Frank Flannery

Por: Valeuska de Vassimon
01 Março 2007 - 00h00

Não basta apenas empregar pessoas com deficiência. É preciso prepará-las para o mercado de trabalho assim como incentivar as empresas a recebê-las. Essa é a opinião de Frank Flannery, presidente da Workability International e ex-presidente do The Rehab Group, na Irlanda.
A Workability International é uma ONG de atuação global que cria e implementa programas de trabalho para pessoas com deficiência. A organização luta contra o desemprego dos deficientes e trabalha constantemente em sua qualificação profissional, por meio do auxílio de empresas de todo o mundo, para que compreendam esse processo.
Fundada na Suécia em 1987 por 11 países, a ONG possui atualmente mais de 110 membros no mundo todo, que incluem os maiores grupos de representantes de fornecedores de emprego e serviços de trabalho para deficientes. Mais de 3 milhões de pessoas com deficiência estão envolvidas nos programas de trabalho da organização realizados por membros em mais de 30 países.
Um desses membros é o The Rehab Group, uma ONG que possui mais de 200 centros de atendimento para pessoas com deficiência na Irlanda e na Inglaterra. A cada ano, mais de 60 mil pessoas acessam seus treinamentos e serviços de inclusão social e econômica das pessoas
com deficiência.
Por aqui, o representante da Workability International é o Instituto Paradigma, sendo o Brasil o primeiro país da América do Sul a integrar a rede. E foi justamente em um evento promovido em São Paulo (SP) pelo instituto em conjunto com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – o Fórum Permanente de Empresas para a Inclusão Econômica de Pessoas com Deficiência – que Frank Flannery falou à Revista Filantropia sobre a empregabilidade de pessoas deficientes no mercado de trabalho mundial.
Revista Filantropia: Como o senhor começou a trabalhar com pessoas deficientes?
Frank Flannery: Inicialmente, o The Rehab Group era uma organização na Irlanda que fazia caridades em geral, entre elas a criação de oportunidades de emprego para pessoas com deficiência. Nosso foco era o treinamento dessas pessoas a fim de colocá-las no mercado de trabalho.
Em 1980, tornei-me diretor-geral da instituição. Há dois meses estou aposentado, mas continuo como o representante internacional da organização, que, atualmente, ainda concentra suas atividades em programas de capacitação, além de serviços sociais, de saúde e de apoio às pessoas com deficiência. No entanto, nosso foco principal é aumentar as chances de emprego para essas pessoas.
A partir desse trabalho, fundamos a Workability International, em 1987, da qual sou presidente há seis anos. Trabalhamos muito para seu crescimento, e agora já são 110 membros na organização. Atualmente, temos desenvolvido nossas idéias e nossas funções ao redor do mundo.

Filantropia: Há alguma razão especial para o senhor trabalhar com pessoas deficientes?
FF: Apesar de sempre ter me interessado muito pelo assunto, não há nenhum motivo especial, pois antes de trabalhar nessa área, estava envolvido com algo totalmente diferente. No entanto, sempre me interessei por trabalhos sem fins lucrativos. Quando entrei no The Rehab Group, havia cerca de 50 pessoas. Foi prazeroso ajudar no crescimento e desenvolvimento da organização, assim como levá-la a nível nacional.
Dessa forma, cada vez mais me envolvi na tentativa de criar oportunidades para pessoas com deficiência na Irlanda, Inglaterra e, posteriormente, na Europa e em outros países ao redor do mundo.

Filantropia: A Workability International foi fundada em 1987, há 20 anos. Como o senhor vê a organização atualmente?
FF: Hoje em dia está muito diferente. Para se ter uma idéia, até o nome mudou. Antes ela era chamada de IPWG, que apesar de ser um nome difícil, designava uma organização dedicada a providenciar trabalho para deficientes mentais e físicos. Em 2002, na tentativa de passar um conceito mais moderno, mudamos o nome para Workability International.
Antigamente, por conta das guerras em 1939 e 1945, além da Guerra da Coréia, vários Estados criaram suas democracias sociais. Fundaram-se fábricas especiais para empregar pessoas com deficiência. Embora os empregadores oferecessem bons trabalhos e segurança, começaram a observar situações complicadas.
Assim, iniciou-se uma tendência para colocar tais pessoas em empregos normais, não apenas em vagas específicas. As pequenas organizações ficaram preocupadas com essa situação e tentaram se proteger, muitas vezes apresentando uma atitude defensiva. Mas com o decorrer do tempo, e principalmente nos últimos cinco ou seis anos, conseguimos mudar essa visão.
Atualmente, não queremos apenas procurar oportunidades de trabalho para os deficientes, mas, sim, nos certificar de que eles possuem acesso ao mercado e de que há uma boa legislação nos países ao que tange esse tema. Além disso, é preciso que haja apoio e treinamento em vez de discriminação, assim como um bom sistema empresarial que garanta a acessibilidade dos deficientes a todas as suas necessidades especiais.

Filantropia: Qual aspecto o senhor acha mais importante para ser trabalhado nas empresas que empregam os deficientes?
FF: O mais importante é que as empresas compreendam o universo dos deficientes e suas necessidades, e saibam
que essas pessoas realmente podem ser
bons funcionários.
Hoje em dia, há vários deficientes que preferem trabalhar período integral. Outros podem trabalhar apenas meio período, pois não são todos que conseguem trabalhar 40 horas por semana. Nota-se que alguns trabalham 20 horas por semana justamente por conta do seu estilo de vida. Por isso, queremos tornar o sistema das empresas mais flexível. Desejamos que essas pessoas possam ter escolhas, não apenas oportunidades.

Filantropia: Por ser um mercado de trabalho competitivo, como o senhor vê o ingresso dos deficientes nas grandes empresas?
FF: Ultimamente, nota-se certa necessidade das empresas em contratarem funcionários especializados por conta da competitividade do mercado. Em alguns países, há uma tendência de substituição das funções que poderiam ser exercidas por pessoas com deficiência por funções mais exigentes, as quais requerem formação superior, habilidades técnicas, conhecimento de TI etc. Por isso, o treinamento dos deficientes precisa ser cada vez melhor. É necessária uma análise real e contínua, além de muito estudo de casos.
Acredito que a flexibilidade, a oportunidade de fazer escolhas e a inovação são os pontos mais importantes nessa jornada. Todos os envolvidos nesse trabalho precisam estudar continuamente, estar em contato com os empregadores e compreender como o trabalho está em constante mudança.

Filantropia: Na prática, como a Workability International entra em contato com as empresas?
FF: Na verdade, são os membros da organização que realizam essa função. Mas a própria WI tem tentado conversar mais detalhadamente com empresas multinacionais. Como o mundo está cada vez mais globalizado, atualmente temos negociado com empresas grandes, como a IBM, Microsoft, Dell Corporation etc. Ao comprarmos seus produtos com desconto, é possível abrir as portas para um diálogo sobre suas políticas de trabalho, já que são empresas que estão muito interessadas na questão da responsabilidade social. Assim, podemos ajudá-las a alcançar seus objetivos.
Esse tipo de convênio tem apresentado um duplo efeito: além de criarmos um ambiente de oportunidades de trabalho e apoio aos deficientes, fazemos com que as empresas reflitam mais sobre a própria questão da responsabilidade social. E isso tem apresentado bons resultados.
Já dentro das empresas, a questão é muito mais detalhada. Temos trabalhado com o setor de recursos humanos com programas que ensinam aos funcionários o universo da deficiência. Porque, se um deficiente começa a trabalhar em uma empresa, seus colegas precisam conhecê-lo, a fim de que seja visto como um colega de trabalho, não como uma pessoa qualquer. Essa prática tem funcionado muito bem.

Filantropia: E como os deficientes entram em contato com as empresas?
FF: Já com os deficientes, nosso contato com as empresas é feito de uma forma indireta. Auxiliamos na elaboração dos contratos, mas é o empregador quem negocia com o candidato. O maior problema, na maioria das vezes, é que as pessoas com deficiência têm medo, pois são muito vulneráveis. Além disso, muitas vezes são pessoas pobres.  Por isso, é preciso ser muito cuidadoso.
Um exemplo disso é a questão dos benefícios que o governo dá a essas pessoas. Às vezes, quando um deficiente consegue um trabalho em uma empresa, ele perde esses benefícios. Isso é um risco muito grande, pois sabemos que empregos não duram para sempre. É uma decisão muito complicada.
No governo irlandês, temos defendido que as pessoas com deficiência não podem sofrer esse risco, pois não é justo, tampouco realista. É necessário permitir que eles possam manter seus benefícios pelo menos até estarem seguros no novo emprego. Ou ainda, caso percam seus benefícios, que seja fácil voltar a tê-los se saírem do emprego.
Em qualquer país, para conseguirmos avançar nesse tema, é preciso analisar as leis de emprego e de discriminação, além do sistema social como um todo, a fim de se certificar de que tudo está de acordo.

Filantropia: Como o senhor vê o Brasil nesse cenário, já que temos a Lei de Cotas, que obriga grandes empresas a empregarem de 2% a 5% de deficientes?
FF: Isso só acontece se a empresa tiver mais de 100 funcionários. O problema é que 90% das empresas não atingem esse número! Acho um número alto, embora seja uma possibilidade de criar muitas oportunidades de trabalho.
Essa lei existe há 14 anos, mas nos primeiros oito ou nove anos não empregava quase ninguém. Nota-se, no entanto, que nos últimos cinco anos há mais de 50 mil deficientes empregados sob esse sistema. Se a lei fosse praticada por todos, seriam mais 100 mil empregos. Portanto, acredito ser uma boa ação.
Mas para ser totalmente eficaz, é necessário haver os programas de capacitação. Não sei se são bons aqui no Brasil, mas acredito que não sejam suficientes. É preciso mais informação, mais treinamento, mais preparo das pessoas, mais conhecimento por parte dos empregadores. O departamento de recursos humanos das empresas precisa conhecer melhor as questões práticas que envolvem a empregabilidade de deficientes. Também é importante que todos os funcionários saibam mais sobre o assunto.
De qualquer maneira, acredito que a Lei de Cotas seja uma boa ação, pois há alto nível de desemprego no Brasil. Por ser muito difícil para várias pessoas, torna-se ainda mais difícil para os deficientes. Pode até ser que as empresas não consigam preencher as vagas porque não querem, mas é bem provável que também seja por não conseguirem encontrar bons funcionários com deficiência para as vagas disponíveis, muitas vezes específicas.

Filantropia: O senhor acredita que haja alguma solução para melhorar a Lei de Cotas?
FF: Uma boa idéia é criar um sistema que possibilite às empresas depositarem uma certa quantia em um fundo especial para programas de treinamento educativos para deficientes. Assim, os empregadores estariam ajudando a gerar fundos, a fim de criar mais conhecimento e informação, o que os auxiliaria a atingir a taxa das cotas.
Isso já acontece na Alemanha, onde há uma alta taxa de cotas desde a 2ª Guerra Mundial. Muitas empresas não precisam preenchê-las, já que colocam dinheiro em um fundo que fornece vários programas de apoio e treinamento para os deficientes. É uma boa iniciativa, embora precise ser desenvolvida um pouco melhor.

Filantropia: Nota-se que é preciso haver uma ação conjunta do governo, da sociedade e das empresas em relação a esse tema. Como o senhor acha que isso pode ser feito?
FF: O Brasil está começando ainda. O sistema social na Europa foi desenvolvido nos anos de 1950 e 1960, portanto, muita coisa já foi feita. Uma boa alternativa é trabalhar com organizações sem fins lucrativos. Mesmo que o governo não ajude muito, sempre é possível ajudar as pessoas por outros meios.
Apesar de que eu acho que o Brasil tenha um governo bastante envolvido nessa questão. Sei de programas de emprego desenvolvidos no país, além de uma política anti-discriminação bem disseminada. O sistema é complicado, é um longo caminho. Mas com uma base legal, é possível criar um desenvolvimento.
O mais importante é integrar os deficientes ao mercado de trabalho da melhor maneira possível. Para isso, é necessário haver leis e bom treinamento para que essas pessoas estejam preparadas no momento de serem empregadas. Mesmo que o governo não faça isso, alguém precisa fazer. Acredito que o Brasil possa fazer com que a sociedade toda trabalhe em uma só direção.
 
Filantropia: Como o senhor vê o papel do Instituto Paradigma, no Brasil, enquanto membro da Workability International?
FF: O Instituto Paradigma é bem relacionado e moderno, possui muitas idéias boas. Por trabalharem com a Workability International, há a possibilidade de aprenderem de forma mais rápida sobre a questão da empregabilidade de pessoas com deficiência. Porque o Brasil está tentando trazer uma mudança significativa em relação a esse assunto, é possível aprender muito pelas experiências de outros países.

Filantropia: Sabe-se que certas vezes as empresas têm preconceito em relação a funcionários com deficiência. O senhor acredita que essas pessoas são empregadas apenas por conta da legislação?
FF: Eu entendo essa atitude, porque todos nós somos assim. É uma postura familiar, uma postura de medo. Há a sensação de que o governo está impondo isso às empresas. É como se as empresas pensassem: “Já é difícil ter um negócio no mercado, e o governo ainda quer que demos emprego a essas pessoas?”.
É por isso que afirmo ser possível realizar um trabalho melhor com os empregadores pessoalmente, a fim de estender essa realidade do trabalho com deficientes. Mostrar-lhes que uma nova pessoa irá chegar ao ambiente de trabalho, e que ela possui necessidades especiais. Uma vez que isso acontece, o medo vai embora.
É muito importante realizar um trabalho nesse sentido, pois evita maiores problemas posteriormente. Os empregadores precisam chegar a um estágio em que percebam que o deficiente pode ser um bom funcionário, muitas vezes o melhor do setor. Mas eles não entram na empresa assim. Em um primeiro momento, eles chegam com medo de não saberem o suficiente. Daí a necessidade de desenvolver a idéia de conhecimento sobre o tema, para que todos na empresa aceitem essa situação. Em todos os países acontece isso; é a natureza humana.
Acredito que esse trabalho da empresa em relação ao deficiente não possui apenas o objetivo de criar uma oportunidade de trabalho para alguém com deficiência, mas, sim, uma oportunidade de desenvolvimento de carreira para um ser humano.

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