Jorginho

Por: Elaine Iorio
01 Junho 2006 - 00h00

      O Brasil ainda usufrui muito pouco do futebol, do esporte em si, como um meio de inserção social.” A afirmação de Jorge de Amorim Campos, o Jorginho, não se respalda apenas pelas conquistas em campo, mas pelo trabalho desenvolvido há seis anos no bairro de Guadalupe, na capital carioca.
       Inaugurado em 29 de junho de 2000, o Instituto Bola Pra Frente é uma iniciativa de dois tetracampeões, Jorginho e Bebeto, que utiliza o esporte para atrair crianças e jovens para o trabalho social, resgatando seus valores e ampliando as oportunidades. São atendidos anualmente 700 crianças e adolescentes, que participam de diversas modalidades esportivas, atividades culturais, recebem apoio pedagógico, preparação para o mercado de trabalho e acompanhamento social.
        Idealizador e presidente do instituto – e atual auxiliar técnico da Seleção Brasileira –, Jorginho revelou à Revista Filantropia os segredos que tornaram seu projeto social em uma iniciativa campeã.

Revista Filantropia: Quando e como foi o início de seu engajamento na área social?
Jorginho:
Em 1990, eu conheci na Alemanha um amigo chamado Altair Souza de Assis, que me falou sobre o projeto Centro de Cooperação para o Desenvolvimento da Infância e Adolescência (CCDIA), com sede em Niterói (RJ), do qual eu passei a ser vice-presidente. Minha missão era divulgar o trabalho na Alemanha, na busca por parceiros e investidores. Até que eu fundei o Bola Pra Frente e precisei me afastar do CCDIA, porque ficaria complicado participar das duas atividades.

Filantropia: Conte-nos sobre a fundação do Bola Pra Frente.
Jorginho:
Eu via muitos companheiros se envolverem com o tráfico de drogas e queria mudar essa realidade, levando a inclusão social para Guadalupe, onde eu fui criado. No início foi muito difícil, pois era eu que basicamente bancava o trabalho. Depois que a sede foi construída, com dinheiro próprio, eu percebi que era impossível manter o projeto sozinho. A captação de recursos aconteceu no momento em que as empresas viram os resultados. Logo no primeiro encontro sobre responsabilidade social, nós conquistamos o apoio da Claro. A partir daí as portas se abriram, e conseguimos outros apoiadores como Nike, HSBC, Nestlé.

Filantropia: Hoje, as empresas são o principal meio de captação de recursos da entidade?
Jorginho:
Sim, a iniciativa privada e uma fundação que eu, o Bebeto e um alemão criamos na Alemanha – que na tradução para o português seria Jogadores
de Futebol Profissional Ajudam Crianças. Ela capta recursos tanto para o Bola Pra Frente como para duas atividades na Índia e na Etiópia. Agora, nós lançamos uma grande campanha no Brasil chamada “Tô nesse time”, para que a gente possa conquistar também o apadrinhamento pela pessoa física. Além disso, todo ano nós passamos por um período de auditoria, que para mim é muito importante – porque querendo ou não é meu nome que está em jogo.

Filantropia: Explique a interação que o instituto faz entre o esporte e a educação?
Jorginho:
Nós montamos uma tecnologia social que traz o futebol para dentro da sala de aula. A criança aprende português, matemática, geografia etc. por meio da linguagem do futebol, com a qual ela se identifica muito. Nós nos preocupamos em dizer que o Bola Pra Frente não é uma escolinha de futebol – nós temos futebol, caratê, vôlei, futsal, mas também a parte pedagógica, cultural e de qualificação profissional. Só que o futebol, o esporte, é um meio fantástico para trabalhar a criança. É saudável, você pode disciplinar, corrigir, trazer o sentido de grupo. Existe um certo preconceito, mas tem muita coisa que a gente pode buscar no futebol, porém, eu também sei que só o esporte não vai conquistar tudo sozinho.
Filantropia: Quais são os próximos passos?
Jorginho: Nós estamos abrindo mais quatro novas unidades: duas no Rio de Janeiro, uma em Maceió e uma em Goiânia. Agora, o nosso desafio é estruturar
muito bem essas novas unidades. Outro desejo é expandir o projeto pelo Brasil, e quem sabe, com esse link forte com a Copa do Mundo de 2010, na África,
a gente possa estender a visão do projeto para outros países.

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