De voluntário a comunitário

Por: Maria Iannarelli
01 Outubro 2005 - 00h00

“Naquela manhã de sábado de julho de 1999, a vontade de ir foi maior que a de ficar dormindo em casa. Encontrei-me com a amiga em uma estação do metrô e de lá pegamos um ônibus. Ela, que já tinha me convidado tantas vezes para conhecer o trabalho comunitário daquele grupo, em uma região no extremo sul de São Paulo, juntamente com sua filha, ficou feliz com a minha companhia.

A distância era longa. Ao chegar naquele local simples, onde os trabalhadores, que eram tanto moradores da comunidade quanto vindos de longe, preparavam alimento e traziam mensagens de esperança para as pessoas, especialmente mulheres e crianças. Foi assim meu primeiro dia de trabalho comunitário.

Depois desse dia, me apaixonei pela proposta amparada na crença na possibilidade de transformação das pessoas e me vinculei ao grupo. Pouco tempo depois, meu marido passou a freqüentá-lo também. De lá para cá, tenho desenvolvido atividades com as crianças no período da manhã, enquanto meu marido auxilia na cozinha, na preparação do alimento.

Acredito que o maior ganho nessa vivência é pessoal. Passei a ter um olhar mais pleno e solidário em relação às pessoas com quem convivemos, um sentido de cidadania mais amplo e entendimento mais completo das questões sociais e de suas diferenças.


Mudanças

A cidade de São Paulo é tão grande, tão complexa e, por vezes, desumana. O contato com o grupo nos devolveu os sentimentos de compartilhar, dividir, agregar, aprender, tolerar, aceitar, respeitar, ouvir, ter compaixão e, principalmente, o sentimento de pertencimento que nos faz sentir parte do trabalho.

Prefiro usar o termo comunitário em vez de voluntário. Entendo que a atividade voluntária requer a vontade de conhecer, expressa na primeira frase deste texto. Ultrapassada essa etapa e existindo a sintonia de interesse na participação, aos poucos, o conceito se amplia para comunitário.

Acredito que, hoje, não somos nós os imprescindíveis ao trabalho. O trabalho é que é imprescindível para nós, porque compartilhamos com um grupo de pessoas que acreditam na possibilidade de um mundo mais igualitário.


Somar

Em 2002, devido a minha experiência profissional com dependência química, comecei a participar também de outro trabalho, em um instituto sem fins lucrativos que trata de alcoólicos e seus familiares. Passei a desenvolver o grupo informativo para familiares de alcoólicos, na maior parte atendidos na instituição. Foi uma forma de aliar o conhecimento teórico adquirido ao longo da minha carreira como profissional à atividade comunitária, procurando divulgar o conceito da doença familiar, que é o alcoolismo.

Minha vivência pode parecer, para alguns, paliativo, que não resolverá o problema crônico da pobreza, do abandono e da doença. Para as pessoas que atuam nessas instituições, como em tantas outras, são ações de recuperação da fé no ser humano, no sentido de coletividade, na construção de um mundo mais solidário. Algumas ações são pontuais, outras coletivas. O conjunto delas tem poder de transformação.

Um sorriso e deslumbramento de uma criança, uma descoberta trazida por uma informação sobre uma doença são a esperança que faz a humanidade caminhar. É nisso que acredito: que só posso transformar a mim mesma, não tenho a pretensão de mudar o outro. E que, juntos, podemos transformar muita coisa.

Tudo isso me motiva a participar desses trabalhos comunitários, pois cresço e me transformo com eles. Sinto-me privilegiada de estar engajada nessas atividades.”

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