encarregada de cuidar dos livros. Isso prova que nosso trabalho se multiplicou”.
Ainda em 2003, o grupo deve voltar à Amazônia com alguns objetivos: promover e incrementar ainda mais a iniciativa, levá-la para outras comunidades e exibir o documentário montado com imagens da primeira viagem. Para alimentar as novas bibliotecas, campanhas de arrecadação de livros estão sendo feitas.
A Expedição Vaga Lume não pretende encerrar tão cedo seu vôo. Uma viagem incrível pela terra das possibilidades. Afinal, qual o resultado prático do acesso à leitura? A resposta a tal questão determina o rumo dessa espetacular jornada, que acredita no poder da leitura como agente transformador de indivíduos em cidadãos conscientes. Essa é a motivação do projeto. É o que renova a esperança em todos nós.

Os Números da Vaga Lume

- 32 bibliotecas montadas

- 22 municípios atendidos

- 17 mil alunos beneficiados

- 550 professores treinados como mediadores de leitura

- 390 mil reais de custo inicial

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