Caco Barcellos

Por: Revista Filantropia
01 Novembro 2009 - 00h00

Injustiça social, violência e desrespeito aos direitos humanos. Tais assuntos, que compõem diariamente os noticiários de TV, os jornais impressos e as notícias da internet, são tratados com maestria, profundidade e humanidade pelo jornalista Cláudio Barcelos de Barcelos, mais conhecido como Caco Barcellos. Nascido na periferia de Porto Alegre, foi taxista durante algum tempo para, depois, atuar como repórter no jornal gaúcho Folha da Manhã.

Antes de começar a trabalhar na Rede Globo, atuou como jornalista em revistas semanais de grande alcance e já foi correspondente internacional em Nova York e em Londres. Com mais de 20 anos de experiência, Caco sempre focou suas reportagens e livros no âmbito social – sua obra Rota 66, que traz as histórias da “polícia que mata” em São Paulo, lhe rendeu um Prêmio Jabuti em 1993 e é um exemplo disso: sua investigação levou à identificação de 4,2 mil vítimas da Polícia Militar de São Paulo.

Escreveu também Abusado, o dono do morro Dona Marta, relato sobre o tráfico nas favelas do Rio de Janeiro, e Nicarágua: a revolução das crianças, sobre a queda da ditadura militar no país. Em 2008, recebeu o Prêmio Especial das Nações Unidas como um dos cinco jornalistas que mais se destacaram na defesa dos direitos humanos no Brasil.

Atualmente, à frente do semanal Profissão Repórter, Caco e um grupo de jovens repórteres mostram a realidade de pessoas que vivem em diferentes regiões do Brasil e do mundo.


Revista Filantropia: Como você começou a se envolver com as questões sociais no seu trabalho?

Caco Barcellos: Quando comecei a atuar com jornalismo efetivamente, era a época da ditadura militar. Por conta disso, era muito difícil que os políticos e as autoridades dessem entrevistas e declarações para os jornalistas. Nesse período, os problemas sociais eram muitos e, por isso, comecei a ter contato com as pessoas comuns, que enfrentavam as situações, para fazer as reportagens. Consequentemente, passei a me ligar nas questões mais voltadas para o social e para a realidade da população.

RF: Qual foi sua primeira obra de destaque com foco na área de direitos humanos?

CB: Minha primeira obra de destaque na área foi o livro Nicarágua: a revolução das crianças. Tratava-se de uma guerra contra um sistema ditatorial em que a população venceu o sistema, fato que nunca havia acontecido, nem na Argentina, nem no Brasil ou nos Estados Unidos. Tive a sorte de estar lá fazendo a cobertura da guerra para um jornal para o qual escrevia, então, estava realmente ao lado das pessoas comuns, dos moradores, sentindo a realidade deles naquele momento. Passei pela situação com eles, poderia ter morrido na guerra, assim como eles. Então, considero esta uma obra importantíssima no que diz respeito aos direitos humanos. Depois, escrevi o Rota 66, sobre a polícia militar de São Paulo, e Abusado, o dono do Morro Dona Marta, sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro.

RF: Como você descreveria a situação dos direitos humanos no Brasil hoje?

CB: Acredito que a situação esteja melhor. Passamos por muitos avanços, mas pequenos, eu diria. Claro que, em relação às questões políticas, houve muitos avanços se compararmos à época da ditadura militar. As pessoas têm muito mais liberdade do que antigamente. Porém, em questões comuns, continua a mesma coisa de sempre. A situação de vida de algumas pessoas em todos os Estados brasileiros está muito aquém dos direitos humanos, inclusive no eixo Rio-São Paulo, e não somente no Norte e Nordeste, como se imagina. Também acho que as pessoas deveriam ser tratadas de forma mais igualitária. Até hoje, o Estado atua de forma muito violenta sobre a sociedade, e isso deveria mudar. Somente são tomadas atitudes para mudar alguma realidade de verdade quando o problema envolve pessoas que têm influências e poder, e não quando se trata da população em geral, e isso, para mim, é um grande erro que ainda é presente.

RF: Você acredita que a questão do tráfico e da polícia tem algum tipo de solução?

CB: Em relação ao crime de maneira geral, acredito que haja, sim, uma solução até bem simples. A mais inteligente, em minha opinião, seria um posicionamento não violento do Estado. Isso por si só já resolveria bastante coisa. A questão é grave e envolve muita violência, de ambas as partes. Porém, se o Estado ainda colabora com isso, que é o que acontece atualmente, fica mais difícil solucionar a situação. A intervenção não violenta do Estado se dá em outros países, e os resultados são eficientes. Então, creio que esse seria um bom caminho para começar.

RF: Você sente que suas reportagens e publicações surtem efeitos positivos?

CB: Não sei se têm muito efeito, na verdade. Como jornalista, fica difícil mensurar o impacto que as reportagens têm realmente nas pessoas que as leem ou assistem. Mas uma mudança que considero muito importante, que aconteceu depois da publicação do Rota 66, em 1993, foi que, antes, os crimes eram julgados pela polícia e, depois, passaram a ser julgados por júri popular. Já é péssimo que a legislação fique nas mãos de quem tem poder. Então, para mim, essa foi uma mudança importantíssima. Claro que o livro não foi o único responsável por essa alteração, mas certamente foi um dos impulsionadores. De resto, entretanto, não senti nenhuma mudança muito impactante.

RF: Como são abordadas as questões sociais no programa Profissão Repórter?

CB: Procuramos falar de assuntos que interessam à grande parte da população, porém, sempre buscando histórias com um foco social. Preferimos nos ater a histórias de anônimos que passam por alguma situação e que têm algo a nos ensinar com isso. Ouvimos aqueles que realmente vivem os problemas sociais dia a dia.

RF: O que você acha da atuação das organizações sociais no Brasil?

CB: O que eu gostaria realmente é que a atuação das ONGs não fosse necessária. Somos um país muito solidário, muito bom e, por isso, elas existem. Mas, na verdade, existem porque temos muitos problemas sociais. Com as características do nosso povo, não poderiam mesmo deixar de existir. Mas gostaria que elas não precisassem atuar, que os direitos das pessoas fossem colocados em prática. Mas é claro que o papel delas é extremamente importante, essencial. Elas fazem muitas coisas que o governo deveria estar desenvolvendo.

RF: Você acha que o desenvolvimento social no país melhorou em comparação, por exemplo, a dez anos atrás?

CB: Se fizermos a comparação, com certeza o desenvolvimento social melhorou em diversas questões. Só o fato de termos 32 milhões de pessoas que ascenderam de classe social nos últimos anos, passando a integrar as classes A, B e C, já é muito importante. Ao mesmo tempo, quase 21 milhões de pessoas deixaram as classes D e E também, então, é possível dizer que estamos melhorando bastante.

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