Protagonizando com arte

Por: Agnaldo Aparecido Geremias
23 Janeiro 2015 - 00h45

protagonizando com arteMinha vida foi sempre assim: brincadeira e arte... Lembro-me de quando minha mãe e eu íamos ao banco pagar as contas. Sabe aqueles envelopes que as pessoas usam pra colocar cheques dentro? Eu pegava um “bolo assim” e colocava no bolso. Eles tinham um lado branco e aí eu usava para desenhar.
Naquela época, passava muito tempo na rua. Meus pais haviam se separado, e como eu e minha irmãzinha ficamos com a mãe, morávamos num lugar bem humilde, pois ela não podia pagar aluguel. Lembro-me como se fosse hoje, cheguei a pedir para minha mãe se separar. Já não aguentava mais vê-los brigando. No dia da separação, meu pai disse que estava passando mal do coração. Preocupado, acabei ficando com ele, enquanto minha mãe foi embora com minha irmã.
Morei na companhia de meu pai por três meses, mais ou menos. Depois, sem mais nem menos, ele “entregou minha guarda”. Recordo-me que ele disse para minha mãe: “Toma esse menino aí que eu não aguento mais”.
Nossa casa ficava lá em baixo, na chamada “área de risco”, próxima a um córrego, onde hoje existem os prédios construídos pela prefeitura. Havia ratos por toda parte. Bem pertinho, havia também uma “biqueira”, que o pessoal da vila chamava de “caveirinha”. Minha mãe não deixava a gente nem passar por lá. Ela dizia que ficava “com o coração na mão” quando saía para trabalhar, pois éramos apenas duas crianças, um cuidando do outro.
Como a comunidade muito pouco tinha a oferecer para as crianças, a gente ficava do lado de casa mesmo, “zoando” e brincando. A rua era “barro puro”. Nossa vida era feita de escola, casa e rua. Um dia, um amigo me disse que haviam inaugurado na vila um projeto que prometia “tirar as crianças da rua”. Achei isso interessante: “tirar as crianças da rua”. E, além do mais, era de graça. Mas como nem tudo que é de graça é bom...
Interessado, tomei a iniciativa. Pedi a minha mãe que fosse comigo fazer a inscrição — ela achou aquilo “uma glória”. No dia esperado, ela pediu que eu tomasse banho, separou uma roupa “bacana”, penteou meus cabelos, pegou minha irmã no colo e fomos para o Centro de Atendimento à Criança e Juventude da Fundação Criança de São Bernardo do Campo. Esse era o nome do lugar.
Estava muito curioso e não quis me sentar. O educador que nos atendeu insistiu, e acabei cedendo. Ele tentou por várias vezes “puxar papo” comigo, mas minha timidez me limitou. De qualquer forma, com toda paciência e atenção, ele nos mostrou o espaço todo e nos apresentou para a equipe de educadores.
Logo me adaptei. As brincadeiras com os amigos na rua passaram a ficar cada vez mais raras. Ia para a escola pela manhã e passava as tardes no programa. Eu achava o máximo poder sair sozinho e ir para um espaço que era considerado pela comunidade como “o espaço” de convivência para as crianças.
Participávamos de atividades de teatro, dança, música e leitura, que colocavam a criançada para pensar. Diversão, cultura, vivência... Até Don Quixote de La Mancha a gente representou. Só que o nosso Don Quixote era diferente. Em vez de ficar louco com as novelas de cavalaria, o que o levava à loucura era a televisão. Naquele ano, 2006, fui o personagem principal da peça de teatro, Ravengar, o nome que escolhemos para o nosso cavaleiro andante. Era um musical. Cantei, sapateei e dancei com a criançada, especialmente ao lado de Everton, meu melhor amigo, que interpretou “Juca Pança”.
Chegava em casa e contava tudo o que acontecia para minha mãe. Queria de qualquer forma que ela ensaiasse as falas da peça comigo. Ela achava tudo muito engraçado.
Fiz amigos. Uns tinham a cara fechada, outros eram meio alegres, outros até alegres demais. Com alguns, a amizade continua até hoje e, de quando em vez, vou a casa deles para brincar, digo, jogar videogame. Poucos já estão trabalhando. Outros continuam correndo atrás. Outros nem estão mais entre nós...
Carrego muitas memórias da vivência que tivemos. Foi tudo muito intenso, mas passou. No ano de 2007, minha irmã começou a frequentar o programa também; porém, a troca da equipe de educadores provocou em mim um grande desinteresse. Não sei ao certo por que, mas não me identifiquei com a forma como as atividades passaram a ser desenvolvidas, nem com as modalidades oferecidas. Sentia que precisava “sair daquele meio”. Minha irmã, entretanto, continuou por lá.
Foi então que me contaram sobre a Usina Socioeducativa. Outro projeto da Fundação Criança localizado no centro da cidade. Um espaço cultural que oferecia oficinas de formação em música erudita e tecnologia, dentre as quais desenho animado, algo que queria aprender desde pequeno.
Não perdi tempo. Fiz minha inscrição em companhia de minha tia. Comecei a frequentar as oficinas de desenho animado e de viola da gamba, um instrumento de cordas do período barroco e pouco conhecido. O mais legal é que os educadores me ouviam. Durante as aulas, dava para conversar e até desabafar algumas coisas.
As oficinas de desenho animado aconteciam às segundas, e as de viola da gamba, às terças e quintas. No final do primeiro ano, passei a fazer parte da Orquestra de Câmara do projeto. Gravamos um CD e tivemos nossa foto publicada no jornal.
Um CD gravado. Nunca pensei que pudesse gravar um CD. Fizemos uma apresentação até para o Presidente Lula. Todos acharam o máximo. Gostei muito, mas, ao contrário dos meus amigos, eu o encarei como uma pessoa normal. Até mesmo quando ele falou comigo. Apesar de ele ser o Presidente, estar no comando, ser importante e coisa e tal, toquei para ele como eu tocaria para o meu vizinho. Puxa... Acho que já tenho algumas coisas para contar aos meus filhos e netos.
Nos dias em que vou para as oficinas, acordo às cinco e meia, tomo um bom banho e o café da manhã. Minha mãe sai para trabalhar. Enquanto isso, eu me arrumo, pego meu material escolar, levo minha irmã até a escola, espero ela entrar e depois vou para o colégio. Saio da escola e vou direto para a Usina.
Pago caro por uma passagem de ônibus, apesar de não ter onde me sentar. Paro no ponto do Shopping do Coração, no Centro de São Bernardo. Vejo aquelas lojas brilhando com roupas e sapatos que um menino como eu dificilmente pode ter. É o capitalismo. Está em toda parte.
Só volto lá pelas seis e meia, porque o ônibus demora. Como não vai mais para o CACJ, minha irmã volta para casa e fica sozinha até eu voltar. Desde o ano passado, os educadores disseram para minha mãe que as vagas para crianças da idade dela estavam esgotadas, pois as crianças participantes do Programa PETI agora teriam preferência no atendimento. Minha mãe ficou indignada.
Quando chego, damos um jeito na casa. Aí, eu estudo e fico esperando minha mãe chegar do serviço.
Infelizmente, hoje as coisas não são mais como no começo. Algumas oficinas já nem existem mais. Até a Orquestra deixou de atuar. Muitos de meus amigos que faziam as oficinas desistiram. Talvez seja porque agora só temos uma aula de música por semana e isso os desestimulou.
As oficinas de desenho animado ainda continuam interessantes. Continuo me dedicando, pois isso, para mim, é “profissão”. Pretendo, nos próximos anos, estar formado em Artes Gráficas e Artes Visuais. Meu pai é contra. Ele acha que eu tenho que fazer outra coisa e não acredita que seja possível “vencer na vida” trabalhando com arte.
Minha mãe, por sua vez, me dá o maior apoio. Ela sempre me disse que eu tenho de fazer o que gosto. E se o que eu gosto é desenho, é isso que eu vou fazer. Já pensou? Com 22 anos, acordo cedo, dou um beijo na esposa, abraço meu filho e vou para o comando do meu próprio estúdio. Esse é meu sonho...
Já se passaram cinco anos desde que comecei a frequentar o Programa. Continuo ficando com meu pai nos finais de semana. Confesso que não gosto de ficar um período maior do que dois ou três dias longe de casa, longe da minha mãe e da minha irmã.
Hoje tenho a cabeça mais centrada, ao contrário de muitos adolescentes que só dão trabalho. Eu busco meus objetivos. Sei que existem coisas que não posso realizar agora, mas sei também que, se me dedicar, posso conquistar o que desejo. Creio que tenho talento, mas, como diz minha mãe, talento só não basta, preciso estudar muito, principalmente se quiser me formar na UNESP.
Reconheço que a arte tem contribuído com minha formação. Acho que, se eu não tivesse me envolvido com isso, talvez não “trouxesse essa cabeça” e não pensasse as coisas que penso. Praticar arte me tornou mais seguro e criativo. Na escola, por exemplo, durante as tarefas em grupo, sou eu quem sempre acaba ficando no comando. Mesmo quando não tem nada a ver com arte, meus colegas sempre confiam que eu vou saber como fazer. Acho que eles dizem isso pelo fato de saberem que eu conheço muitas coisas que eles não conhecem. Não entendo: muitos deles têm internet em casa, mas não têm interesse em buscar conhecimento. Eu não tenho internet, mas busquei ajuda nos livros. De qualquer forma, a gente acaba trocando conhecimento e um aprende com o outro. É legal essa história de convivência.
Meu professor de viola da gamba sempre me conta histórias dos artistas da Antiguidade. Nas cortes, eles tiveram que escrever músicas para os reis, os “chefões” da época, e precisaram superar inúmeros obstáculos para poder divulgar seu trabalho. Para eles, conquistar esse objetivo era extremamente difícil, pois não havia meios de comunicação. Nenhum músico daquela época conseguiria nada sem muito esforço.
Histórias como essa me estimularam e têm me feito refletir muito. Se quiser conquistar algo na vida, tenho que me comunicar, fazer amigos, superar obstáculos e persistir nos meus desejos e sonhos.

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