(des)abrigar para a inserção social

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Maio 2004 - 00h00

Há muitas décadas, Francisca Franco desenvolveu trabalhos sociais em sua propriedade rural, localizada no sul de Minas Gerais. Naquele local, pessoas carentes da região utilizavam o armazém da fazenda para desenvolver um sistema que pode hoje ser comparado a um projeto embrionário de cooperativismo, que garantia o sustento de muitas famílias. Muitos anos após o falecimento da sra. Francisca, seu filho, Isaac Franco, juntamente à esposa Odila, decidiu constituir uma entidade, a fim de que o trabalho social da família tivesse continuidade. Assim, em dezembro de 1954 era instituída a Fundação Francisca Franco, com a missão de assistir pessoas carentes, prestando auxílio em suas necessidades básicas, como alimentação e vestuário.

O início do trabalho

“Inicialmente, a atuação tinha um aspecto extremamente assistencialista”, comenta Gilson Moreira, presidente da Fundação Francisca Franco. O elo que a família tinha com a Igreja Presbiteriana fez com que muitas pessoas que se dirigiam à igreja em busca de itens de subsistência encontrassem na entidade uma solução para seus dramas diários. Vale lembrar que a ação social, naquele momento histórico, estava intimamente ligada ao assistencialismo, sem haver uma visão integrada ou a busca pela erradicação da origem do problema.

Com a morte de Isaac, parte do patrimônio foi destinado à manutenção da fundação. Dessa forma, outras atividades começaram a surgir na entidade, como a criação do abrigo Casa da Mamãe. Gilson conta que “a razão para a criação do abrigo foi o grande número de mulheres desamparadas pelos maridos, com muitos filhos, que vinham procurar ajuda na fundação, pois não tinham como sustentar a família”. Assim criou-se a Casa, com capacidade para abrigar até 20 pessoas, entre mulheres e filhos, que recebem insumos e um lugar para morar.

Caroline Domingues, responsável pela captação de recursos da entidade, lembra que “naquela fase, o trabalho era completamente desprovido de profissionalismo, sendo guiado apenas pela boa vontade e o altruísmo”. Isso fazia com que poucos resultados pudessem ser realmente avaliados e verificados, até porque não havia um sistema de reintegração das pessoas – era apenas uma forma de alívio imediato, que criava um vínculo de dependência entre atendido e organização.

Virada de página

O início da década de 80 representou uma virada de página nos trabalhos da fundação. As pessoas atendidas passaram a ganhar em promoção humana, deixando de ser contempladas apenas em suas necessidades primárias. Tudo para que, ao final de um período de abri-gamento, a organização pudesse come-morar o desabrigamento com qualidade.

A Casa da Mamãe existe até hoje e tem como público-alvo mulheres vítimas de violência na perspectiva de gênero (agressões por parte dos companheiros). As participantes têm um período pré-determinado de atendimento (seis meses, no máximo), ou seja, não ficam indefinidamente abrigadas. A existência de um prazo limite é fundamental para que exista um plano de trabalho daquela atendida, evitando que ela não saia da dependência do companheiro para se tornar uma dependente da instituição. A faixa etária auxiliada é acima de 18 anos, com filhos de até 18 anos.

Atendimento pioneiro e diferenciado

Como resultado da profissionalização e parcerias, hoje são mantidos quatro abrigos que atendem crianças, adolescentes e mulheres. Dentre eles, duas casas trabalham exclusivamente, em caráter de pioneirismo, com jovens gestantes e mães menores de 18 anos. São as unidades conhecidas como Casas da Menina Mãe. A primeira das unidades foi criada no início dos anos 90 para atender a um grupo de meninas com potencial de reinserção familiar. Nessa Casa, o objetivo é preparar a atendida e a família para a aproximação e o convívio saudá-vel. O prazo limite de permanência no abrigo é de aproximadamente um ano e meio.

Já a segunda unidade da Casa da Menina Mãe surgiu em função de algumas necessidades identificadas na primeira. “Buscamos a inserção delas em uma vida minimamente estruturada, por meio da educação profissionalizante, da inscrição do filho em uma creche, enfim, é o início de uma nova vida”, relata o presidente da fundação.

O dia-a-dia na Casa procura atender ao bem-estar comum. Como exemplo referencial, a jovem Maria (nome fictício), menor de idade e gestante, acorda cedo, toma café-da-manhã e cumpre sua parte na limpeza da Casa, seguindo para a escola regular. À tarde, geralmente, há visita ao médico, pré-natal e curso profissionalizante. As meninas passam a conhecer as opções de saúde e lazer oferecidos pela comunidade.

Equipe de colaboradores

Até 1997 não havia controle do número de pessoas atendidas, uma vez que o livro de registro não era sistematizado. De lá para cá vem ocorrendo um processo de estruturação de controle. A equipe conta hoje com 53 pessoas distribuídas nas quatro Casas. Os voluntários já chegaram a 50, sendo esse número variável e normalmente ligado ao entretenimento e ocupação, como técnicas de relaxamento e crochê.

Existem parcerias com grupos de estudantes de Psicologia do Mackenzie e da PUC. “Os alunos da PUC fazem um trabalho de acompanhamento junto ao grupo de moda, a educação profissionalizante. Já a parceria recente com o Mackenzie trabalha com a mediação familiar em que o grupo, acompanhado por supervisão, trabalha com o agressor, para que exista melhor retorno da vítima para a família”, informa Gilson Moreira.

O desafio da captação de recursos

A Fundação Francisca Franco enfrenta desafios no âmbito da captação de recursos. “Captar recursos para abrigos é difícil, pois as empresas muitas vezes encaram o trabalho como obras meramente assistencialistas. As campanhas são a forma mais comum, quando querem envolver os funcionários”, lembra Caroline Domingues. De forma mais contínua, há o apoio da Fundação Mary Speers, da Fundação Ação Criança e do governo, pelos convênios municipais e estaduais. Já na escola profissionalizante de moda, existe apoio de entidades particulares, como o Instituto Camargo Corrêa e a Fundação Abrinq.

A organização publica seu balanço social anualmente e possui auditoria externa, tendo como recompensa a conquista do Prêmio Bem Eficiente, além da posição de finalista do prêmio da Fundação Abrinq.

Neste ano, a fundação comemora 50 anos de uma longa história de serviços prestados à comunidade, especialmente a uma classe extremamente discriminada. Afinal, as jovens carentes não estão grávidas apenas de um bebê, mas também de um futuro, que a organização ajuda a desenhar com cores mais vivas.

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