Hora De Realinhar Cargos E Salários

Por: Luciano Guimarães
03 Fevereiro 2016 - 00h28

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Na busca pela otimização dos custos das operações e por mais eficiência nos atendimentos, organizações não governamentais reavaliam políticas internas relacionadas aos seus colaboradores

A profissionalização das atividades das organizações sociais – acelerada em parte pelo momento negativo da economia brasileira – está levando uma parcela considerável das entidades a rever seus processos internos relativos à distribuição de cargos e funções e de salários e benefícios aos seus colaboradores.

Mesmo assim, é grande o tamanho do desafio, uma vez que 74% das 303 mil organizações não governamentais, entre fundações e associações sem fins lucrativos, não têm funcionários registrados formalmente, de acordo com a Fasfil 2010 – As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil.

Desse total, 2% são fundações, 8% são organizações religiosas e a grande maioria, 90%, está constituída como associação civil sem fins lucrativos, segundo a Pesquisa sobre Organizações da Sociedade Civil e suas Parcerias com o Governo Federal, da FGV Projetos, a pedido da Secretaria-geral da Presidência da República.

“De maneira geral, as organizações que têm recursos próprios – investidores sociais – e dependem menos de captação têm mais autonomia na sua gestão de pessoas e têm condições de adotar práticas de remuneração mais competitivas, buscando atrair profissionais qualificados”, explica Marisa Ohashi, gerente administrativo-financeira do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife).

A executiva ressalta que muitas organizações não governamentais já adotam benefícios similares aos da iniciativa privada, inclusive a remuneração variável. “Adotam também outros instrumentos de gestão, comuns na iniciativa privada, com a finalidade de se manterem competitivas no mercado de trabalho, como as pesquisas salariais”, reforça.

No final de setembro o Gife lançou a 3ª edição da Pesquisa Salarial, que aborda a remuneração total entre os investidores sociais, e possibilita às organizações comparar seus salários e benefícios praticados com a média deste mercado. A pesquisa é realizada a cada dois anos e é conduzida pela Taji, empresa de consultoria especializada em remuneração.

O levantamento, que contou com 16 participantes associados, mostrou que a maioria das organizações é de origem empresarial (56%), com orçamento até R$ 10 milhões (37%) e entre R$ 11 e 20 milhões (25%), e apresentam estruturas enxutas, de até dez funcionários (37%) e entre 11 e 20 funcionários (25%).

De acordo com a pesquisa, 75% das organizações possuem um programa de remuneração variável, isto é, além do salário- -base fixo, os funcionários recebem conforme o seu desempenho. A maioria é por bonificação.

“A remuneração variável é bastante comum na iniciativa privada e isso vem crescendo no setor social. Este resultado mostra que as organizações têm se estruturado por meio de um planejamento e processos, priorizando esforços em metas estabelecidas e conectando a performance de seus profissionais a este sistema”, destacou a gerente do Gife.

A pesquisa do Grupo de Institutos Fundações e Empresas revelou outro dado interessante. As organizações têm sido competitivas quanto à prática salarial, pois a maior parte das participantes (31%) busca praticar a média do mercado.

“A partir desse levantamento, as organizações poderão analisar como estão em relação a este mercado e tomar decisões sobre suas práticas de remuneração e benefícios, sempre levando em conta sua viabilidade orçamentária”, frisa Marisa Ohashi.

Às vésperas de completar 50 anos de existência, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, por exemplo, tem promovido ações voltadas a solucionar o problema. “A organização está passando por uma revisão estratégica a fim de refinar seu modelo de atuação, e assim ganhar mais eficiência em seus processos”, pondera o gerente de estratégia e operações Felipe Ferri.

Além disso, reforça o gestor, a entidade vem investindo na estruturação e no alinhamento das políticas e procedimentos de gestão de ressoas.

Fundada há 60 anos, a Fundação Bunge também vem trabalhando intensamente na busca por aumentar a eficiência de suas ações. Segundo a gerente de projetos Juliana Santana, a organização tem ancorado sua atuação nas práticas de gestão por competências.

“Por meio da revisão da estratégia, inclusive com a estruturação de um Balanced Scorecard da instituição, da reescrita dos cargos, a fundação pôde fazer um diagnóstico de seu quadro, buscar treinamentos e capacitações para cobrir as lacunas”, salienta a gestora.

Alinhamento Salarial

As entidades estão cada vez mais se mexendo para implantar uma política de gestão de pessoas, especialmente no tocante à remuneração, alinhando-a com a realidade do mercado e do orçamento da organização.

“Os salários devem ser competitivos para atrair e reter bons profissionais, mas devem ser viáveis do ponto de vista orçamentário”, argumentou Iatio Miyamura, sócio consultor da Taji, durante palestra sobre gestão de pessoas, proferida por conta do lançamento da 3ª edição da Pesquisa Salarial.

O especialista criticou o que chamou de “autocrescimento” da folha de pagamento, ou políticas que geram crescimento da folha automaticamente, como reajustes atrelados ao número de anos de experiência ou aumento de nível de escolaridade.

“O mérito deve ser reconhecido pela remuneração variável ao invés de evolução na faixa salarial e promoções devem levar em conta o potencial do funcionário ao invés de desempenho no cargo atual”, recomendou.

Na última década, o mercado de trabalho no Terceiro Setor se transformou em um grande celeiro de oportunidades, atraindo mão de obra qualificada proveniente da iniciativa privada. Este caminho também trouxe uma melhora considerável dos salários pagos aos gestores de alto escalão, como gerentes e coordenadores de projetos. Atraente, a remuneração varia conforme o tamanho da entidade e pode chegar, em alguns casos, até R$ 10 mil mensais.

Paralelamente à remuneração, há organizações sociais, especialmente as fundações ligadas a grandes empresas, que oferecem diversos benefícios, como planos de saúde e previdência, auxílio creche e até mesmo carros, tablets e smartphones. Evidentemente que a maioria das entidades ainda convive com problemas de orçamento, e precisa contar com o trabalho voluntário de muitos abnegados.

A migração de “cérebros” se deu não apenas pela profissionalização de uma enorme diversidade de organizações não governamentais, mas pelo próprio desgaste que muitos executivos sentem com o passar do tempo.

Em 2001, a administradora e advogada Priscila Fonseca da Cruz, depois de passar pela Arcor e pela consultoria Mercer, trocou a iniciativa privada pelo Terceiro Setor, época em que as entidades ainda começavam a dar os primeiros passos em busca da profissionalização.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, a hoje diretora-executiva da Ong Todos pela Educação afirmou ser “muito mais motivador ir trabalhar todos os dias com um propósito maior, que vai muito além do salário no final do mês”, lembrando-se que começou ganhando metade do salário que recebia no setor privado, “mas, como ainda não tinha filhos, achou que podia arriscar naquele início de carreira”.

“Foi um pulo no escuro, mas o mais acertado da minha vida, sem dúvidas”, ponderou a gestora.

Na mesma linha de sua colega, o superintendente da Liga Solidária, ONG que atua com educação e cidadania, Alvino de Souza e Silva, que atuou em empresas como a consultoria BBKO e o Banco ibi, braço financeiro das lojas C&A, migrou para o Terceiro Setor em 2006, por já estar “desgastado e desgostoso do último emprego”, resolvendo buscar a felicidade em outras paragens.

“A questão da remuneração já foi mais problemática quando o Terceiro Setor ainda não estava bem posicionado como atualmente”, salientou o gestor em entrevista para o mesmo veículo de comunicação.

Dirigentes Estatutários

Já os dirigentes estatutários, que até alguns anos não podiam ser remunerados nem receber qualquer tipo de gratificação, sob pena de que as entidades onde atuam – incluído associações, clubes sociais – percam a isenção fiscal, tiveram essa realidade alterada a partir de agosto de 2013. Isso ocorreu graças à Lei nº 12.868 (não atingindo os celetistas), que condicionou algumas regras para manter esta mudança.

Segundo a Cass Auditores e Consultores, com sede em Natal (RN), antes de remunerar os diretores, a entidade deve seguir algumas condições. “Em primeiro lugar, a remuneração máxima de cada diretor não poderá ser superior a R$ 21.630,00, equivalente a 70% da maior remuneração no Poder Executivo federal”, informa.

E ainda: “a entidade poderá pagar apenas o limite mensal, de R$ 108.150,00, a toda diretoria, independentemente do número de diretores estatutários. E nenhum dirigente remunerado poderá ser cônjuge ou parente até terceiro grau, inclusive por afinidade ou consanguinidade, dos instituidores, sócios, conselheiros, benfeitores ou equivalentes da instituição”.

http://gife.org.br; http://www.todospelaeducacao.org.br; http://www.ligasolidaria.org.br; http://taji.com.br; http://www.cassauditores.com.br;

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