A arte de gerir pessoas

Por: Felippe William
11 Setembro 2014 - 02h00

a arte de gerir pessoasCorinna Schabbel, Ph.D em desenvolvimento humano e organizacional, fala
sobre as estratégias e o impacto dos recursos humanos em organizações sociais

Após seu primeiro contato com a área de recursos humanos, no período em que atuou na Alemanha, Corinna Schabbel passou a se interessar pela área de gestão de pessoas e, aproveitando a formação em psicologia, começou a trabalhar com mediação de conflitos para apoiar famílias em crise e também como consultora para empresas. Atualmente, com doutorado em desenvolvimento humano e organizacional na Califórnia, Corinna atua como coach executiva e é gerente de recursos humanos no CWTP – Sociedade de Advogados. Em entrevista à Revista Filantropia, Corinna relatou sua experiência e as necessidades atuais e mais importantes para a gestão dos recursos humanos em organizações sociais.
Revista Filantropia: Sabemos que, em termos de administração, as organizações sociais devem adotar as mesmas estratégias do setor privado, em busca da excelência na gestão. Você acha que isso é colocado em prática na área de recursos humanos das ONGs no Brasil?
Corinna Schabbel: Acredito que a profissionalização do Terceiro Setor tenha construído e contribua para que a área de RH também se profissionalizasse, muito embora, culturalmente, o RH ainda se confunda com o Departamento de Pessoal. Para muitos, o RH não vai além do recrutamento e seleção e a entrevista de desligamento. Excelência em gestão significa também desenvolver pessoas, qualidade de vida no trabalho, gestão de desempenho, que ainda não são realidade em ambos os setores quando falamos de pequenos e médios empreendimentos.
RF: Qual impacto uma área de recursos humanos bem estruturada pode causar no trabalho de uma ONG?
CS: O maior impacto eu considero uma melhor qualidade de trabalho, mais pontualidade nas entregas, enfim, eficiência que gera resultados.
RF: Você acha que há diferenças no perfil do profissional que busca uma colocação no mercado privado e no setor social?
CS: Não deveria haver, mas há. O profissional que busca colocação no setor social está mais focado em pessoas e nos relacionamentos. A ambição por uma carreira, ascensão social e tudo o que ela envolve hoje em dia não são os primeiros objetivos de sua lista. O que ambos têm em comum é a falta de planejamento de carreira em médio e longo prazos.
É comum vermos profissionais atuando em áreas para as quais a vida os levou, e não a área que escolheram. Quando um profissional mais maduro opta pelo social, pode ter certeza de que está fazendo uma escolha com base na experiência e nos seus anseios pessoais.
RF: Quais são os principais passos para se formar uma equipe qualificada na hora de selecionar os candidatos?
CS: Ao entrevistarmos as pessoas, questionamos o que fez, como fez e por que fez. A qualificação técnica, o perfil psicossocial, as habilidades e a competência são investigados, mas, o que pode fazer a o diferença é o entendimento do porquê o candidato optou por participar do processo. Muitos não procuram por uma carreira, e sim por um emprego para pagar as contas. Faz toda a diferença. Eu procuro por pessoas que queiram crescer e fazer carreira, com esforço e dedicação.
RF: Considerando sua experiência no exterior, como você avalia a diferença entre a atuação das ONGs, em termos de gestão, em países desenvolvidos e no Brasil?
CS: Temos no Brasil ONGs de primeira linha que atuam com seriedade e transparência, e projetos importantes que atendem de fato à população a que se destinam. Não perdem para as estrangeiras. Porém, a corrupção, o desvio de verbas e a preocupação com o ego ainda comprometem boa parte do trabalho executado no Terceiro Setor.
RF: Em sua opinião, quais são os principais desafios encontrados pela área de recursos humanos atualmente, para encontrar bons candidatos e mantê-los motivados?
CS: Acredito que o maior desafio seja a falta de formação. A grande maioria dos candidatos não tem formação à altura das necessidades do trabalho de média complexidade. Os cursos superiores, sejam eles de cinco, quatro ou dois anos, não atendem os requisitos da profissionalização, pois o jovem os frequenta na busca de um diploma, e não do aprendizado. Somente conseguimos motivar aqueles que estão conscientes de que trabalhar é algo sério, e que assim deve ser encarado.

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