Diálogo Entre Um Mendigo, Um Jovem E Um Pastor

Por: Gerson Fernandes Dantas
07 Outubro 2015 - 13h25

 

Certo dia, em uma pacata cidade do interior do país, um mendigo conversava com um pastor e um jovem que estava morando na rodoviária, que era próxima dali.

O diálogo acontecia em uma praça vizinha, à sombra de um lindo ipê roxo, comum naquela região, que por sinal estava repleto de flores. Quando viu aqueles homens conversando, logo chamou a atenção do jovem a Bíblia que estava na mão de um deles. Chegou meio sem graça e logo começou a participar da conversa.

O jovem começa o desabafo:

– Pois é, tenho passado dias de muita luta e sofrimento, e a rua tem me ensinado a valorizar as pequenas coisas. O código de conduta aqui é diferente. Uma das coisas que mais tem me chamado a atenção é que aqueles que têm pouco dividem o pouco com quem não tem nada. Vejo que este homem que está de terno é um pastor. Estou morando hoje na rua, mas há alguns anos era um jovem bem-sucedido. Tinha meu emprego, meu lar e congregava em uma igreja evangélica.

Eu era um jovem comprometido com a igreja e com Jesus. Até que chegou um dia em que meus limites e fraquezas me dominaram. Fui vencido por tentações que o mundo está sempre pronto a nos oferecer. São prazeres passageiros, que tornam a nossa mente passiva de tais desejos. Chegam sem pedir licença e logo tomam conta da nossa mente.

Essas tentações tinham como principal finalidade me afastar dos caminhos do Senhor. Esse caminho não é feito por estradas fáceis de percorrer, nem sempre é como imaginamos. Hoje reconheço que um dos meus erros nesta caminhada foi não valorizar os primeiros passos. Hoje, morando na rua, aprendi que pequenos sinais representam grandes milagres. E agradeço todos os dias às pequenas coisas com as quais Deus tem me agraciado.

Mesmo dentro da igreja, a bebida, a droga e a prostituição nunca me deixaram em paz. Eram como marcas que estavam bem ali pertinho, no meu subconsciente.

O pastor, então, pede licença e diz:

– Você se lembra do que Jesus disse: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”? O que faltou para você ser liberto por completo?

– Se a palavra do Senhor tivesse sido pregada na sua essência, hoje não estaria aqui sofrendo humilhações e desprezo nas ruas e praças. No momento em que mais precisei de um ombro amigo, recebi criticas e abandono. Onde estavam aqueles pastores e obreiros que, nos dias de culto, estampavam sorrisos e distribuíam abraços por toda igreja? Que valor tinham os abraços e sorrisos? Como esperei aquele abraço! Mas de uma coisa tenho certeza: meu Jesus nunca me abandonou, e para aumentar mais a minha decepção os irmãos que eu mais ajudei foram os primeiros a me julgarem e atiraram pedras.

O mendigo, então, baixa a cabeça e começa a falar baixinho. Retira um pedaço de pão de sua mochila e compartilha com seu companheiro Habacuque. Ele estava com fome, a hora já estava avançada. O mendigo pede uma oportunidade.

- Bem, diante de todo esse desabafo, e sei que ainda você tem coisas pra falar, quero garantir uma coisa para você, jovem: tudo o que você está passando tem a permissão de Deus. O seu caráter está sendo provado aqui nas ruas. Veja, os órgãos e entidades que tinham o papel de nos apoiar e ajudar viram as costas para nós. A Igreja muito raramente nos dá um agasalho e, nos dias muito frios, uma sopa com pão. Pois Bem estou diante de um homem que mora nas praças e nas ruas e de um pastor. Em quem posso confiar? O pastor pode até me apresentar um modelo de igreja que vai me impressionar, mas depois do que passei, não acredito mais.

O mendigo, meio assustado com a fisionomia do pastor diante de todo esse desabafo, resolve falar:

- Fica em paz, Reverendo. Isso que estamos ouvindo não é nada comparado ao que escuto todos os dias nas praças da vida. A conclusão a que chego é de que a maioria das igrejas evangélicas do nosso país está doente, e se esconde atrás de uma máscara. Algumas até parecem perfeitas, mas é apenas a maquiagem que disfarça o que está escondido por baixo dos tapetes vermelhos. O que fez esse jovem estar morando nas ruas não foram apenas as investidas de satanás. Foi também a forma de relacionamentos que a maioria das igrejas evangélicas está construindo entre os irmãos. Onde está o amor? Onde está o perdão? Onde está o ombro amigo?

A palavra foi pregada a esse jovem, por que não se libertou? Por que não curou a sua alma? Por que não houve restauração e transformação de vida?

Faltou o amor à compreensão e, acima de tudo, a paciência.

Esse jovem é apenas um soldado ferido esperando uma oportunidade de recomeçar.

*Pastor da Comunidade Cristã Semear – Natal / RN

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