Educação do Futuro

Por: Thaís Iannarelli
21 Junho 2013 - 22h01

Perspectivas e realidades para a educação no Brasil e no mundo para os próximos anos

Sala de aula, giz, quadro negro e professor à frente de carteiras e alunos enfileirados. Até hoje, em plena segunda década do século 21, este é o modelo utilizado na maioria das escolas do Brasil, sejam particulares ou públicas, para levar o conhecimento às crianças e aos adolescentes que frequentam a instituição. Ainda que a tecnologia esteja presente nas escolas – 47% dos jovens pesquisados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil afirmam usar a rede mundial de computadores todos os dias, sendo que 42% dizem acessá-la na escola –, mesmo com as mudanças emblemáticas nos meios de comunicação e nas formas de acesso à informação, o modelo tradicional ainda é o preponderante no país. Com esta realidade, o Brasil ficou em penúltimo lugar no ranking global envolvendo 40 países realizado no final de 2012 pela Pearson, empresa internacional de educação, à frente apenas da Indonésia.
Em se tratando de Brasil, a questão da educação traz diversos tipos de problemáticas. Além do modelo ultrapassado, existe ainda a preocupação com a qualidade do ensino e com o próprio conteúdo ensinado aos alunos. Por isso, em tempos tão modernos que provêm o acesso facilitado a tantos meios de informação e interação entre as pessoas – de todas as faixas etárias –, começamos a pensar a educação do futuro: como iniciativas inovadoras e diferenciadas podem, de fato, dar à palavra “educar” o seu verdadeiro sentido?

Para começo de conversa...

...O que significa educação? Além de ser o processo de desenvolvimento das faculdades físicas, intelectuais e morais do ser humano, também engloba hábitos, costumes e valores dos indivíduos. O acesso ao ensino escolar formal faz parte do processo educativo, e é um direito fundamental do ser humano. “Nos últimos 10 a 15 anos, o Brasil avançou muito na questão do acesso. Hoje, 92% das crianças estão na escola. Em relação ao ensino médio, somente 80% dos jovens de 15 a 17 anos vão à escola, e o maior desafio deste período é reter o aluno. Questões como currículo defasado e ensino médio noturno impedem que o aluno comece e termine o processo. Mas o acesso à escola tem avançado continuamente no país”, explica Andrea Bergamaschi, gerente de projetos do Todos pela Educação.

Educação no Brasil

Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o Brasil subiu 33 pontos entre os anos de 2000 e 2009, mas ainda assim está no 54º lugar em um ranking com 65 países. O país teve a terceira maior evolução nas médias de 65 nações, mas ficou abaixo deste patamar em matemática, que ainda é o ponto mais fraco dos brasileiros. De 2000 para 2010, de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de crianças de 7 a 14 anos que não frequentavam a escola caiu de 5.1 para 3.1% no Brasil. Porém, de acordo com o Todos pela Educação, 34% dos alunos que chegam ao 5º ano de escolarização ainda não conseguem ler, e 20% dos jovens que concluem o ensino fundamental e moram nas grandes cidades não dominam a leitura e a escrita.

E o futuro?

Afinal, o que queremos dizer com “educação do futuro”? Ela pode ser considerada justamente uma educação que consiga, de forma eficiente, envolver os estudantes e torná-los continuamente interessados por temas que formem o ser humano não só intelectualmente, mas também para a vida em sociedade. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Sindicato dos Professores de São Paulo, intitulada “A Educação nos Próximos 10 Anos – Perspectivas para a Educação Privada no Município de São Paulo”, que mapeou as mudanças na educação brasileira sob o olhar dos professores, os docentes acreditam que a educação será mais privatizada, e o ensino de qualidade será cada vez mais elitizado.
Dentre os professores consultados, apenas 21% dos que atuam na educação básica e 11% do ensino superior acreditam que a educação será melhor daqui a uma década; 33% dos professores da educação básica e 19% da educação superior indicam que isso depende de políticas públicas, investimentos, engajamento da sociedade, dos pais, valorização dos professores, fiscalização dos cursos de formação de docentes, entre outros.
O resultado desta pesquisa mostrou que a formação é o ponto de maior preocupação entre os professores. Muitos fazem cursos de atualização por conta própria, sem apoio da instituição de ensino. E a questão da qualidade é imperativa para que a educação do futuro possa ser de fato colocada em prática. “O problema da qualidade é muito grave. Basicamente estamos olhando os alunos passarem pela escola e não aprenderem para poderem se desenvolver plenamente como seres humanos, cidadãos. Atualmente, esta é nossa maior questão, que vai acabar impactando na economia do país”, complementa Andrea.

A tecnologia é a porta de entrada – mas precisa ser bem utilizada

É claro que não se pode falar de como será a educação no futuro sem mencionar a tecnologia. Estamos em um período de intenso e rápido desenvolvimento tecnológico, que mudou muito nosso modo de vida nos últimos anos. As tecnologias, que pouco tempo atrás vinham separadamente – celular, internet, computador, MP3, câmera fotográfica –, hoje estão todas integradas em um tablet ou smartphone, por exemplo. Os jovens da geração Y já nasceram em meio à realidade da internet, e hoje convivem com esses equipamentos naturalmente. Por isso, é inevitável que essas ferramentas afetem a educação.
Sim, é verdade que as tecnologias também chegaram às escolas, mas principalmente no que tange a modernização da infraestrutura e da gestão escolar. Progressos na educação on-line e à distância também aconteceram. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) legalizou a educação à distância, que passa a não mais ser considerada inferior em relação à presencial. Mesmo assim, o modo presencial de ensino ainda é preponderante no país.
Com o acesso facilitado à internet, os alunos ampliam muito o conceito de ensino-aprendizagem. É possível aprender de diversos lugares, sendo a escola um ponto de referência para discussão e integração — e não mais um local onde só o professor fala e os outros escutam. O acesso ampliado à informação mune o aluno de informação até mesmo antes de o professor ensinar sobre o tema. Segundo artigo de Luiz Gonzaga Bertelli, presidente do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), “enquanto crianças brasileiras se reúnem em salas de aula para aprender a ler e escrever e fazer contas de aritmética — ainda que com altos níveis de deficiência —, em algumas escolas primárias da Inglaterra as atividades estão mais avançadas. Os alunos aprendem a linguagem dos computadores, começando com exercícios de linguagem básica aplicados a um jogo, e depois interagem com os comandos. A justificativa é: as crianças de hoje nasceram e vão viver na era digital, e nada mais natural do que formar desde pequenos esta identidade. Para os especialistas ingleses, a intenção é formar pessoas mais criativas e preparadas para o futuro”.
O problema a ser vencido no Brasil consiste na quebra da tradição da maioria das instituições de ensino. É fato que os alunos de hoje estão prontos para aprender com ferramentas multimídia, mas nem todos os professores se sentem confortáveis para incorporá-las à aula. Isso porque na maioria das vezes os alunos dominam mais as tecnologias do que o próprio professor, que não se sente à vontade para demonstrar tal dificuldade. Não basta munir a escola com computadores e internet; é preciso que estas ferramentas possam ser aproveitadas pelo professor e pelo aluno, sendo que o primeiro precisa da formação continuada e especializada para que possa fazer isso.
Mantendo os padrões tradicionais, é cada vez mais difícil envolver o aluno no tema a ser tratado. A educação do futuro consiste em envolver esses estudantes no processo participativo; que os cursos passem informação pré-estabelecida, mas que, durante o processo, novos temas possam ser introduzidos e propostos pelos alunos.

Despertando participação e interesse

A educação do futuro deve despertar esses sentimentos em quem busca aprender: participação e interesse. E foi com base nisso que Salman Khan, criador da Khan Academy, tornou-se um fenômeno de acessos no YouTube. Khan tem o dom de ser educador, e é formado em matemática, engenharia elétrica e ciências da computação, além de ser mestre também em ciências da computação. Seu trabalho começou despretensiosamente. Seus primos mais novos moravam em outro estado dos Estados Unidos e estavam com dificuldades para aprender matemática. Por conta da distância, Khan postou alguns vídeos no YouTube para ajudar os primos com a matéria e, quando percebeu, o vídeo tinha milhões de views.
Foi assim que ele teve a ideia de criar a Khan Academy, que disponibiliza vídeos gratuitos sobre temas de ciências, matemática, química, física, economia e história. A instituição não cobra pela distribuição de conteúdo, e se sustenta por meio de doações. Hoje, são mais de 4 mil vídeos gravados por ele e assistidos por milhões de pessoas do mundo todo (de todas as idades). Os vídeos são narrados por Khan, que explica de forma acessível questões complicadas de aritmética e química, por exemplo. Para ele, o motivo do sucesso dos vídeos é que “as pessoas podem pausar e continuar a assistir o vídeo quando quiserem. Elas podem assistir várias vezes, sem sentir que estão fazendo o professor perder tempo nem ficar com vergonha de pedirem que repita uma explicação”, conta Khan. Para ele, quando alguém entra em contato pela primeira vez com algum assunto, e está tentando aprendê-lo, a última coisa que se quer é outra pessoa questionando: você entendeu? Com os vídeos, não há este tipo de pressão.
A iniciativa de Khan mudou a mentalidade de vários professores nos Estados Unidos, que já aplicam seus vídeos na sala de aula. “Recebi um e-mail de um grupo de professores que disseram que usaram meus vídeos para mudar a classe. Então os alunos assistem à explicação em casa, nos vídeos, e no dia seguinte, o que costumava ser lição de casa torna-se atividade de classe. É interessante porque, além do benefício óbvio de os alunos assistirem aos vídeos, pausarem, voltarem e repetirem, aquela aula que antes era um professor falando e 30 alunos ouvindo, muitas vezes sem entender, tornou-se uma atividade humanizada. Agora os alunos fazem as atividades juntos, em grupo, interagindo e gerando discussões sobre o tema”, explica Khan.
No evento InovaEduca 3.0, realizado em março no Recife, o consultor e professor da Universidade de Nova York, Jim Lengel, disse que as salas de aula precisam mudar radicalmente nos próximos anos. Especialista em educação 3.0, ele acredita que deva existir novas configurações de espaços de aprendizagem em grupo, individualmente, na rua, na biblioteca, em ambientes on-line, em horários alternativos e mais independentes. “Será que os estudantes de hoje estão sendo preparados para sobreviver nos espaços de trabalho atuais? Eles saberão usar todas as ferramentas necessárias para chegar à informação? Estão preparados para resolver problemas complexos? Saberão trabalhar em grupo de forma colaborativa? Ao que parece, as salas de aula atuais ainda seguem um modelo ‘linha de produção’, criado durante a Revolução Industrial e que já não corresponde mais às demandas contemporâneas”, disse Jim.
Previsões para o futuro
Hoje, a educação passa por várias mudanças causadas pelo desenvolvimento tecnológico. Mas a tecnologia deve ser somente uma ferramenta para que a mudança seja de fato instaurada. Michell Zappa é um futurista brasileiro que ficou conhecido ao importar tendências de tecnologia para diversas áreas. Uma de suas produções trata da educação, e é um infográfico, feito originalmente em inglês e traduzido para o português pelo Porvir, que objetiva organizar uma série de tecnologias emergentes que podem influenciar a educação nas próximas décadas.
Na proposta, Zappa traça uma linha do tempo até 2040 com seis temas centrais que se subdividem, entrelaçam-se e apresentam-se em três espaços diferentes: as salas de aula, dirigidas pelo professor unidirecionalmente; as oficinas, ambientes de ensino-aprendizagem entre pares e grupos; e os ambientes virtuais, espaços de discussão que não envolvem a presença física dos participantes.

Exemplos inovadores

Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais – GENTE
O projeto piloto GENTE, que se apropria integralmente de tecnologias e inovação pedagógica para colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, tem sua primeira atuação na Escola Municipal André Urani, na Rocinha, Rio de Janeiro. O novo modelo foi idealizado pela prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Educação, e é realizado com o apoio do Instituto Natura.
A proposta consiste em mudar o conteúdo, o método e a gestão: não há turmas, anos ou salas de aula. Tablets e smartphones compõem o material escolar dos alunos e docentes. A plataforma didática Educopédia é utilizada para desenvolver habilidades e competências por meio de aulas digitais, e as provas são aplicadas por meio do sistema Máquina de Testes, que traz resultados imediatos e correção automática. O papel do professor também é diferenciado, já que ele age como um arquiteto, garantindo a personalização do processo de aprendizagem para que ninguém seja deixado para trás. A concepção do modelo foi baseada em tendências mundiais de práticas inovadoras. O projeto piloto nesta escola terá duração de um ano e passará por um processo de sistematização.

Objetos de Aprendizagem em Sala de Aula:

Recursos, Metodologias e Estratégias para a Melhora da Qualidade do Ensino
Realizado pelo núcleo de ensino da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o projeto mostrou que o uso de ferramentas tecnológicas educativas melhoram em 32% o rendimento dos alunos em matemática e física. Para realizar o projeto, foram realizadas aulas expositivas e atividades que contavam com recursos tecnológicos; estes possibilitavam a interação com o conteúdo por meio de animações, simulações e jogos. Em um dos jogos, que ensinava análise combinatória, os alunos precisavam avaliar quantas possibilidades de roupa uma garota poderia usar para sair.
A pesquisa mostrou que os estudantes com menor desempenho em sala de aula obtiveram maior rendimento com o uso das ferramentas tecnológicas. Quem tinha média 5 ou menos melhorou em 51% seu desempenho em física e matemática. Aqueles com média acima de 5 melhoraram cerca de 13%. A pesquisa foi realizada durante dois anos e avaliou o desempenho de 400 estudantes de oito turmas de 2º e 3º anos do ensino médio da escola estadual Bento de Abreu, em Araraquara, São Paulo.

Escola Básica da Ponte

Este exemplo está situado em S. Tomé de Negrelos, distrito do Porto, em Portugal. Esta escola foca nas práticas educativas que fogem do modelo tradicional. Está organizada segundo uma lógica de projetos e de equipe, estruturando-se a partir da integração entre seus membros. Toda sua estrutura exige mais participação dos alunos, com a intenção de que eles participem efetivamente em conjunto com professores no planejamento das atividades.
Não existem salas de aula tradicionais, mas espaços de trabalho onde estão disponíveis diversos recursos, como livros, dicionários, gramáticas, internet, vídeos, ou seja, várias fontes de conhecimento. A dinâmica deste projeto promove a autonomia responsável e solidaria, exercitando o uso da palavra como instrumento da cidadania. A organização colocada em prática nesta escola surge de uma filosofia inclusiva e cooperativa baseada no seguinte conceito: todos precisam aprender e todos podemos aprender uns com os outros; quem aprende, aprende a seu modo no exercício da cidadania.

Dicas de ferramentas on-line

Conheça algumas ferramentas educacionais que podem mudar o dia a dia na sala de aula

Widbook – plataforma para escrever livros, compartilhar histórias e adicionar fotos e vídeos. É possível convidar amigos para escrever com você
www.widbook.com
KhanAcademy – citada na matéria, a instituição disponibiliza mais de 4 mil vídeos com aulas de matemática, química, física, economia e história
www.khanacademy.org
YouTubeEDU – várias instituições de ensino de todos os níveis contribuem com a divulgação de vídeos educacionais e aulas em diversas áreas do conhecimento
www.youtube.com/education
ToonDo – A ferramenta pode ser utilizada pelos alunos para fazer histórias em quadrinho e criar seus próprios livros
www.toondo.com
Scratched – desenvolvido pelos programadores do MIT, a página tem linguagem específica para que as crianças possam criar seus próprios desenhos, jogos, histórias interativas e muito mais. Possui parte do conteúdo em português
http://scratched.media.mit.edu/
Founding Dreams – com conteúdo em português, disponibiliza recursos para diferentes áreas acadêmicas, especialmente matemática
http://www.e-learningforkids.org/

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