Jorge Duarte

Por: Elaine Iorio
01 Dezembro 2005 - 00h00

Jorge Duarte, 46 anos, nasceu no Uruguai e lá viveu toda a infância na companhia da família. Chegou ao Brasil somente em 1974, então com 14, quando o pai recebeu uma proposta para trabalhar no país vizinho. Na época, o Estado uruguaio passava por turbulento processo político, uma vez que havia sofrido um golpe militar no ano anterior que perdurou até 1985.

Em terras tupiniquins, longe dos conflitos violentos que afligiam seu país, ele concluiu os estudos e decidiu, entre tantas opções, que cursaria Psicologia, pois queria entender a complexidade do ser humano. Trabalhou na área durante anos, especializou-se em recursos humanos até que, em 1995, participou de um longo processo seletivo, com duração de mais de dois meses, e ingressou no Senac São Paulo.

Até dezembro de 1996, foi coordenador da área de cosmetologia, que desenvolve e oferta cursos para farmacêuticos, químicos e outros profissionais. Em janeiro do ano seguinte, assumiu o cargo de coordenador de projetos sociais da instituição, sendo este o primeiro passo de sua trajetória profissional na área social.

Com o intuito de se aprimorar profissionalmente, fez diversos cursos relacionados ao tema, com destaque para a especialização em Desenvolvimento Local pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o MBA em Gestão e Empreendedorismo Social pela FIA-USP.

Finalmente, em 2002, assumiu a Gerência de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do Senac, hoje denominada Gerência de Desenvolvimento Social, na qual participa diretamente dos principais projetos promovidos pela instituição, que tem como foco o desenvolvimento profissional e o protagonismo social.

Em entrevista à Revista Filantropia, Jorge Duarte faz um panorama sobre a atuação do Senac São Paulo, destacando principalmente as realizações na área de educação profissional e capacitação de agentes comunitários.

Revista Filantropia: Qual a sua relação pessoal com o Terceiro Setor?

Jorde Duarte: Em 1970, aos 10 anos de idade, formei um grupo na escola com a orientação de um professor e éramos voluntários para arrumar as carteiras, fazer manutenção em portas e cuidar do jardim. Nessa época [ainda no Uruguai], também participei de campanhas para arrecadação de alimentos, cobertores e dinheiro, que eram doados a institutos sociais. Fui representante de classe por muitos anos até que fui presidente de diretório acadêmico na universidade.

Em 2000, junto com outros colegas, criamos a associação dos funcionários do Senac, que volto a presidir após cinco anos. Participei como conselheiro de algumas organizações, mas tenho orgulho de participar atualmente e ativamente do conselho de uma escola pública de São Bernardo do Campo, onde moro. Além disso, trabalho com comunidades e como colaborador do Senac desde janeiro de 1997. Portanto, participei de toda a construção da proposta do Senac para o Terceiro Setor.


Filantropia: Em quais projetos o senhor fez parte ou esteve à frente?

JD: Em 1997, coordenei os programas de geração de renda do Centro de Educação Comunitária para o Trabalho, destinados às comunidades economicamente desfavorecidas. Nesta relação, passamos a entender que para promover o desenvolvimento comunitário não bastava apenas a realização de cursos. Havia a necessidade de profissionalização para melhor gerir as organizações e os projetos. Por volta de 1998, quando se começava a falar sobre o crescimento do Terceiro Setor, implementamos as primeiras turmas do Programa Educação para o Trabalho. Surgia também o Fórum Permanente do Terceiro Setor, um espaço para o debate dos graves problemas sociais.

Passamos a ofertar uma programação centrada em ferramentas de gestão para organizações sociais. Em 2003, ocorreu o lançamento do Programa Formatos Brasil – capacitação de lideranças – com foco em planejamento, elaboração de projetos, captação de recursos, avaliação e comunicação da causa social. E, em conseqüência das necessidades de capacitação continuada, surgiu a organização do trabalho em rede, como forma de articular recursos locais e capacidade coletiva capaz de dar sustentação a esse propósito e aos projetos desenvolvidos pelas organizações nas suas comunidades.

Ao projeto Rede Social é que direcionei toda a minha energia, ou seja, na organização de pessoas e organizações, que de forma igualitária e democrática implementam novos compromissos e melhoram a vida das comunidades. Considero que a rede é a única forma capaz de dar sustentação a projetos de desenvolvimento local.


Filantropia: Fale sobre projetos e atividades desenvolvidos em conjunto com a administração nacional.

JD: Ao longo dos 60 anos de história do Senac, surgiram atividades e projetos pontuais geralmente demandados pelo governo federal como, por exemplo, o projeto Soldado Cidadão, que é a capacitação profissional de jovens egressos do serviços militar. Em 2003, tivemos apoio institucional do departamento nacional para o Programa Formatos Brasil, uma capacitação em ferramentas de gestão para líderes de organizações de base comunitária que se realizou em 13 estados da federação, mas também não avançou para um projeto mais denso, coletivo e nacional. A ação dos departamentos regionais, que se organizam por estado, é autônoma. Além disso, a diversidade entre os estados é muito grande, dificultando uma ação mais unificada. Mas é preciso fazê-lo.

O Senac é uma organização muito grande e muito importante para o desenvolvimento social deste país. Temos de encontrar formas para que o trabalho social seja mais articulado, inclusive com as demais organizações do sistema S [Sesc, Sesi, Senai e Senac, entre outras]. Há um grupo de sonhadores, no qual eu me incluo, que está desenhando o Projeto S Brasil para o Desenvolvimento Local.

A partir da capacitação de lideranças, a proposta é criar redes sociais que possam fomentar os processos de desenvolvimento local, ao menos em cada localidade onde o Sistema S atua. Provavelmente sejam mais de mil equipamentos pelo Brasil afora e se capacitarmos uma média de 30 líderes por instituição teremos mais de 30 mil lideranças trabalhando em rede e com metodologias para promover o desenvolvimento. Isto poderia virar um exemplo para todo os país.

Enquanto o desenho do sonho Brasil se constrói no papel, o estado de São Paulo avança com uma proposta que já favoreceu mais de 1,5 mil lideranças e tem articulado uma rede de mais de seiscentas organizações divididas em 27 núcleos espalhados pelo estado e que se preparam para trabalhar com metodologias de desenvolvimento local.


Filantropia: Quais os principais projetos da instituição em educação e profissionalização?

JD: Não deveríamos separar estas duas palavras, pois o Senac é uma instituição de educação profissional. Mas a distinção ajuda a fazer a análise. Comecemos pelos cursos técnicos mais importantes e que têm inserido milhares de pessoas no mercado de trabalho. São eles: enfermagem, segurança do trabalho, design de interiores e informática. Do ponto de vista educacional, destaco três projetos signifi cativos nestes últimos dez anos.

O Programa Educação para o Trabalho – realizado em parceria com empresas e subsidiado para jovens de baixa renda –, que conta com uma metodologia inovadora e já incluiu mais de 12 mil jovens no mercado de trabalho; o Programa Formatos, com metodologia diferenciada que favorece a aprendizagem entre os próprios participantes; e, atualmente, o grande projeto educacional do Senac é o Centro Universitário, que oferta uma programação de graduação e pós-graduação diferenciada, visando a empregabilidade e o empreendedorismo dos seus alunos.


Filantropia: Qual a importância do Senac e de outras instituições de ensino na profissionalização do Terceiro Setor?

JD: O Senac tem o papel de profissionalizar pessoas, independente do setor ao qual elas pertençam. Com o recurso público que recebe, além do capital advindo da venda de serviços educacionais, investe em organizações de base comunitária. Por isso, parte significativa de sua programação na área social é subsidiada pelo próprio Senac.

A partir de 1995, deixamos de ter uma unidade como centro. Agora, temos a área de Desenvolvimento Social, da qual sou o gestor, e que tem como uma de suas atribuições articular os diversos setores de conhecimento do Senac e fazer com que parte disto seja compartilhado com líderes de organizações de base comunitária que têm pouco acesso à informação.

Não conheço outras instituições educacionais que trabalhem com o mesmo modelo. Apenas ofertam programação para organizações do Terceiro Setor porque há mercado, mas não existe necessariamente uma ação de responsabilidade social específica.


Filantropia: Como o Senac São Paulo prepara seus cursos para o Terceiro Setor?

JD: Principalmente ouvindo seu público e entendendo as suas necessidades. Este processo de gestão não era muito claro anos atrás, mas aprendemos. Hoje, realizamos levantamentos sistematizados a fim de identificar o que é preciso desenvolver. Também não atendemos somente à média, que não é a excelência, mas buscamos estar antenados com o mundo da gestão, por meio da internacionalização nas parcerias.

A Johns Hopkings University é um dos importantes parceiros na formação de lideranças. Entretanto, muitos acreditavam que o Senac seguiria as metodologias e os pressupostos básicos dessa importante organização. Não é bem assim. Eles defendem o Terceiro Setor como setor da economia, que deve ter força política baseada em sua própria economia para que os projetos busquem a eficácia e a sustentabilidade. Nós concordamos com a força política do setor, mas consideramos que isto se situa na ação coletiva das organizações e nos resultados da melhoria da qualidade de vida e do convívio das comunidades. Continuamos parceiros, apreendendo mutuamente, mas cada um com as suas concepções.

Com a Creçacor, organização européia que trabalha com economia solidária, realizamos ações que influenciam nossa programação. Eles, por exemplo, não falam muito em Terceiro Setor e nem querem reconhecê-lo como setor da economia. São realidades diferentes. O estado de bem-estar na Europa é, de forma geral, garantido para grande parte da população. Então, as organizações se dividem entre as de defesa de direitos e de grupos minoritários. As demais são organizações que buscam gerar riqueza, caso haja benefício social do ponto de vista de inclusão de pessoas com deficiência ou outros determinados em lei, então se tornam empresas sociais com respectivas isenções fiscais etc.

O nosso modelo não tem de ser nem americano nem europeu, deve ser latino-americano e ponto. E para isso, temos de buscar mais aproximação com os países latinos, participar definitivamente desse bloco.


Filantropia: Quais os objetivos atuais da instituição?

JD: O objetivo do Senac é ser referência nacional na contribuição para o desenvolvimento sustentável. Haverá um forte investimento em graduação nos próximos anos, pois entendemos a importância dessa modalidade como algo que dará visibilidade a toda a programação de vanguarda que hoje o Senac oferta ao mercado. Também queremos encontrar o equilíbrio entre a auto-sustentabilidade da operação – para que o recurso público que recebemos seja 100% investido em novas tecnologias, internacionalização etc. – e o investimento no desenvolvimento social.

Na área social os objetivos são relevantes e, até 2010, estaremos trabalhando diretamente em processos de desenvolvimento local nas mais de 50 comunidades em que o Senac atua no Estado de São Paulo. Serão centenas de projetos desenvolvidos junto à comunidade, em rede, com foco na sustentabilidade, na preservação do meio ambiente, e que atendam efetivamente as pessoas. Eu diria que o principal objetivo do Senac é promover e desenvolver gente.


Filantropia: Como o Senac contribui com o desenvolvimento social do país, bem como na própria gestão do Terceiro Setor?

JD: Em minha opinião, o Senac está entre as grandes corporações educacionais do mundo. Entendo que toda a sua atuação educacional, na formação profissional de milhares de pessoas, com produtos e metodologias de qualidade, contribui com o desenvolvimento. Mas vamos além, compartilhamos esse desenvolvimento tecnológico e suas metodologias com setores menos favorecidos da sociedade focando o investimento nas organizações da sociedade civil. Preocupa-nos a sustentabilidade e por isso temos a rede, para efetivar esse processo de desenvolvimento.

Podemos citar alguns números de ações mais diretas. O Programa Educação para o Trabalho, por exemplo, beneficiou mais de 40 mil jovens e o Programa Formatos capacitou quase dois mil líderes comunitários até o momento. Articulamos e mediamos redes em mais de 20 locais no Estado de São Paulo, reunindo cerca de 600 organizações, que implementam em média 80 novos projetos por ano, além de seus próprios e com maior efetividade, que beneficiam mais de um milhão de pessoas. Estou convencido de que programas com essa visão de desenvolvimento e de sustentabilidade contribuem com o país.


Filantropia: O Senac quer trabalhar mais diretamente com desenvolvimento local. Qual a sua concepção sobre o tema?

JD: Desenvolvimento social fundamentase no próprio conceito de desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento local é uma estratégia que considera o desenvolvimento de comunidades identificadas geograficamente a partir dos seus recursos e potencialidades. Por tanto, quando falamos de desenvolvimento local falamos do desenvolvimento das pessoas e de suas comunidades. É criar e favorecer condições para que elas potencializem habilidades, conhecimentos, experiências e possam aproveitar oportunidades, satisfazer necessidades, resolver problemas e melhorar sua qualidade de vida e de convívio social.

As ações se darão a partir dos locais onde haja processos de redes organizadas. Esses grupos, junto com o Senac, deverão articularse com o poder público e empresas, realizar diagnósticos participativos, desenvolver um plano estratégico de desenvolvimento, definir agenda de prioridades, tanto para os projetos que possam ser realizados com ativos locais quanto para os que precisam de captação de recursos, para que em até três anos, aproximadamente, seja possível a criação de uma agência de desenvolvimento local que gerencie e dê sustentação ao processo.


Filantropia: Como você avalia os investimentos e projetos do governo federal no setor social?

JD: Acho importante a ação do governo de promover as pessoas que estão abaixo da linha da pobreza. Porém, não é a carteirinha disso ou daquilo, cesta básica e outros mecanismos que resolvem o problema. O que tem de ser feito é promover o protagonismo local.

O estado é grande demais para fazer coisas pequenas e às vezes muito pequeno para entender coisas grandes. O número de organizações da sociedade civil deve beirar 350 mil no Brasil. Se cada uma beneficiar um público de mil pessoas pelo menos, então serão 35 milhões de pessoas atendidas. Eu desconheço um projeto significativo do governo federal dirigido a organizações da sociedade civil.

O atual governo tem mais alguns meses de 2006 e, quem sabe, mais quatro anos para perceber a importância do trabalho que é feito para 35 milhões de pessoas. Nunca é tarde e eu sou bastante otimista. O fomento ao desenvolvimento local é uma questão de tempo e independe de governos, assim como foi a globalização.


Filantropia: Como tem sido a relação do Senac São Paulo com o poder público?

JD: A relação com o poder público é boa, mas setores técnicos do governo confundem o papel do Senac. O fato de receber um recurso público não o torna uma organização estatal. O Senac é uma organização privada sem fins lucrativos e tem uma gestão independente do Estado. Muitas vezes o poder público guia-se pela gestão de governo, ou seja, trabalha no máximo para até quatro anos. Parcerias são viáveis neste curto espaço de tempo, mas as alianças são mais difíceis. O Senac e o poder público são instâncias muito grandes para fazer apenas parcerias.

Em 2005, participamos com mais de 60 organizações da criação de uma política nacional de apoio ao desenvolvimento local, que deverá ser apresentada ao presidente da república até março deste ano, espero. A organização é do Instituto Cidadania e poderá ser uma oportunidade para o poder público apoiar ações que promovam o desenvolvimento.


Filantropia: Após 60 anos de atuação, que avaliação o Senac São Paulo faz de sua própria atuação?

JD: Não é nada fácil falar dos 60 anos do Senac São Paulo. Estamos falando de um mundo. Trabalho nessa instituição há dez anos e a cada dia conheço um pouquinho mais da sua história e da sua atuação. Se tivesse de resumir em poucas palavras, diria que o Senac teve uma atuação empreendedora, inovadora, vanguardista e que a partir dos anos de 1990 elabora e implementa um planejamento estratégico arrojado. De lá para cá, busca competitividade, internacionalização, melhoria contínua dos processos de gestão, qualidade, reconhecimento e referência naquilo que faz.

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