Mateus Solano: Das telas para a vida real

Por: Instituto Filantropia
22 Janeiro 2015 - 23h18

Após viver personagem marcante na televisão, Mateus Solano torna-se embaixador da Boa Vontade do Unaids no Brasil

Depois de ganhar ainda mais reconhecimento ao interpretar o personagem Félix, na novela Amor à Vida, o ator Mateus Solano agora está engajado com o que considera ser seu “papel mais importante”: o de “conscientizar o público sobre as melhores formas de prevenir o HIV e tratar a Aids — e, sobretudo, de acabar com qualquer espécie de discriminação”. Em agosto, Solano foi nomeado embaixador da Boa Vontade do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) no Brasil. A iniciativa “Zero Discriminação”, promovida pela Unaids, tem o foco de combater a discriminação e celebrar o direito de todos a uma vida plena, produtiva e digna, sem qualquer distinção de gênero, orientação sexual, origem ou aparência.
Nascido em Brasília, Solano tornou-se conhecido antes de interpretar Félix. Viveu também o personagem Ronaldo Bôscoli, na minissérie Maysa, e os gêmeos Miguel e Jorge, na novela Viver a Vida. Com 12 anos de carreira e formado em Artes Cênicas, já atuou em quase 30 peças e foi protagonista do primeiro beijo entre um casal homossexual em uma telenovela da Rede Globo. Em entrevista à Revista Filantropia, Solano fala sobre seu novo título no Unaids e sobre o desenvolvimento social do país. „

mateus solano

Revista Filantropia: Você acha que a atuação de artistas e pessoas com visibilidade na mídia influencia a atitude de outras pessoas?
Mateus Solano: Eu sou um cara que tem alguma noção da importância da minha profissão. É uma profissão que, principalmente quando envolve novela, atinge um grande público. Como artista, você acaba tendo uma responsabilidade sobre o que você diz, sobre quem você é, sobre a postura com a qual você se apresenta em sociedade, ainda mais uma sociedade ultraconectada, em que tudo está na internet, tudo está exposto. Quando eu fiz o Félix, achei que tinha atingido tudo o que eu poderia atingir da minha profissão, no sentido de que consegui fazer um personagem que mexeu com as pessoas de dentro para fora, mudou até os rumos da história da novela a partir da paixão que as pessoas tiveram por esse personagem e, depois, pela história de amor desse personagem com o do Thiago Fragoso. Para mim, esse era o ápice da minha profissão. E, de repente, recebo esse convite, que veio através da minha madrasta, que trabalha no Unicef, de ser o primeiro embaixador da Boa Vontade do Unaids no Brasil. Isso está muito além do que eu imaginava, de onde iria a minha responsabilidade social.

RF: E quais são suas expectativas como embaixador desse programa?
MS: Estou muito orgulhoso, muito honrado com o convite, com a nomeação em Brasília, e tivemos datas importantes. Aconteceu o Dia Mundial de Combate e Prevenção à Aids, em 1º de dezembro, e, a partir de então, começamos mais fortemente a campanha Zero Discriminação, que vai contra a discriminação e a favor da divulgação da informação.

RF: Embora as informações sobre a Aids estejam muito mais disseminadas na sociedade, ela ainda é, de alguma forma, vista como um tabu. Como você analisa a abordagem ao tema nos dias de hoje?
MS: A gente ouvia muito falar em Aids na década de 1980, 1990, e isso foi sendo deixado de lado porque o grande estandarte dessa luta, que foi tão importante, nesses anos que se passaram, foi responsabilidade do movimento gay, hoje movimento LGBT. Precisamos agradecer a esse movimento, que obviamente representa somente parte dos infectados, está longe de representar todos. Porém, lá atrás, eles acabaram levantando essa bandeira. Todos nós, homossexuais ou não, somos muito gratos a essa atenção tão grande que foi dada ao perigo da Aids na década de 1980. Agora, o movimento LGBT está mais concentrado em lutar contra a violência ao homossexual e a favor do próprio casamento. Mas não podemos deixar a Aids de lado, porque é importante. Ela está aí, está muito mais presente do que a gente pensa em uma sociedade como a de São Paulo, mas também em várias partes do país, e principalmente o preconceito por falta de informação.

RF: O que você acha do trabalho das ONGs no Brasil e qual é o impacto delas?
MS: Normalmente, as ONGs vêm até mim por conta da visibilidade, que o próprio Unaids chamou de capital de empatia. É isso que eu posso trazer para as coisas, é o capital de empatia, não só a empatia que eu tenho, mas a que o público tem para comigo. Através dessa empatia, tento entrar na cabeça e no coração das pessoas para chamar a atenção às questões importantes. Acho que é um trabalho fundamental, porque a partir do G, da sigla ONG, a gente não consegue muita coisa. Então, é claro que nem tudo é perfeito, existem problemas em muitas ONGs também, mas, de maneira geral, vejo com muito otimismo. Já fui padrinho da Apae e luto por várias causas bacanas, de diversas organizações que vão me procurando.

RF: Que temas devem ser prioritariamente tratados no país, na sua opinião, em busca de um desenvolvimento mais sustentável?
MS: Eu acho que tem de ser uma coisa que foi deixada de lado há mais de década, que é a importância e a interligação entre educação e cultura. Primeiro, o respeito pelo professor, o respeito pelo papel da cultura, pois o professor é o mestre do mestre, certo? E nosso país realmente já começa mal nesse sentido. Então, já virou clichê falar de luta pela educação no Brasil. E a cultura também, que é a identidade, e as pessoas vão se esquecendo disso. A identidade dos povos começa a ser medida a partir da economia, se vai bem, se vai mal... e a economia é vazia, é um país vazio. Porém, só se pode apreciar uma boa cultura se houver uma boa educação; senão, é uma bola de neve que tem início na educação. Se a educação fosse interligada à cultura, teríamos um país mais rico, mais inteligente e mais preparado, sem dúvida.

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