Financiadoras de um mundo melhor

Por: Patrícia Favalle
01 Setembro 2003 - 00h00
Entre o final da década passada e o ano de 2001, 9,9% dos brasileiros viviam com o equivalente a menos de US$ 1 por dia. O propósito é reduzir esse percentual à metade até 2015. “Apesar da pobreza ter começado a diminuir no início dos anos 90, isso ocorreu de modo desigual e ainda não tão rápido quanto o necessário para o Brasil atingir a primeira meta do milênio”, adverte o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2003, do IBGE.

Embora o Nordeste tenha conseguido redução considerável da pobreza, o documento afirma que apenas a região Sul deve cumprir o objetivo. Nos últimos dez anos, a miséria cresceu nos estados do Norte, saltando de 36% para 44%. Isso atenta para a realidade de milhares de pessoas continuarem vivendo à beira da marginalidade.

O desafio principal de toda sociedade é a criação de sistemas políticos, econômicos e sociais que promovam a paz, a generalização do progresso humano e o uso sustentável do meio ambiente.

Em outras épocas, a boa vontade de ajudar um ser humano ou preservar a natureza dependia única e exclusivamente de ações isoladas. O esforço de associações, fundações, instituições e ONGs muitas vezes esbarrava na questão financeira, sendo este o maior entrave para que os projetos fossem colocados em prática. Há tempos o governo dividiu tal responsabilidade com parte da iniciativa privada e com órgãos governamentais de países ricos, para que os empreendimentos ligados ao Terceiro Setor mantivessem o fôlego.

A partir de então, surgiram as agências financiadoras e o contexto mudou. A filantropia no Brasil ganhou ares bem mais profissionais. Hoje, entre os maiores desafios das entida­des estão a conservação, ampliação e diver­sificação de suas fontes de financiamento, a fim de garantir a própria independência e o cumprimento de sua missão.

Entre os maiores desafios das entidades estão a conservação, ampliação e diversificação das fontes de financiamento, a fim de garantir a independência e o cumprimento de sua missão

Experiências no Brasil

A história da BrazilFoundation é relativamente curta para o respectivo volume de trabalho. Tudo começou com o sonho de Leo­na Forman. Brasileira por opção, dedicou-se por mais de 20 anos à ONU (Organização das Nações Unidas). Depois de se aposentar, arregaçou as mangas e colocou em prática a idéia de ter uma fundação.

De tamanho empenho, a estimativa de investimentos para 2004 no País é de US$ 150 mil, arrecadados de brasileiros residentes nos Estados Unidos, capital destinado a 17 instituições atuantes nas áreas de educação, cultura, saúde, direitos humanos e cidadania. Ao todo, 895 projetos concorreram ao financiamento.

O critério de seleção é bastante rigoroso e inclui desde visitas às proponentes até entrevistas pessoais. Após a aprovação, a instituição passa a enviar relatórios trimestrais, além de responder a questionários periódicos abordando eventuais dificuldades.

Uma das vantagens do programa é que todas as entidades podem voltar a candidatar-se no ano seguinte, tendo apenas a obrigatoriedade de apresentar uma nova proposta. Na opinião da vice-presidente da fundação, Susane Worcman, esse sistema é mais simples, “pois não se parte do zero e permite estender o benefício”.

Pioneira, a Fundação Ford promove a filantropia desde 1936. Menos de duas décadas depois de ter sido criada, já estimulava ações sociais fora dos Estados Unidos. Ao todo, mais de US$ 10 bilhões em doações e empréstimos já foram realizados. Só no Brasil, US$ 13 milhões são repassados anualmente para centros de pesquisas e instituições civis.

Há 23 anos, a política de participação do Banco Mundial (BIRD) segue objetivo semelhante. A partir de 1995, quando o banco descentralizou parte significativa de sua atividade, tal política se intensificou. No Brasil, a atuação do BIRD foi beneficiada pela nova estratégia, que tem acelerado as ações voltadas para a divulgação de informações, diálogo e colaboração operacional.

Também no combate à pobreza e nas melhorias da eqüidade social nos países em desenvolvimento, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) exerce importante papel. Em 2002, 43 empréstimos, totalizando US$ 2,9 bilhões, foram aprovados e destinados a iniciativas de inclusão social.

Ainda com recursos obtidos pelo BID no valor de US$ 800 milhões, o Projeto Tietê entrou na segunda etapa. Desse montante, dois milhões serão destinados a cursos de educação ambiental coordenados pela Fundação SOS Mata Atlântica. O programa inclui a participação comunitária e a formação de lideranças ambientais e será executado por representantes de entidades do Conselho Estadual de Recursos Hídricos e dos Comitês de Bacia do Tietê. A luta pela recuperação do rio começou em 1991 com campanha realizada pela SOS e a Rádio Eldorado, que captou mais de um milhão de assinaturas em prol da limpeza do local.

Alcoa e seus projetos

A Alcoa tem motivos de sobra para se orgulhar. Desde o início da Alcoa Foundation, em 1952, a palavra “voluntário” ganhou novo sentido. No Brasil, já são 13 anos de sucesso com o Instituto Alcoa.

“A fundação sempre destacou-se por doações consistentes, envolvimento comunitário e sensibilidade à mudança dos tempos. O diferencial é buscar idéias e participação da nossa força de trabalho para ampliar a atuação junto às necessidades das comunidades em que a companhia mantém unidades de negócios, diz Alain Belda, presidente mundial da Alcoa.

Recém-criado, o Programa Bravo! é mais uma ação que visa estimular os funcionários a se dedicarem ao serviço no Terceiro Setor. A iniciativa premia com um cheque no valor de US$ 250 todo colaborador com mais de 50 horas de trabalho espontâneo, que deve ser repassado à instituição assistida.

“No Brasil, a expectativa de adesão dos funcionários é grande”, garante Suzana Sheffield, vice-presidente do Instituto Alcoa. “Só para se ter uma idéia do potencial do instituto, na sede de Poços de Caldas são sete mil funcionários. Se houver o engajamento de 15% em alguma atividade de voluntariado e forem completadas as 50 horas exigidas, pode existir um aporte de US$ 260 mil para entidades brasileiras, só através do Bravo!”, completa.

Cerca de 20% dos colaboradores da companhia possuem atividade voluntária e são eles os responsáveis por trazer os projetos para dentro da empresa. Só no ano passado, R$ 3,9 milhões foram destinados a 76 projetos selecionados a partir de sugestões encaminhadas pelos funcionários.

Já é fato no Brasil os dois anos de parceria entre o Hospital Universitário Materno-Infantil da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e o Instituto Alcoa: as metas de redução da mortalidade infantil no Estado estão sendo cumpridas. São sete mil atendimentos por ano, além de programas de conscientização sobre a importância do aleitamento materno.

Num investimento de quase US$ 45 mil, valor designado para infra-estrutura e aquisição de equipamentos, o Banco de Leite acolhe gestantes e bebês até o sexto mês de vida, além de recém-nascidos com as mães. O leite oferecido pelo banco é pasteurizado, não apresentando riscos de contaminação para o bebê receptor.

A responsabilidade social é, hoje, prioridade para o empresariado brasileiro. Para a adequação dessa nova exigência, surgiram institutos e fundações dentro das próprias corporações. Os funcionários foram incentivados a fazer parte do trabalho voluntário e ganharam status de parceiros.

Empresariado engajado

O Grupo Coimex abraçou a causa: criou a Fundação Otacílio Coser, cuja finalidade é a erradicação do trabalho infantil, visando a mobilização da sociedade. Seguindo tal filosofia, o Instituto Xerox e a Fundação Educar, mantida pela DPaschoal, estimulam a participação de crianças em eventos de caráter sócio-cultural.

A Educar garante a continuidade de projetos como o Aprendiz do Futuro e a Academia Educar. Já a Xerox, em parceria com a Comunidade do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, investe em idéias como a Fábrica de Livros e o Centro Cultural Cartola.

Na linha do crédito

Segundo análise da Receita Federal feita com base nas declarações do imposto de renda de 2002, o brasileiro ainda contribui pouco na área social. A média para doações de pessoas físicas é de R$ 23 por ano. Já as empresas gastam aproximadamente R$ 4 bilhões anualmente em segurança patrimonial e pessoal de seus executivos, e R$ 5 mil por mês em filantropia.

As principais razões para esse fato, apontam estudos, são a falta de projetos viáveis, de profissionais habilitados para a captação de recursos e de conscientização da população para a importância do segmento.

A sobrevivência do Terceiro Setor depende da participação efetiva das fundações nacionais e internacionais. Na hora de obter recursos, a maioria delas prefere um processo de solicitação padrão, geralmente disponível nos sites. Entretanto, pedidos feitos por telefone ou carta não são desprezados.

A regra é apresentar o projeto de forma clara e objetiva. É possível, com algumas dicas (vide acima), evitar os tropeços na hora de captar os recursos necessários.

Cultivando Iniciativas

Sustentabilidade é a palavra de ordem entre os ativistas. Com o desmatamento e a ocupação desordenada da terra, a preocupação com o meio ambiente tornou-se a principal bandeira de ONGs am­bientalistas.

“O país que desejamos é uma questão de atitude. Depende de gestos individuais, ações de boa cidadania e de responsabilidade empresarial” – com este discurso, Max Feffer, então presidente do Grupo Suzano, anunciou a criação do Instituto Ecofuturo.

Em quatro anos de existência, o Ecofuturo investe em obras sociais e de manejo correto do solo. O objetivo é que, em médio prazo, as iniciativas apoiadas sejam economicamente auto-sustentáveis.

O FUNBIO – Fundo Brasileiro para Biodiversidade – capta recursos em agências doadoras nacionais e internacionais e os distribui a ONGs, fundações e instituições que provem sua transparência e seriedade. Entre os beneficiados estão projetos do SOS Mata Atlântica, da Fundação Vitória Amazônica e do Instituto de Estudos Ambientais do Sul da Bahia.

Em 1990, a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza começava a dar os primeiros passos. Nesses treze anos de existência, inúmeras atividades foram realizadas, como a conservação de áreas naturais, o salvamento de animais e plantas em extinção e o despertar da consciência ecológica.

O Boticário investiga biodiversidade

O Parque Nacional da Serra do Divisor, no Acre, e a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza encontraram na preservação do ecossistema seu maior valor. Desde o final da década de 70, o objetivo do parque é atingir o desenvolvimento sem devastar o patrimônio nacional. A área, que contém espécies arbóreas (como o murumuru e o inajá) e onde habita a população indígena da tribo nukini, atrai pesquisadores também pela quantidade de fósseis contidos nas margens do rio Juruá. Embora o acesso ainda seja restrito ao público, há constante vigilância para a ocupação humana, extração indiscriminada de seringais, palhas e cipós, além do contrabando de animais domésticos.

Dicas na hora de captar os recursos necessários
  • O apoio deve ser conquistado. Todas as realizações conseguidas precisam ser divulgadas à comunidade.
  • A captação de recursos requer planejamento, pesquisa e estratégia.
  • É preciso estabelecer contatos com pessoas e organizações que podem ter interesse na sua entidade.
  • As pessoas não doam recursos sem que haja uma razão. É necessário solicitá-los.
  • Apenas pedir recursos é insuficiente: as pessoas oferecerão apenas se estiverem convencidas de fazê-lo.
  • Não aguarde um momento “oportuno” para captar recursos. Solicite-os assim que apresentar sua organização e projetos para um possível doador. Caso não consiga, tente descobrir a razão da objeção e tente contorná-la, ou aceite a negativa e siga adiante.
  • Muitas vezes os diretores que têm êxito na obtenção de fundos não os requerem diretamente, mas convencem outros para que os obtenham.
  • Você não pode decidir captar recursos hoje e os recaptar amanhã. A recaptação exige tempo, paciência e planejamento.
  • Trate os potenciais clientes e doadores como trataria os clientes fiéis em um negócio comercial. É essencial demonstrar como os possíveis clientes e doadores são importantes, tratando-os com cortesia e respeito.

Fonte: Tony Poderis (2002) e Dalberto Adulis. Site Filantropia.org

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