Entre o trabalho social e o cuidado: a comunicação

Por: Isabel Orestes Silveira
23 Janeiro 2015 - 00h49

Quem quer que seja pode falar sem cessar e a sua palavra
não dizer nada. Um silêncio, pelo contrário, pode dizer muita coisa
Heidegger

 

É sabido que a comunicação humana pressupõe convivência, relacionamento e nos remete ao pensamento ancestral de que o ser humano é também dependente de outros para sua sobrevivência enquanto espécie. Assumimos, então, que o homem é um ser dotado de inteligência e que se desenvolve num contexto sócio-histórico, ou seja, ele sente a necessidade de estar em grupo e, por isso, em qualquer aspecto do convívio humano, as inter-relações acontecem conforme cada indivíduo estabelece suas trocas num jogo de ações comunicativas em que se destaca a linguagem (verbal e não verbal).
Então, é valido considerar que habitamos um mundo já ocupado pela linguagem, e é isso que dá sentido à vida e ao sentimento de participação e pertencimento ao meio. Somos, nesse aspecto, seres reflexivos que partilham pela fala da experiência de viver com o outro. Esse ponto de vista nos leva a perceber que a comunicação é mais que interações entre indivíduos que se colocam em diálogo, pois se trata de uma ação dinâmica intersubjetiva, que se constitui no falar.
A comunicação se firma como elemento essencial para a promoção da saúde, do cuidado com o próximo e da manutenção de vida. O objetivo desta reflexão é apontar para uma visão mais alargada dessa prática, a qual supera a visão simplista e instrumental que valoriza os difusores de sinais como jornal, revistas, publicidade, internet, entre outros, que apontam para a comunicação como processo de transmissão de informações de um emissor para um receptor.
A intenção, neste curto espaço, é estimular a compreensão da necessidade de se manter a sensibilidade ética (do grego, ethos, que pode também significar “costume”) no cuidado com o outro na relação comunicativa, especialmente quando estamos inseridos num universo que também carrega o título de ser uma entidade cujos fins são de Assistência Social.
Nesse sentido, só pode haver comunicação efetiva quando o sentimento é possível de ser transmitido. Refiro-me à ética do cuidado, da escuta sensível, da aproximação amorosa com o outro, que se torna um desafio ao tentarmos combinar a tríade trabalho social, cuidado e comunicação.
Trabalho social, cuidado e comunicação
O fazer cotidiano institucional transpira trabalho, porém, quando todos os colaboradores compreendem o sentido dessa relação com os conceitos de Assistência Social, podem cumprir sua função pública, mas também pedagógica, que passa pelo viés comunicativo. Saber dialogar, saber falar, saber ouvir, saber compreender e desenvolver a tolerância implica em sentimentos éticos do ser humano para com o outro. Quando se perde esse foco, as instituições de Assistência Social correm o risco de promover situações de “descuidado”, pois o cuidado é, antes de mais nada, afeto, acolhimento, cordialidade e respeito. É agir em prol da melhoria do eu e do outro.
Esse modo de ser esbarra no trabalho da Assistência Social, que deve trazer na sua essência constitutiva a preocupação com a pessoa humana, visto que estamos vivendo um contexto generalizado de descaso nas relações interpessoais.
Ao longo do percurso histórico, muitas ações filantrópicas no Brasil viveram um passado calcado na visão da miséria como condição dita natural da sociedade e não como resultado da desigualdade capitalista. A base desse pensamento resultou numa lógica conservadora e assistencialista em que, na prática, mantinha-se a conservação da pobreza, além da visão de cima para baixo ou da visão de tutela; dito de outro modo: uns recebiam ajuda ao passo que outros a ofereciam.
Atualmente, as instituições que operam a Política Pública de Assistência Social devem, sobretudo, demonstrar a concepção do direito social a todos, tendo como exigência permanente a transparência sobre a aplicação do fundo público e seus destinos em prol do atendimento efetivo das demandas coletivas.
Assim, pensar em trabalho social aliado à comunicação é fundamental para a manutenção de uma ética do cuidado. Vale destacar que a comunicação interna, ou seja, entre os agentes/funcionários da empresa, é e deve ser prioritária, no âmbito das práticas administrativas ou nas demais áreas da organização. A falta desta resulta em tomadas de decisões errôneas, além de gerar um clima desfavorável em todos os aspectos. O que desejo reforçar aqui é o fato de que a comunicação assertiva fortalece a cultura organizacional e evita a deterioração das relações interpessoais, além de promover a melhoria da imagem da empresa perante seu entorno.
A palavra comunicação é originária do latim, communicare, que significa “tornar comum”, “partilhar”, “repartir”, “associar”, “trocar opiniões”. Comunicar implica em communicatio (participação) ou troca de mensagens. Uma boa comunicação favorece o bom andamento da missão da organização por meio de uma administração democrática e participativa.
Segundo Matos, no que se refere ao modo de relacionamento entre pessoas num grupo de trabalho, a eficácia na comunicação é determinada pela forma como as diferenças são encaradas e tratadas. Por exemplo: se houver no grupo respeito pela opinião do outro; se a ideia de cada um é ouvida e considerada; se os sentimentos puderem ser expressos sem repreensão ou ironia, então o relacionamento entre as pessoas tenderá a ser mais espontâneo e sincero diferente daquele em que não existe troca de informações e aceitação do outro. Com certeza, o grupo sairá ganhando, ou seja, todos se sentirão respeitados e considerados.
Se a comunicação sempre deve ser aberta, no intuito de fortalecer a interação entre as pessoas dentro da organização, e se acreditamos que a comunicação impulsiona o desempenho dos funcionários, será muito relevante, a ação comunicativa da instituição no trato com o público-alvo, ou seja, com aqueles que são assistidos no âmbito social.
Segundo Matos, a comunicação tem a força e o poder de erguer e desfazer reputações pessoais, organizacionais e institucionais. Ela pode definir os destinos político, econômico e social de um país e tem o poder de impor o medo e disseminar a paz. A comunicação pode motivar e desmotivar pessoas, grupos e até mesmo nações.
Mais do que compreender que a comunicação é vital para o fortalecimento da imagem da empresa, para a captação de recursos etc., vale considerar que é de igual modo vital e cada vez mais necessária uma comunicação para fora, ou seja, para com os que se relacionam e são alvo do trabalho da instituição, para quem os serviços devem ser prestados.
Todo trabalho social carrega a dimensão interventiva que supõe uma profunda interação entre o fazer e o saber. Exigem-se, então, do profissional, conhecimento e competência — metodológica, técnica e interventiva — que contribuam para o eficiente atendimento das demandas, tendo em vista que, segundo Dejours, o trabalho desempenha um papel essencial de formação do espaço público, pois trabalhar não é tão só produzir: trabalhar é ainda viver junto. E o que é viver junto, senão viver na dimensão do communicare, da participação, do compartilhamento e do cuidado com outro?
No exercício profissional ou ao aproximar-se do cotidiano dos diferentes grupos ou das famílias, nos momentos de reuniões, visitas domiciliares, entrevistas, encaminhamentos e outras ações, o profissional consegue aproximar-se do dia a dia das pessoas para traçar planejamentos e intervenções. No entanto, o excesso de objetividade, do racionalismo pragmático, pode gerar a incomunicabilidade. Dito de outro modo, o aparato de instrumentos e técnicas, bem como o domínio do conhecimento e a atuação coerente e comprometida do profissional, não substitui a força da comunicação que funciona como ação terapêutica, porque inclui troca de sentimentos.
Segundo Marcondes, há um momento no processo comunicacional em que há o estalo, há o impacto de quem constata o “a-há”, um momento em que o outro enfim percebe, sente o que estou dizendo, entende vive como eu, complementa o que eu dizia, participa desse mesmo mundo. Somos arrebatados, misturamo-nos no outro. Operou-se aí uma mudança qualitativa em nós.
É preciso que, de alguma maneira, a experiência do trabalho impulsione o profissional na direção do outro pelo trato amoroso, com a escuta atenta, enfim, com empatia. Assim, a comunicação plena será possível e se dará no contexto do olhar nos olhos, no gesto afável, nas palavras que são ditas com interação e sentimento.
Apontamentos finais
A eficácia do trabalho social requer um engajamento ativo do profissional que se espera, sobretudo, deva saber gerenciar as adversidades, além de prever o planejamento de ações que venham a construir um projeto de vida digno e emancipatório.
Espera-se que o profissional tenha como alvo o cuidado com o outro, que se inicia pela forma como se articulam as aproximações que devem estar permeadas por vínculos de confiança e de cooperação.
Nesse sentido, entre o trabalho social e o cuidado com o outro, ainda permanece o desejo de transformação da realidade, que, apesar de parecer utópico, pode ser almejado quando se compreende a dimensão da comunicação sensível que nasce e progride na intenção de transcender a rotina ordinária.
Tentamos apontar para o fato de que, no ambiente interno das organizações filantrópicas e fora delas, a comunicação deve ser um recurso facilitador que possibilite a busca cotidiana de melhorias na vida para todos. Mais do que isso, que a comunição se configure no encontro, na aproximação altruísta que caminha sempre na direção e no contato com o outro.

 

Referências
DEJOURS, Christophe. A metodologia em psicopatologia do trabalho. In: LANCMAN, Selma; SOUDANT, Franck (Orgs.). Christophe Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2004. p. 47-104.
HEIDEGGER, Martin. Língua de tradição e língua técnica. Tradução de Mario Botas. Lisboa: Vega, 1995.
MARCONDES FILHO, Ciro. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus, 2004.
MATOS, Gustavo Gomes de. Comunicação empresarial sem complicação: como facilitar a comunicação na empresa, pela via da cultura e do diálogo. 2. ed. Barueri: Manole, 2009.

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