Educação para uma saúde solidária

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Novembro 2004 - 00h00

“Cuide-se bem,
Eu quero te ver com saúde
E sempre de bom humor e com boa vontade...”

Se o Programa de Educação e Saúde Solidária (Pess) tivesse um hino, seria a música intitulada Cuide-se bem, cujo pequeno trecho foi reproduzido acima. Criada em Natal, capital do Rio Grande do Norte, há aproximadamente 4 anos, a iniciativa tem como missão apoiar, criar e promover ações para capacitar pessoas que atuam nas áreas de educação e saúde, tendo como perspectiva a visão integral do ser humano.
O Doutor Hunter Patch Adams, médico que teve seu método projetado mundialmente após o lançamento do filme O amor é contagioso, estrelado por Robin Williams, certamente estaria de acordo com a diretriz do Pess. Isto porque Patch Adams defende, há mais de 30 anos, uma forma diferenciada de estabelecimento de relações interpessoais, especialmente aquelas ligadas à área da saúde. De forma muito sensível e inteligente, Adams viaja o mundo dizendo que, quando o foco é a doença, é possível ganhar ou perder. No entanto, também afirma que, quando o ser humano é tratado de forma integral, o único resultado possível é a vitória, não importando qual o desfecho do caso. Observando-se as ações promovidas pelo Pess, notadamente os seus encontros com profissionais e estudantes, percebe-se um alinhamento evidente com a parcela – felizmente cada vez maior – de pessoas determinadas a vencer o pior de todos os males: a indiferença.

Reunir e capacitar pessoas

O principal esforço dessa organização social sem fins lucrativos concentra-se na realização de encontros que reúnem profissionais da área da saúde e educação, para que se crie um clima favorável à humanidade e à solidariedade, em atividades importantes para a dinâmica social. Segundo Diana Ribeiro Dantas, médica e vice-presidente do Pess, “educadores mais atentos e preocupados com o futuro de seus discípulos, assim como médicos e enfermeiros – entre outras funções – conscientes de seu papel de acolhimento em momentos agudos, certamente podem construir os pilares essenciais de um ser humano. Mas quando não atuam corretamente, podem ceifar potenciais e vidas precocemente”.
Em meados de setembro, representantes do Canto Cidadão – organização responsável por este espaço na Revista Filantropia – foram convidados pelo Pess para apresentar uma palestra na primeira edição da Semana da Humanização na Saúde, Educação e Segurança, e ficaram motivados a apresentar a fórmula utilizada por acreditar que esta pode ser replicada em muitos outros locais, devido a sua combinação de simplicidade e eficiência.
A iniciativa de realizar tais encontros não nasceu de órgãos oficiais, e sim de um grupo de pessoas que se estruturou, organizou os primeiros eventos e, depois, decidiu fundar o Pess. “A idéia é inovadora, pois essa visão humanística é deficiente nas escolas e universidades, com formação de profissionais voltados para um mercado de trabalho competitivo, em vez de cooperativo e pronto para atender às necessidades da comunidade. Precisamos de competência e habilidades éticas, políticas e de autodesenvolvimento”, informa Diana.
Os encontros na área de educação são voltados para profissionais e estudantes da área, assim como para interessados. A finalidade é a redescoberta dos valores humanos universais na educação integral, uma vez que, na visão dos organizadores, o verdadeiro educador é aquele que prepara o ser humano para a vida, de modo que possa exercer sua profissão como um todo.
Já os encontros na área de saúde têm como finalidade a difusão de uma medicina integrativa, humanística e consciente, baseada na medicina hipocrática, na qual o ser humano é constituído por um corpo físico, mental, espiritual, além de possuir uma força curativa interior. “Os temas abordados procuram mostrar a medicina como ciência, arte, filosofia e espiritualidade, assim como evidenciar a necessidade na reforma de ensino em nossa área. Batalhamos bastante para trazer médicos e estudantes de medicina, uma vez que o Pess percebe que esses grupos possuem deficiências na visão humanística, e têm dificuldades em trabalhar em equipes multiprofissionais e transdisciplinares, além de exercerem a medicina de forma mecanicista ou cartesiana”, aponta a vice-presidente da entidade.

Passo a passo

Definido o tema central dos encontros, a organização elabora uma programação que atenda a interesses multiprofissionais, com a definição de palestras, vivências e debates importantes para alcançar os objetivos propostos. Os palestrantes são escolhidos por seus conhecimentos científicos e por sua capacidade de enxergar o tema proposto de forma holística. Dessa forma, conta Diana, “escolhemos um local apropriado para o evento e buscamos o apoio de órgãos públicos e empresas particulares, ao mesmo passo que já damos início à divulgação do evento. Pela boa receptividade que estamos encontrando, presumimos que os temas humanização e solidariedade tocam bem fundo o coração das pessoas”.
O impacto dos encontros se verifica em vários níveis: pessoal, familiar, comunitário e laboral. Ao observar os aspectos pessoais, verificam-se transformações oriundas do chamado à responsabilidade interior. Na família e na comunidade, há uma promoção da consciência das responsabilidades sociais, educativas e no desenvolvimento da humanização e educação solidária. Em termos laborais, os profissionais envolvidos têm a oportunidade de fazer uma auto-avaliação, redescobrindo o verdadeiro papel de sua ocupação. Como lembra Diana, “ninguém cura ninguém e ninguém se cura sozinho, as pessoas se curam no encontro. E mais, ninguém ensina a ninguém e ninguém aprende sozinho, as pessoas aprendem no encontro”.
Além do formato de encontros, a entidade colabora com participações freqüentes em atividades ligadas a instituições de saúde. Um exemplo é o Programa de Assistência e Cuidados da Hipertensão Arterial do Hospital Universitário Onofre Lopes da UFRN, o “Pacha”. Nessa iniciativa, o Pess colabora nas reuniões semanais intituladas Terça da Educação e da Paz, assim como nas Caminhadas Mensais, no projeto Hidro na Praia e nas atividades festivas anuais como festa junina, comemoração natalina e outras.
Outro exemplo é a parceria com o Programa de Humanização do Hospital Giselda Trigueiro (HGT) da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte. Dessa parceria resultam projetos como o Conte Comigo, A Arte como Reintegração Humana e Auto-Estima, todos eles orientados para a promoção do bem-estar de freqüentadores hospitalares, assim como a sensibilização de profissionais.
O conjunto de ações coordenadas desse grupo de profissionais voluntários do Pess, que dedicam parte de seu tempo e conhecimento para promover a melhoria dos resultados de sua profissão, tem um papel social considerável, pois causa um movimento positivo que motiva os colegas a renovarem suas formas de pensar e agir, ao mesmo tempo que contribui para que os estudantes se formem conhecendo outras maneiras de cumprir seu papel. Sendo assim, que cada vez mais pessoas cantem:
“Cuide-se bem!
Pra nunca perder esse riso largo,
E essa simpatia estampada no rosto.”

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