Semeando Transformações Positivas

Por: Paula Craveiro
15 Setembro 2016 - 02h55

Graduada em Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Mara Mourão dirigiu mais de 200 comerciais antes de se dedicar à produção de médias e longas-metragens. Atualmente, ela acumula vários prêmios e já alcançou milhões de espectadores pelo mundo.

Em 2005, a cineasta lançou o documentário Doutores da Alegria, que apresenta os médicos da organização de mesmo nome e recebeu o selo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) por promover uma cultura de paz. Sua versão para a TV foi indicada ao Emmy. Em 2012, foi a vez do documentário Quem se importa, que mostra o trabalho de 18 empreendedores sociais cujas ideias visionárias já transformaram milhões de vidas. Participaram do vídeo pessoas como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus; Bill Drayton, da Ashoka Empreendedores Sociais; e Wellington Nogueira, do Doutores da Alegria.

Em entrevista à Revista Filantropia, Mara Mourão comenta seu interesse e envolvimento com o Terceiro Setor e fala a respeito de sua visão quanto ao empreendedorismo social.

Revista Filantropia: Como começou o seu interesse pelo Terceiro Setor?

Mara Mourão: Meus dois primeiros filmes foram de comédia. Avassaladoras foi um sucesso de bilheteria e a reação do público era sempre muito positiva, mas ficava restrita ao “ri muito”, “me diverti muito”. Quando decidi fazer um documentário sobre os Doutores da Alegria, a resposta do público foi completamente diferente daquela que eu recebia com as comédias. As pessoas diziam-me que o filme havia mudado a vida delas. Isso é uma coisa muito forte! Fiquei chocada com o impacto do documentário. Ouvi relatos de professores dizendo que mudaram o jeito de ensinar e de jovens que decidiram dar outro rumo às suas carreiras. Foi então que resolvi fazer um filme na mesma linha, só que com um foco mais abrangente. Quem se importa veio como resposta à reação do público, que me fez sentir na pele o impacto social que um filme pode causar. Percebi que o cinema pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social.

RF: E seu envolvimento com o tema empreendedorismo social?

MM: Minha relação com o empreendedorismo social é antiga. Meu marido é um empreendedor social e presidente do conselho da Ashoka (organização internacional pioneira no fomento do modelo). Por isso, há muitos anos tenho escutado histórias lindas de pessoas que provocam impactos positivos a seu redor. Quando ele chegava em casa contando histórias comoventes sobre a atuação nos hospitais, eu sempre pensava que não era justo que só as pessoas internadas pudessem ter contato e saber do trabalho dos artistas do Doutores da Alegria. Aos poucos, fui amadurecendo a ideia de fazer um filme sobre elas. Quando decidi, de fato, filmar Quem se importa, mergulhei de cabeça nessa temática e aprofundei-me nas pesquisas, conversando com diversas pessoas, entre elas Bill Drayton e David Bornstein, dois grandes conhecedores do assunto.

RF: Os projetos apresentados em Quem se importa são variados, como microcrédito e programas de saúde. A seu ver, qual é o ponto que os une?

MM: O painel de empreendedores sociais foi composto por personagens de diversos países e atuantes nas mais variadas áreas. Escolhi 18 nomes para o filme depois de uma pesquisa extensa, na qual busquei pessoas com ideias inovadoras, de baixo custo e de alto impacto social que soubessem se comunicar bem e cujos trabalhos teriam imagens às quais eu teria acesso. Foi muito difícil escolher, porque precisei deixar de fora muitas pessoas brilhantes – por isso, estou pensando em criar uma série de televisão, para poder apresentar essas iniciativas ao redor do mundo. Pesquisei em livros, na internet e na rede Ashoka. Com o filme, você passa a entender que os transformadores podem estar nas áreas de educação, saúde, meio ambiente, direitos humanos, economia, enfim, em qualquer área. A mensagem central é a de que todo mundo pode mudar o mundo, não importa em que setor, seja ele privado, governamental ou social. Qualquer pessoa pode fazer a diferença.

RF: Você notou alguma diferença entre os tipos de empreendedor?

MM: Existem empreendedores de vários níveis. Se a pessoa faz um trabalho em grande escala e afeta milhões de vidas, ela é chamada de empreendedor social. Se faz algo em uma escala menor, é um transformador ou agente de mudança. Existem vários nomes, mas acho que isso não é o mais importante; são nomes diferentes para um espírito comum, o espírito de parar de simplesmente reclamar e não se conformar com uma realidade que não deve existir, arregaçar as mangas e partir para a ação. O que esses empreendedores sociais têm em comum são as qualidades inerentes a um empreendedor: inovação, visão de futuro, não desistir fácil, enxergar oportunidades quando a maioria enxerga problemas etc.

RF: Como você vê o empreendedorismo social no Brasil?

MM: Esse setor cresceu muito nas últimas quatro décadas, por várias razões históricas. Primeiramente, porque mais de 90 países, que antes eram sistemas ditatoriais, absolutistas e de apartheid, passaram a promover sistemas democráticos, e só em uma democracia é possível que o setor cidadão floresça. Depois, houve aumento da classe média, com mais acesso à educação e à saúde. Para completar, veio a internet, que ampliou o alcance da informação acerca dos problemas sociais. As empresas resolveram reter seus talentos por meio de programas de responsabilidade socioambiental mais robustos, afinal o jovem hoje em dia está em busca de propósito, não só de estabilidade financeira. Por fim, acho que as pessoas também abdicaram da crença de que são os governos e as autoridades os únicos responsáveis por solucionar os grandes problemas da humanidade. Essa conjuntura fez com que o setor cidadão tivesse enorme crescimento. Mas creio que, no futuro, não haverá essa divisão entre empreendedores sociais e cidadãos. Acredito que todos nós seremos cidadãos mais ativos. Isso aconteceu no mundo todo e não foi diferente no Brasil, que, junto com a Índia, são grandes celeiros de empreendedorismo social. Acredito que o Brasil seja um dos países mais criativos nesse campo.

RF: O que é preciso para ser um empreendedor social? Qualquer pessoa pode mudar e provocar mudanças positivas em sua comunidade ou mesmo no mundo?

MM: Para mudar o mundo, basta ter consciência do seu próprio poder de transformação. No documentário, mostramos projetos de pessoas que possuem essa consciência e, assim, buscamos inspirar mais pessoas a se engajar socialmente.

RF: O que você considera importante para conseguirmos engajar as pessoas? O que é preciso fazer para que as pessoas se importem?

MM: Muitas vezes, as pessoas querem atuar socialmente, mas como isso não está entranhado em nossa sociedade elas não sabem como começar. Em países como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, por exemplo, a cultura do voluntariado permeia toda a sociedade. Mas sinto que em países de cultura latina isso não acontece. Então, o Quem se importa inspirou-me a criar um projeto de educação para inspirar jovens a se engajarem socialmente, chamado Sementes de Transformação.

RF: Qual é a proposta do Sementes de Transformação?

MM: O Sementes de Transformação acredita que os jovens do ensino médio podem ser agentes de transformação na sociedade a partir do momento que compreendem a realidade em que vivem, sejam capazes de reconhecer suas capacidades e motivações e sintam-se apoiados para a construção de algum projeto de cunho social. Bill Drayton, fundador da Ashoka, acredita que se 3% dos jovens que hoje estão nas escolas fossem agentes de mudança, mudaríamos o mundo em pouco tempo. Como ele comenta no filme: “Os pais vão ficar preocupados se o filho estiver indo mal em matemática, mas será que notarão se o filho está sendo um transformador?”. Pergunto: será que os pais estão preocupados em formar cidadãos proativos, pessoas que realmente lutam pelos seus direitos e dos outros? Acredito que todos nós deveríamos nos empenhar mais nesse sentido.

 

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