Economia Solidária

Por: Antonio Carlos Rocha.
01 Julho 2004 - 00h00

Fonte: www.cidadania.org.br

O mercado não vai consumir produtos, de forma que gere sustentabilidade, apenas porque foram feitos por grupos de pessoas organizadas solidariamente, residentes em regiões carentes, ou apenas porque foram utilizados insumos naturais ou reciclados. Esses são requisitos importantes na decisão e escolha de alguns tipos de produtos, como alimentos, utensílios, vestuários e cosméticos produzidos por associações e cooperativas de produtores orgânicos. No entanto, não são premissas suficientes para inserir os produtos em mercados competitivos, onde existem compradores de maior nível de renda, geralmente exigentes em relação à apresentação, qualidade, preço, quantidades disponíveis, regularidade, disponibilidade, conceito e marca do produto.

Iniciativas para o desenvolvimento

No Brasil tem sido difundida e estimulada a prática da economia solidária, que objetiva a formação do capital social; criação de produtos mais saudáveis; inserção em mercados; criação de oportunidades; geração de ocupação e renda, e progresso de regiões mais carentes de forma solidária e cooperada, como base para promover o desenvolvimento econômico e social local de maneira sustentável.

Essa prática evolui para a criação de cooperativas de produção e crédito, que começam a adotar instrumentos de planejamento, organização da produção, uso de tecnologias, gestão compartilhada e estratégias de comercialização mais modernas, com apoio de órgãos, como o Sebrae, e governos estadual e federal. Tais órgãos implantam programas de sucesso, como o Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável (DLIS), sistema do micro-crédito, programas de gestão pública e cidadania, entre outros.

Muitas dessas iniciativas são trabalhadas em conjunto com atores locais, instituições públicas municipais, universidades, empresas e organizações não-governamentais. Mesmo assim, as regiões que adotaram a estratégia da economia e produção solidárias ainda não atingiram níveis satisfatórios de evolução econômica e social de maneira sustentável, até porque a prática ainda é recente no Brasil.

Diversos fatores socioeconômicos influenciam e necessitam ser trabalhados para que esse desenvolvimento seja alcançado por essas áreas menos favorecidas. Um deles é a sensibilização de seus participantes para uma atuação e gestão solidária. Pessoas em estado de carência mais acentuado têm dificuldades em conviver e produzir continuamente num sistema associativista. Normalmente, o princípio do empreendimento e sua implantação aconte-

cem por meio de algum parceiro institucional, que pode ser uma ONG, universidade ou algum agente do governo e de desenvolvimento. Quando esse parceiro se afasta, muitas vezes o empreendimento pára.

O modelo institucional também influencia na continuidade do empreendimento. Para algumas comunidades mais remotas, o início é mais complicado funcionar em um sistema de cooperativa. Talvez o mais sensato seria começar como uma associação que trata de questões sociais, como cidadania, educação, capacitação profissional e produção. Outros pontos fundamentais são o desenvolvimento do conceito, do produto gerado na localidade e a inovação na forma de atuar.

Preparação do produto

Muitas empresas de produção solidária apenas aproveitam os produtos naturais de uma determinada região, sem desenvolver o “algo mais”, ou seja, um conceito inovador que desperte o interesse pelo produto e que possa levá-lo ao mercado.

São conceitos como: produtos orgânicos; produtos elaborados com traços da cultura local; arte e cultura indígena; aproveitamento de materiais; uso de madeiras nobres sem agressão ao meio ambiente; controle de qualidade e uso de tecnologia aliados a um design moderno e atual. Lembrando ainda que embalagem adequada e marca própria agre-

gam valor ao produto na localidade, conseguindo melhor margem, aumentando e apropriando a renda local. Outro fator-chave de sucesso é a questão da colocação do produto no mercado consumidor, que o valoriza e compra.

Os produtos precisam ser divulgados e distribuídos em mercados consumidores potenciais, talvez, num primeiro momento, com apoio de órgãos do governo e parceiros. Depois, por meio da própria instituição produtora. Ou seja, as produções locais no modelo de economia solidária necessitam mais do que boas intenções e apelo pela carência das pessoas envolvidas. Mais que gerar bons produtos, o desenvolvimento sustentável precisa ser discutido e concebido com planos estratégicos de negócio, agregação de valor no local, formação de articulações institucionais e a utilização de um modelo eficaz de inserção nos mercados consumidores potenciais.

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